A casa mudou antes de eu perceber.
Não foi algo visível de imediato. Não houve trancas novas, grades nas janelas ou seguranças armados nos corredores. Arthur não precisava disso. O controle dele era mais inteligente. Mais silencioso. Mais eficiente.
Começou com pequenas ausências.
Na segunda-feira, minha motorista não apareceu.
Na terça, a secretária do escritório ligou dizendo que Arthur havia solicitado que todos os meus compromissos fossem reagendados “até nova orientação”.
Na quarta, meu cartão falhou ao tentar pagar um café simples.
Quando questionei Arthur, ele respondeu com a calma de sempre.
— Ajustes temporários.
— Ajustes feitos por quem?
— Por mim.
— Você não tem esse direito.
— Tenho enquanto você estiver instável.
Instável.
A palavra virou o diagnóstico que justificava tudo.
Naquela manhã, Helena chegou cedo.
Não bateu.
Entrou.
— Bom dia, Damiana — disse, como se aquela fosse a casa dela. — Vamos reorganizar sua rotina.
— Minha rotina não precisa ser reorganizada.
— Precisa, sim — respondeu, sentando-se à mesa. — Você está grávida, emocionalmente abalada e tomando decisões ruins.
— Como discordar de você?
— Como insistir em desafiar seu marido.
Arthur observava da porta, em silêncio.
Helena abriu uma pasta.
— A partir de agora, você não sairá sozinha.
— Isso é absurdo.
— Não é negociável.
— Você não manda em mim.
— Eu mando na imagem desta família.
Arthur finalmente falou:
— Mamãe só está garantindo sua segurança.
— Segurança de quem? Do bebê ou do império?
Ele não respondeu.
Helena continuou:
— Seus encontros sociais estão suspensos.
— Meu trabalho…
— Também.
— Eu sou advogada.
— Você é esposa.
— E pessoa.
— Isso é relativo — disse Helena, fria.
Senti algo se romper dentro de mim. Não foi dor. Foi clareza.
— Vocês estão me isolando.
— Estamos te protegendo de si mesma.
Arthur se aproximou.
— Quanto menos estímulos externos, melhor para você.
— E para você.
Ele sorriu.
— Coincidência.
Tentei ligar para Miguel naquela tarde.
O telefone chamou até cair na caixa postal.
Tentei de novo. Nada.
Horas depois, uma mensagem curta chegou:
“Estou tentando te ver. Não consigo falar agora.”
Meu coração apertou. Arthur havia dito que meus contatos estavam “limitados”. Não explicou como. Nem precisava.
À noite, ele jantou comigo como se tudo estivesse normal.
— Você quase não tocou na comida.
— Não estou com fome.
— Precisa comer pelo bebê.
— Você fala dele como se fosse uma estratégia.
— Porque é uma responsabilidade.
— Responsabilidade não se usa como ameaça.
Arthur pousou os talheres.
— Tudo é ameaça quando você decide enxergar assim.
— Você está me transformando em alguém que eu não reconheço.
— Você sempre foi essa pessoa. Eu só tirei as distrações.
— Distrações como minha autonomia?
— Como suas ilusões.
— Você dorme bem depois de tudo isso?
— Durmo melhor sabendo que nada vai sair do meu controle.
— E quando sair?
Arthur inclinou-se.
— Não vai.
Bianca tentou me ligar naquela madrugada.
Não atendi.
Na segunda tentativa, atendi.
— Damiana… — a voz dela estava quebrada. — Eles me expulsaram de casa.
— Quem?
— Nossos pais.
Fechei os olhos.
— Você esperava o quê?
— Eu esperava que você… — ela hesitou — que você entendesse.
— Eu entendo o suficiente.
— Arthur não fala mais comigo.
— Ele nunca falou. Ele usava.
— Eu me sinto sozinha.
— Bem-vinda.
O silêncio se estendeu.
— Ele vai tirar tudo de você — Bianca disse, de repente. — Ele sempre faz isso.
— Como você sabe?
— Porque eu vi com outras mulheres.
Meu corpo gelou.
— Outras?
— Funcionárias. Ex-namoradas. Parceiras de negócios. Sempre começa com cuidado. Depois vira controle.
— Por que nunca me contou?
— Porque você parecia feliz. E eu… — ela engoliu seco — eu invejava isso.
— Agora você tem o que queria.
— Eu não queria isso.
— Queria o lugar. Não o peso.
Arthur abriu a porta do quarto naquele instante.
— Com quem você está falando?
— Com minha irmã.
Ele estendeu a mão.
— Desliga.
— Não.
— Damiana.
— Não.
Ele pegou o telefone da minha mão e encerrou a chamada.
— Você não vai mais falar com ela.
— Você não pode decidir isso.
— Posso decidir o que te desequilibra.
— Você está com medo.
— De quê?
— De perder o controle.
Arthur se aproximou, baixo.
— Eu tenho medo de perder o que é meu.
— Eu não sou sua propriedade.
— É o que o contrato diz.
— Contratos não criam amor.
— Mas mantêm pessoas no lugar certo.
— E qual é o meu?
— Aqui.
Ele apontou ao redor.
— Nesta casa. Sob meu nome. Gerando meu herdeiro.
Meu estômago revirou.
— Você fala como se eu não existisse.
— Você existe para cumprir um papel.
— Eu não vou desaparecer.
— Não precisa desaparecer. Só precisa obedecer.
Dois dias depois, Miguel apareceu.
Sem avisar.
Sem pedir permissão.
Helena tentou barrá-lo.
— Dr. Miguel não está na lista de visitas autorizadas.
— Então atualize a lista — disse Arthur, surgindo atrás dela. — Ele é médico.
Miguel entrou e me olhou com atenção imediata.
— Você emagreceu.
— Estou bem.
— Não está.
Arthur cruzou os braços.
— Ela está sob acompanhamento.
— De quem?
— Da família.
Miguel respirou fundo.
— Damiana, preciso falar com você a sós.
— Não — respondeu Arthur. — Qualquer coisa pode ser dita aqui.
Miguel me encarou.
— Isso não é saudável.
— Nada disso é ilegal — Arthur rebateu.
— Legalidade não é sinônimo de humanidade.
O silêncio pesou.
— Você está sendo isolada — Miguel continuou. — Isso é um sinal grave.
— Ela precisa de calma — disse Helena.
— Ela precisa de escolha.
Arthur se aproximou de Miguel.
— Cuidado com suas palavras.
— Cuidado com as consequências — respondeu Miguel. — Gravidez não é prisão.
Arthur sorriu, frio.
— Neste caso, é estabilidade.
Miguel virou-se para mim.
— Se precisar de mim, você sabe onde me encontrar.
Arthur respondeu antes de mim:
— Ela não vai precisar.
Miguel saiu.
Quando a porta se fechou, Arthur me encarou.
— Não use médicos como aliados.
— Eu vou usar tudo que puder para não enlouquecer.
— Então aprenda a controlar suas reações.
— Você tem medo que eu conte.
— Conte o quê?
— Quem você realmente é.
Ele se aproximou, encostando a testa na minha.
— Ninguém acredita em mulheres emocionalmente instáveis.
A frase caiu como uma sentença.
— Você está construindo uma narrativa.
— Estou garantindo que a minha versão seja a única ouvida.
— Eu vou sobreviver a isso.
— Sobrevivência não é vitória.
— Para mim, é o começo.
Arthur sorriu.
— Então se prepare. Porque a casa agora observa cada passo seu.
Quando ele saiu, sentei na cama, respirando fundo.
Eu estava cercada.
Vigiada.
Silenciada.
Mas não quebrada.
E enquanto eles achavam que o isolamento me enfraquecia, algo muito mais perigoso começava a nascer em mim.
Não era amor.
Não era esperança.
Era estratégia.
Se quiser, sigo com