Bianca apareceu três dias depois da tentativa de fuga.
Não avisou. Não ligou antes. Simplesmente estava ali quando desci para a sala naquela manhã, sentada no sofá, abraçando uma almofada como se fosse proteção. O cabelo preso de qualquer jeito, o rosto sem maquiagem, os olhos inchados de quem não dorme há dias.
Arthur não estava em casa.
O coração acelerou, mas não de medo. De irritação contida.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei.
Ela levantou o olhar devagar, como quem mede cada palavra antes de dizer.
— Eu precisava te ver.
— Precisar não dá direito.
— Eu sei — respondeu, a voz baixa. — Mas eu não aguentava mais ficar sozinha com isso.
Fiquei em pé, sem convidá-la a continuar.
— Falar não muda o que você fez.
— Eu sei — repetiu. — Mas ficar em silêncio está me destruindo.
Cruzei os braços.
— Você não parecia destruída quando estava na cama com meu marido.
A frase saiu sem esforço. Bianca fechou os olhos por um segundo, como se tivesse levado um tapa.
— Eu não durmo desde aquele dia — disse. — Eu fecho os olhos e vejo tudo de novo.
— Ótimo — respondi. — Então a culpa finalmente chegou.
Ela balançou a cabeça.
— Não é só culpa. É… vazio.
— Vazio não justifica traição.
Bianca se levantou devagar.
— Você sempre foi a forte — disse. — A certinha. A que deu certo.
— Isso não me obrigava a dividir meu marido com você.
Ela engoliu seco.
— Eu não planejei aquilo.
— Você tirou a roupa, Bianca. Isso é planejamento suficiente.
Ela respirou fundo, tentando não chorar.
— Eu estava perdida.
— Você sempre esteve — respondi. — Mas isso nunca te impediu de invejar.
O silêncio pesou entre nós.
— Arthur disse que você tentou sair — Bianca falou, de repente.
Meu corpo ficou alerta.
— Arthur fala demais.
— Ele está com medo — ela continuou. — Medo de perder tudo.
— Ele só sabe sentir medo quando o controle escapa.
Bianca me encarou.
— Ele nunca falou de amor comigo.
— Isso não te impediu.
— Porque eu não queria amor — ela confessou. — Eu queria ser você.
A frase caiu pesada.
— Isso é doentio — respondi.
— Eu sei — disse ela, com um sorriso triste. — Sempre soube. Mas você nunca percebeu o quanto tudo girava em torno de você.
— Isso não é verdade.
— É — insistiu. — Mamãe sempre comparou. Papai sempre elogiou você. Arthur… — ela hesitou — Arthur me olhava como quem olha algo que não importa.
— E ainda assim você foi para a cama com ele.
— Porque, pela primeira vez, ele me viu.
Senti uma mistura de raiva e pena. Não suficiente para perdoar. Mas suficiente para entender o buraco emocional dela.
— Ele te usou — falei.
— Eu sei agora.
— Sabia antes também — corrigi. — Só não quis aceitar.
Bianca sentou de novo.
— Você acha que eu não paguei? — perguntou. — Eu perdi tudo. Contratos. Amigas. Convites. Mamãe m*l fala comigo. Papai me evita. Eu virei o erro da família.
— Você virou consequência — respondi.
Ela assentiu.
— Eu sei que você nunca vai me perdoar.
— Perdão não é prioridade.
— Então por que está me ouvindo?
Pensei antes de responder.
— Porque você está aqui. E porque mentiras m*l contadas sempre voltam.
Bianca respirou fundo.
— Arthur nunca tratou aquilo como erro — disse. — Ele sempre falou como se fosse algo… administrável.
Meu estômago revirou.
— O que você quer dizer?
— Que ele sabia que você ficaria. Que o contrato seguraria tudo. Que o escândalo não aconteceria.
— Ele disse isso a você?
Bianca hesitou.
— Disse que eu não precisava me preocupar. Que você era racional. Que pensaria no bebê.
Fechei os olhos por um segundo.
— Ele calculou tudo.
— Não exatamente — Bianca respondeu. — Mas também não se surpreendeu.
— E você? — perguntei. — O que achou que ia acontecer?
— Achei que ele me escolheria — disse, com a voz quebrada.
— Ele nunca escolhe pessoas — respondi. — Escolhe posições.
Bianca assentiu lentamente.
— Eu fui burra.
— Foi egoísta.
— Também.
O silêncio voltou, menos tenso, mais pesado.
— Arthur não dorme bem — Bianca disse. — Ele anda agressivo no trabalho. Desconfiado. Controlador.
— Ele sempre foi — respondi.
— Não assim — ela insistiu. — Ele tem medo de você agora.
Levantei o olhar.
— Medo de quê?
— De que você saiba demais.
Meu coração acelerou, mas mantive a voz firme.
— Saiba o quê?
Bianca balançou a cabeça.
— Eu não sei tudo. Mas sei que a história do pai dele não é como contam.
— O que você sabe?
— Que houve dinheiro sujo. Gente prejudicada. Acordos enterrados.
— E você descobriu isso como?
— Helena fala demais quando bebe — Bianca respondeu. — E acha que eu não escuto.
Guardei cada palavra.
— Por que está me dizendo isso agora?
— Porque eu não aguento mais ser cúmplice — disse ela. — E porque, se tudo cair, eu não quero estar do lado errado de novo.
Olhei para ela com frieza.
— Você já esteve.
— Eu sei — respondeu. — Mas talvez ainda dê tempo de não afundar mais.
— Você não faz isso por mim — falei. — Faz por você.
— Sim — admitiu. — Mas isso não invalida o que sei.
Arthur chegou naquele momento.
Parou na porta ao ver Bianca ali. O rosto endureceu.
— O que ela está fazendo aqui? — perguntou.
— Conversando comigo — respondi.
— Sobre o quê?
— Sobre dormir — Bianca disse, levantando-se. — Algo que você não anda fazendo bem.
Arthur a encarou com raiva contida.
— Vá embora.
— Eu já ia — respondeu ela. Antes de sair, olhou para mim. — Você não é louca. Nunca foi.
A porta se fechou.
Arthur virou-se para mim.
— Você não devia falar com ela.
— Ela é minha irmã.
— Ela é instável.
— E você é perigoso.
O silêncio que se seguiu foi denso.
— O que ela te disse? — Arthur perguntou.
— O suficiente para eu entender por que você tem medo — respondi.
Ele não disse nada.
Naquela noite, deitada na cama, entendi algo com clareza incômoda:
Bianca não dormia porque a culpa a mantinha acordada.
Arthur não dormia porque o controle estava escapando.
E eu…
eu finalmente estava acordada de verdade.