Bianca Não Dorme

1099 Words
Bianca apareceu três dias depois da tentativa de fuga. Não avisou. Não ligou antes. Simplesmente estava ali quando desci para a sala naquela manhã, sentada no sofá, abraçando uma almofada como se fosse proteção. O cabelo preso de qualquer jeito, o rosto sem maquiagem, os olhos inchados de quem não dorme há dias. Arthur não estava em casa. O coração acelerou, mas não de medo. De irritação contida. — O que você está fazendo aqui? — perguntei. Ela levantou o olhar devagar, como quem mede cada palavra antes de dizer. — Eu precisava te ver. — Precisar não dá direito. — Eu sei — respondeu, a voz baixa. — Mas eu não aguentava mais ficar sozinha com isso. Fiquei em pé, sem convidá-la a continuar. — Falar não muda o que você fez. — Eu sei — repetiu. — Mas ficar em silêncio está me destruindo. Cruzei os braços. — Você não parecia destruída quando estava na cama com meu marido. A frase saiu sem esforço. Bianca fechou os olhos por um segundo, como se tivesse levado um tapa. — Eu não durmo desde aquele dia — disse. — Eu fecho os olhos e vejo tudo de novo. — Ótimo — respondi. — Então a culpa finalmente chegou. Ela balançou a cabeça. — Não é só culpa. É… vazio. — Vazio não justifica traição. Bianca se levantou devagar. — Você sempre foi a forte — disse. — A certinha. A que deu certo. — Isso não me obrigava a dividir meu marido com você. Ela engoliu seco. — Eu não planejei aquilo. — Você tirou a roupa, Bianca. Isso é planejamento suficiente. Ela respirou fundo, tentando não chorar. — Eu estava perdida. — Você sempre esteve — respondi. — Mas isso nunca te impediu de invejar. O silêncio pesou entre nós. — Arthur disse que você tentou sair — Bianca falou, de repente. Meu corpo ficou alerta. — Arthur fala demais. — Ele está com medo — ela continuou. — Medo de perder tudo. — Ele só sabe sentir medo quando o controle escapa. Bianca me encarou. — Ele nunca falou de amor comigo. — Isso não te impediu. — Porque eu não queria amor — ela confessou. — Eu queria ser você. A frase caiu pesada. — Isso é doentio — respondi. — Eu sei — disse ela, com um sorriso triste. — Sempre soube. Mas você nunca percebeu o quanto tudo girava em torno de você. — Isso não é verdade. — É — insistiu. — Mamãe sempre comparou. Papai sempre elogiou você. Arthur… — ela hesitou — Arthur me olhava como quem olha algo que não importa. — E ainda assim você foi para a cama com ele. — Porque, pela primeira vez, ele me viu. Senti uma mistura de raiva e pena. Não suficiente para perdoar. Mas suficiente para entender o buraco emocional dela. — Ele te usou — falei. — Eu sei agora. — Sabia antes também — corrigi. — Só não quis aceitar. Bianca sentou de novo. — Você acha que eu não paguei? — perguntou. — Eu perdi tudo. Contratos. Amigas. Convites. Mamãe m*l fala comigo. Papai me evita. Eu virei o erro da família. — Você virou consequência — respondi. Ela assentiu. — Eu sei que você nunca vai me perdoar. — Perdão não é prioridade. — Então por que está me ouvindo? Pensei antes de responder. — Porque você está aqui. E porque mentiras m*l contadas sempre voltam. Bianca respirou fundo. — Arthur nunca tratou aquilo como erro — disse. — Ele sempre falou como se fosse algo… administrável. Meu estômago revirou. — O que você quer dizer? — Que ele sabia que você ficaria. Que o contrato seguraria tudo. Que o escândalo não aconteceria. — Ele disse isso a você? Bianca hesitou. — Disse que eu não precisava me preocupar. Que você era racional. Que pensaria no bebê. Fechei os olhos por um segundo. — Ele calculou tudo. — Não exatamente — Bianca respondeu. — Mas também não se surpreendeu. — E você? — perguntei. — O que achou que ia acontecer? — Achei que ele me escolheria — disse, com a voz quebrada. — Ele nunca escolhe pessoas — respondi. — Escolhe posições. Bianca assentiu lentamente. — Eu fui burra. — Foi egoísta. — Também. O silêncio voltou, menos tenso, mais pesado. — Arthur não dorme bem — Bianca disse. — Ele anda agressivo no trabalho. Desconfiado. Controlador. — Ele sempre foi — respondi. — Não assim — ela insistiu. — Ele tem medo de você agora. Levantei o olhar. — Medo de quê? — De que você saiba demais. Meu coração acelerou, mas mantive a voz firme. — Saiba o quê? Bianca balançou a cabeça. — Eu não sei tudo. Mas sei que a história do pai dele não é como contam. — O que você sabe? — Que houve dinheiro sujo. Gente prejudicada. Acordos enterrados. — E você descobriu isso como? — Helena fala demais quando bebe — Bianca respondeu. — E acha que eu não escuto. Guardei cada palavra. — Por que está me dizendo isso agora? — Porque eu não aguento mais ser cúmplice — disse ela. — E porque, se tudo cair, eu não quero estar do lado errado de novo. Olhei para ela com frieza. — Você já esteve. — Eu sei — respondeu. — Mas talvez ainda dê tempo de não afundar mais. — Você não faz isso por mim — falei. — Faz por você. — Sim — admitiu. — Mas isso não invalida o que sei. Arthur chegou naquele momento. Parou na porta ao ver Bianca ali. O rosto endureceu. — O que ela está fazendo aqui? — perguntou. — Conversando comigo — respondi. — Sobre o quê? — Sobre dormir — Bianca disse, levantando-se. — Algo que você não anda fazendo bem. Arthur a encarou com raiva contida. — Vá embora. — Eu já ia — respondeu ela. Antes de sair, olhou para mim. — Você não é louca. Nunca foi. A porta se fechou. Arthur virou-se para mim. — Você não devia falar com ela. — Ela é minha irmã. — Ela é instável. — E você é perigoso. O silêncio que se seguiu foi denso. — O que ela te disse? — Arthur perguntou. — O suficiente para eu entender por que você tem medo — respondi. Ele não disse nada. Naquela noite, deitada na cama, entendi algo com clareza incômoda: Bianca não dormia porque a culpa a mantinha acordada. Arthur não dormia porque o controle estava escapando. E eu… eu finalmente estava acordada de verdade.
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