O Dia em Que Tudo Saiu do Lugar

1513 Words
Acordei antes do despertador, o que raramente acontecia. Bianca dormia no quarto ao lado, e o silêncio da casa parecia pesado demais para ser ignorado. Eu não sabia explicar, mas sentia que aquele dia não seria comum. Desci para preparar café. As mãos tremiam levemente. O cheiro do café quase me deu enjoo de novo, mas ignorei. Devia ser estresse. Devia ser tudo isso acumulado. Marta apareceu. — A senhora dormiu bem? — Não muito. — Posso preparar um chá? — Não precisa. Só… fique perto hoje. Ela franziu o cenho. — Aconteceu alguma coisa? Eu quase respondi “sim”. Mas não tinha como explicar. Tudo ainda era uma sensação, uma intuição. — Depois eu explico, Marta. Sentei à mesa e tentei me distrair, mas a mente voltava sempre ao mesmo lugar: Bianca tremendo, Arthur frio ao telefone, o olhar vazio dela quando disse que não podia contar tudo. Foi quando o celular vibrou. Uma mensagem de Arthur: “Estou preocupado com você.” Fechei os olhos. Preocupado? Ou monitorando? Demorei a responder. “Estou bem.” A resposta dele veio em segundos, rápida demais: “Não parece.” Arrepio. Respirei fundo. “O que você quer, Arthur?” O celular ficou em silêncio por um minuto inteiro. Depois, uma mensagem longa: “Quero que você cuide da sua irmã. Ela está instável. Não deixe ela sozinha. Ainda mais aí… naquela casa.” Aquela casa. Como se a casa fosse o problema. Como se ele não fosse o verdadeiro perigo. Antes que eu respondesse, outra mensagem: “E não leve tudo pro pessoal. Você está sensível demais.” Pronto. A velha estratégia: me questionar, me diminuir, me fazer duvidar da própria percepção. Guardei o celular na gaveta e tentei me concentrar no café que já esfriava. Bianca acordou perto do meio-dia, descendo as escadas com o cabelo bagunçado e o rosto marcado. — Dormiu? — perguntei. — Não. — Quer comer alguma coisa? — Não. Ela parecia… menor. Como se estivesse encolhendo por dentro. — Bianca, eu preciso saber o que está acontecendo. — Eu já disse que não posso falar. — E eu não vou parar de perguntar. — É sobre você. — Então mais ainda eu preciso saber. Ela respirou fundo, segurou a xícara com força e baixou o olhar. — Arthur é… inteligente demais. — Eu sei que ele é manipulador. — Não, Dami… você não entende. Ele é inteligente demais. Ele sabe exatamente o que dizer. O que mostrar. O que esconder. Ele faz a gente acreditar no que ele quer. — Ele fez isso com você? — Ele… conversa comigo como se… — Bianca engoliu seco — como se eu fosse importante pra ele. Meu estômago se revirou. Eu sabia que Arthur sempre teve um poder estranho sobre ela. Não físico. Psicológico. — Isso está errado, Bianca. — Eu sei. Mas… ao mesmo tempo… eu não sei. E então ela disse, quase sussurrando: — Ele me faz sentir… vista. Era isso. O ponto exato da fragilidade dela. Bianca nunca se sentia vista. — Você não precisa desse tipo de atenção. — Eu sei. — Você precisa entender que Arthur está te usando. Ela apertou os olhos. — Dami… eu estou com medo. — Medo de quê? — Medo do que ele pode fazer se eu decepcionar ele. Aquilo rasgou algo dentro de mim. — Você não deve nada a ele! — Ele disse… — Bianca abaixou o olhar, chorando silenciosamente — que eu podia colocar tudo a perder. Que eu era imprevisível. Que você não podia confiar em mim quando estou nervosa. Minha garganta fechou. — Ele te disse isso? — Disse. — Ele quer te isolar de mim. — Eu sei. — E você deixou? — Dami… ele… me conhece. Ele sabe onde tocar. Sabe o que dói. E quando ele fala com aquela calma… eu sinto que estou errada. Que ele está certo. Eu abracei Bianca. — Você não está errada. — Eu estou sim. Eu sempre estou. Ela chorou no meu ombro por longos minutos. E eu entendi algo terrível: Arthur não estava apenas controlando o meu casamento. Ele estava moldando a percepção da minha irmã. E isso… isso era monstruoso. À tarde, fui ao escritório revisar um processo. Quando voltei para casa, Marta me chamou. — Dona Damiana… seu pai veio aqui. — Meu pai? — Sim. Ele está lá fora, esperando na sala de estar. Meu coração apertou. Meu pai raramente aparecia sem avisar. Quando entrei na sala, ele se levantou. — Filha. — Pai… o que houve? — Precisamos conversar. Ele tinha os olhos levemente vermelhos. Isso me assustou mais do que qualquer outra coisa. — Senta — ele pediu. Sentei. — Aconteceu alguma coisa com a Bianca? — perguntei. — Ela me ligou ontem. Chorando. — Disse algo? — Disse que… que você estava estranha. E que Arthur estava preocupado com você. Eu respirei fundo. — Pai… — Ela disse que você estava se isolando. Que não queria ver ninguém. Que estava tomando decisões impulsivas. — Bianca disse isso? — Disse. Meu mundo virou de cabeça para baixo. Arthur tinha invertido tudo. Transformado eu na instável. Eu na impulsiva. Eu na suspeita. — Pai, não é verdade. Bianca está assustada. Arthur está manipulando ela. — E você? — Eu estou tentando entender o que está acontecendo com eles. Ele passou a mão pelo rosto, cansado. — Damiana… eu sei que casamento é complicado. Mas Arthur me ligou também. Arthur ligou pro meu pai. Minha visão embaçou. — E o que ele disse? — Que você anda distante. Que está suspeitando de coisas inexistentes. Que pode estar emocionalmente sobrecarregada. Sobrecarregada. Instável. Sensível. O dicionário de Arthur para “ela está começando a perceber”. — Pai… você acredita nisso? Ele hesitou. E essa hesitação doeu mais que qualquer resposta. — Eu não sei no que acreditar — admitiu. E então veio o golpe final: — Arthur disse que te ama. Que está tentando te proteger. Mas que você não está colaborando. Uma raiva silenciosa subiu pelo meu peito. Ele não estava apenas manipulando Bianca. NÃO. Ele estava manipulando a família inteira. Criando uma narrativa perfeita: Damiana está instável. Arthur é o homem preocupado. Bianca é a irmã emocional. Um triângulo perfeito para quebrar qualquer mulher. Mas eu não ia quebrar tão fácil assim. — Pai… — falei, com a voz firme — Arthur está fazendo um jogo. Eu não sei qual ainda, mas está. E Bianca está presa nesse jogo. — Filha… — Eu não estou instável. Não estou perdida. Não estou inventando nada. Ele respirou fundo. — Só… me avise se precisar de ajuda, tudo bem? Eu assenti, mesmo sabendo que ele ainda estava dividido. No fim da tarde, depois que meu pai saiu, escutei Bianca discutindo baixo no corredor. Fui até lá. Ela estava no telefone, sussurrando: — Eu sei… mas eu não posso… Arthur, por favor… não faça isso… Quando ela me viu, empalideceu. — Com quem você está falando? — Ninguém. — Bianca. Ela desligou na hora. — Era o Arthur? Ela ficou em silêncio. E isso bastou como resposta. — Por que você está falando com ele pelas costas? — Eu não estou pelas costas! — Então o que é isso? — Eu… eu não sei! Eu só… eu só precisava ouvir ele! — Pra quê?! — Porque ele disse que você ia ficar brava comigo! Que eu ia estragar tudo de novo! Que… que… — ela começou a chorar — que eu ia te machucar sem querer. Foi como levar um soco no estômago. Arthur estava preparando terreno. Passo por passo. Palavra por palavra. — Bianca, chega — eu disse, segurando seus ombros. — Você não vai mais falar com ele. — Ele vai ficar bravo. — E daí? — Ele disse que… que… — O que ele disse?! Ela tremeu. Tremeu como um animal acuado. — Ele disse… que se eu abrir a boca… ele acaba com a nossa família. Minha respiração falhou. — Como assim? — Que ele sabe coisas. Que ele tem documentos. Que… que tudo vai explodir se eu falar demais. Tudo estava ficando pior do que eu imaginava. Bianca chorava descontrolada. — Eu estou presa, Dami. Eu estou presa. — Não está. — Estou! — Bianca, olha pra mim. Ela ergueu o rosto. — Ele não decide sua vida. — Decide sim! — Não decide! — Você… — Bianca soluçou — você não entende o que ele é capaz de fazer… E naquele momento, eu entendi: Arthur Alencar não estava apenas fora de controle. Ele estava preparando uma queda. Uma armadilha. Uma narrativa inteira — e eu era o alvo principal. Naquela noite, quando fechei a porta do meu quarto, percebi uma coisa devastadora: Arthur não precisava estar em casa para dominar tudo. Ele estava dominando à distância. Movendo peças que eu nem sabia que existiam. E usando a pessoa que eu mais queria proteger como arma contra mim. Meu casamento não tinha rachado. Meu casamento tinha explodido por dentro. E eu ainda não tinha visto os estilhaços.
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