Arthur afastou Helena por três semanas.
Não foi um gesto nobre.
Foi uma decisão estratégica.
Ele não discutiu. Não explicou. Apenas informou que ela deveria “dar espaço”. Helena não gostou, mas obedeceu. Sempre obedeceu quando o império estava em risco.
Quando ela saiu da casa, o ar pareceu menos pesado. Não leve. Apenas respirável.
Arthur voltou a assumir tudo sozinho.
— Isso não é definitivo — ele disse, no primeiro dia sem ela. — É temporário.
— Tudo que machuca costuma ser temporário para quem não sente — respondi.
Ele ignorou.
— Você precisa de repouso.
— Preciso de liberdade.
— Repouso vem antes.
Minha rotina mudou novamente, mas dessa vez de forma mais sutil. Não havia ordens diretas, apenas orientações “médicas”. Alimentação controlada. Horários fixos. Menos visitas. Menos estímulos.
Menos eu.
Arthur passou a dormir comigo todas as noites. Não me tocava como marido. Tocava como alguém que conferia se algo ainda estava no lugar. Às vezes, a mão pousava sobre meu abdômen. Nunca sobre meu rosto.
— Está tudo bem? — ele perguntava.
— Estou viva.
Era sempre essa resposta.
Ele começou a me observar com mais atenção. Não como quem vigia, mas como quem mede riscos. Cada silêncio meu parecia gerar uma planilha invisível na cabeça dele.
— Você está quieta demais — comentou certa noite.
— Você prefere gritos?
— Prefiro previsibilidade.
— Eu não sou previsível.
— Pessoas sob controle são.
— Então você já falhou.
Arthur me olhou por alguns segundos longos demais.
— Você mudou.
— Você também.
— Eu estou corrigindo erros.
— Está empilhando novos.
Ele não respondeu.
Dois dias depois, algo que eu não esperava aconteceu.
Arthur me chamou para sair.
— Jantar — disse ele. — Fora.
— Achei que isso estivesse fora de cogitação.
— Estou tentando normalizar as coisas.
— Normalizar ou testar?
— Ambos.
Aceitei.
Não por vontade.
Por estratégia.
O restaurante era discreto. Nada de fotógrafos, nada de olhares curiosos. Arthur escolheu bem. Sempre escolhia.
Durante o jantar, ele tentou algo que não fazia há muito tempo.
Conversar.
— Lembra quando viemos aqui pela primeira vez?
— Lembro. Você disse que gostava do silêncio do lugar.
— Ainda gosto.
— Eu gostava da ilusão.
Ele respirou fundo.
— Eu nunca planejei te machucar.
— Planejou me controlar.
— Controle não é machucar.
— É sufocar devagar.
— Você sempre foi intensa demais.
— Você sempre teve medo disso.
— Intensidade quebra estruturas.
— Estruturas fracas.
Ele se inclinou levemente.
— Damiana, você sabe o que eu construí.
— Sei o que você sacrificou para isso.
— Tudo que fiz foi para garantir segurança.
— Segurança para quem?
— Para nós.
— Eu não me sinto segura com você.
A frase caiu pesada entre nós.
Arthur desviou o olhar por um segundo. Foi quase imperceptível, mas eu vi.
— Você se sente ameaçada — ele disse.
— Eu me sinto anulada.
— Isso passa.
— Não passa quando vira padrão.
Ele ficou em silêncio.
— Você quer o divórcio? — perguntou, finalmente.
Meu coração acelerou, mas mantive a voz firme.
— Quero escolhas.
— Isso é um “sim” disfarçado.
— É um “não” ao que estamos vivendo.
Arthur apoiou os cotovelos na mesa.
— Você sabe que isso não é simples.
— Nada disso foi simples desde o dia em que te peguei com minha irmã.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Eu errei.
— Você escolheu.
— Uma vez.
— Uma vez foi o suficiente para destruir tudo.
— Você quer que eu faça o quê?
— Pare de fingir que ainda existe um “nós”.
Ele respirou fundo.
— Existe um filho.
— Existe uma mulher que você está perdendo.
Arthur não respondeu.
Naquela noite, algo mudou.
Não foi carinho.
Foi fissura.
Arthur começou a perder o domínio da própria narrativa. Ele tentava me conduzir, mas já não sabia se eu o seguia ou apenas caminhava ao lado, observando.
No dia seguinte, ele saiu cedo para o trabalho. Não deixou instruções. Não ligou para saber onde eu estava. Um descuido raro.
Usei isso.
Liguei para Miguel.
— Você está bem? — ele perguntou assim que atendeu.
— Estou consciente.
— Isso é progresso.
— Preciso saber algo.
— O quê?
— Você conhece o passado do Arthur?
Silêncio do outro lado.
— Por quê?
— Porque homens não constroem impérios assim sem deixar corpos pelo caminho.
Miguel respirou fundo.
— Há histórias.
— Conte.
— Não agora.
— Quando?
— Quando for seguro.
— Para quem?
— Para você.
— Eu já não estou segura.
Miguel hesitou.
— Arthur não herdou tudo.
— Eu sei.
— Ele tomou.
— De quem?
— Do próprio pai.
Meu estômago gelou.
— O pai dele morreu jovem.
— Morreu endividado, desacreditado e isolado.
— Isso não é o que contam.
— O que contam é a versão que Arthur comprou.
— Você está dizendo que…
— Estou dizendo que Arthur aprendeu cedo que controle evita quedas públicas.
— E Helena?
— Helena sempre soube. Sempre compactuou.
Fechei os olhos.
— Isso importa agora?
— Importa porque explica por que ele tem tanto medo de perder tudo.
— Medo faz homens perigosos.
— Faz homens previsíveis — corrigiu Miguel. — Se você entender o padrão, entende o jogo.
— Eu não quero jogar.
— Você já está jogando.
Arthur chegou mais cedo naquele dia.
— Com quem você falou hoje? — perguntou, direto.
— Com ninguém relevante.
— Você anda mentindo melhor.
— Você anda desconfiando demais.
— Não confunda liberdade com permissão.
— Não confunda amor com domínio.
Ele se aproximou.
— Eu estou tentando consertar.
— Você está tentando manter.
— Manter o quê?
— O controle.
Arthur apertou a mandíbula.
— Você acha que eu sou um monstro.
— Eu acho que você construiu um personagem e acredita nele.
— E você acha que pode me desmontar?
— Eu acho que você está desmontando sozinho.
Silêncio.
— Helena volta semana que vem — ele disse, mudando de assunto.
— Eu não quero.
— Não é sua decisão.
— Foi você quem disse que ela passou dos limites.
— E ainda é minha mãe.
— Então assuma isso. Não me use como amortecedor.
Arthur passou a mão pelo rosto.
— Você está me pressionando.
— Pela primeira vez, você sente o que eu senti.
— Eu posso perder tudo.
— Eu já perdi.
Ele se aproximou mais.
— Se algo acontecer com esse bebê…
— Não termine essa frase.
— Eu não suportaria.
— Então pare de me tratar como incubadora.
Arthur se afastou, visivelmente abalado.
— Eu não sei fazer isso diferente.
— Então aprenda. Ou me perca de vez.
Naquela noite, tive um sangramento leve.
Nada intenso. Mas suficiente para paralisar tudo.
Arthur entrou em pânico.
— Chame o médico — ele ordenou.
— Já chamei.
No hospital, o clima era tenso. Exames, espera, silêncio.
— Estresse — concluiu a médica. — Precisa reduzir imediatamente.
Arthur segurou minha mão com força.
— Você está ouvindo?
— Eu sempre ouvi. Vocês é que nunca escutaram.
— Vamos mudar — ele disse. — Eu prometo.
— Promessas não sustentam gestação. Ações, sim.
Ele assentiu, abalado.
— Helena não vai voltar por enquanto.
— Não é suficiente.
— Eu sei.
— Você precisa decidir quem você é sem ela.
— E você precisa decidir se fica.
— Eu fico enquanto for seguro.
— E depois?
— Depois, eu decido.
Arthur engoliu seco.
— Você está me deixando à margem.
— Você me colocou lá primeiro.
Quando voltamos para casa, algo estava claro.
Arthur ainda mandava.
Mas já não controlava tudo.
O medo dele agora era visível.
E o meu não mandava mais em mim.
A casa ainda observava.
Mas agora, eu também observava de volta.
E a queda, mesmo controlada, já tinha começado.
Se quiser, sigo imediatamente com