O Corpo Não Mente

1237 Words
A primeira coisa que fiz quando Arthur saiu foi correr para o banheiro. Não por drama. Por necessidade. Meu corpo dobrou sobre a pia, o estômago revirando como se tentasse expulsar algo que ainda nem tinha nome. O enjoo veio seco, sem aviso, acompanhado de um tremor que começou nas mãos e se espalhou pelas pernas. Abri a torneira, molhei o rosto, respirei fundo. Arthur tinha razão. E isso era o que mais me aterrorizava. Encostei a testa no espelho. Meus olhos estavam opacos, a pele pálida demais. Não era só medo. Era biologia. Era algo acontecendo dentro de mim sem pedir permissão. Grávida. A palavra ecoou na minha cabeça como um disparo. Eu ainda não tinha feito um teste. Não tinha ido ao médico. Mas meu corpo já tinha dado o veredicto — e Arthur também. Ele sempre soube antes. Sempre controlou antes. Voltei para o quarto, peguei a bolsa e saí de casa sem avisar. Não precisava explicar. Qualquer explicação viraria argumento contra mim. Arthur funcionava assim: transformava palavras em armadilhas. A farmácia ficava a três quadras. Caminhei rápido, como se pudesse fugir do que crescia dentro de mim apenas mudando de endereço. Comprei dois testes. Não um. Dois. Como se a confirmação dupla tornasse aquilo mais real ou, paradoxalmente, menos insuportável. No banheiro da farmácia, sentei na tampa do vaso e esperei. O tempo pareceu errado. Longo demais. Curto demais. Quando as linhas apareceram, nítidas, irrefutáveis, meu peito apertou de um jeito que não tinha nome. Positivo. Não chorei. Não gritei. Não sorri. Apenas fiquei ali, olhando para aquele pequeno pedaço de plástico que acabava de mudar tudo. — Parabéns — sussurrei para mim mesma, sem emoção alguma. — Você está presa. Não voltei para casa. Dirigi até o escritório de Miguel. Não liguei antes. Não avisei. Apenas estacionei, subi as escadas e bati na porta como alguém que precisava de socorro imediato. Ele abriu com expressão surpresa. — Damiana? — Preciso de você — disse, sem rodeios. — Agora. Miguel me puxou para dentro e fechou a porta. — O que aconteceu? Eu não consegui responder de imediato. Minhas mãos tremiam de novo. Sentei no sofá, respirei fundo, puxei o teste da bolsa e coloquei sobre a mesa. Miguel olhou. Entendeu. Silenciou. — Arthur sabe? — perguntou, com cuidado. — Soube antes de mim. Miguel fechou os olhos por um instante. — Isso não é normal. — Nada com Arthur é normal. — Damiana, você está segura? — Não sei mais o que isso significa. Contei tudo. O retorno inesperado. A conversa com Bianca. A forma como Arthur falou da gravidez. O toque no meu abdômen como se fosse dono do que ainda nem existia. Miguel ouviu sem interromper. Quando terminei, ele respirou fundo. — Isso é controle psicológico avançado — disse, sério. — E vai piorar agora. — Porque estou grávida. — Porque agora ele tem uma âncora. Algo que ele pode usar contra você. Engoli seco. — Eu não posso ir embora. — Quem disse isso? — Ele. E… — minha voz falhou — o contrato. Miguel me encarou. — Que contrato? — O pré-nupcial. Arthur me fez assinar antes do casamento. Eu não li tudo. Confiei. — Damiana… — Eu sei. Levantei, andando pelo escritório. — Ele mencionou cláusulas. Coisas que eu não lembrava. Multas. Penalidades. Controle patrimonial total. — Isso pode ser contestado. — Arthur não faz nada que possa ser facilmente contestado. Miguel se aproximou. — Você não está sozinha. Olhei para ele. — Não prometa isso se não puder cumprir. Ele sustentou meu olhar. — Eu posso cumprir. Quando voltei para casa, o carro de Helena Alencar já estava na garagem. Meu estômago afundou. Helena não visitava. Ela inspecionava. Entrei e encontrei os dois sentados na sala, lado a lado, como um tribunal perfeitamente alinhado. — Damiana — disse Helena, com o sorriso frio de sempre. — Que bom que chegou. Arthur levantou e beijou meu rosto. — Estávamos preocupados. Mentira. — Preocupados com o quê? — perguntei. Helena cruzou as pernas. — Com você. Você anda instável. Arthur assentiu. — Distraída. Sensível. Tomando decisões impulsivas. — Como sair de casa sem avisar? — completou Helena. Respirei fundo. — Eu precisava resolver algo pessoal. — Esposa não tem assuntos pessoais — disse Helena, sem elevar a voz. — Tem responsabilidades. Arthur colocou a mão sobre a minha. — Mamãe só quer ajudar. — Ajudar a quê? — perguntei. Helena inclinou o corpo para frente. — A manter sua família intacta. — Minha família sou eu e Arthur. — Exatamente. A troca de olhares entre eles foi rápida. Cúmplice. — Damiana — disse Arthur — você tem algo para nos contar? Meu coração acelerou. — Não. Helena arqueou a sobrancelha. — Tem certeza? — Absoluta. Arthur apertou minha mão com força suficiente para doer. — Não minta. Olhei para ele. — Não estou. O silêncio que se seguiu foi denso. Helena se levantou. — Arthur me contou sobre a possibilidade de um… novo integrante na família. Meu corpo inteiro gelou. — Ele não tinha o direito. — Ele é meu filho — respondeu ela. — E seu marido. Arthur sorriu. — Não se assuste. — Vocês falam como se fosse uma decisão tomada. — Porque é — disse Helena. — Gravidez não é escolha. É consequência. — E consequência traz deveres — completou Arthur. Soltei minha mão da dele. — Eu ainda nem confirmei isso. — Você confirmou — respondeu Arthur. — Eu vi. Meu estômago revirou. — Você mexeu nas minhas coisas? — Eu conheço você. Helena observava tudo com atenção. — Uma criança exige estabilidade — disse ela. — E estabilidade exige obediência. Olhei para ela. — Obediência a quem? — À família. — À imagem. — Ao nome Alencar. Arthur se aproximou de mim. — Você não vai fazer nada impensado. — Como o quê? — Como tentar sair desse casamento. — Eu ainda nem falei disso. — Falou com o olhar — respondeu ele. Helena pegou a bolsa. — Vou deixar vocês conversarem. Ela parou na porta. — Damiana, lembre-se: mulheres fortes preservam, não destroem. Quando a porta se fechou, fiquei sozinha com Arthur. — Você contou tudo a ela. — O que importava. — Isso não é parceria. — É proteção. — Você está me cercando. — Estou cuidando do que é meu. — Eu não sou sua posse. — Você é minha esposa. — Isso não te dá direito sobre meu corpo. — Dá, sim — ele respondeu, frio. — O contrato deixa isso claro. Meu coração disparou. — Que cláusula? — A décima segunda. — O que diz? Arthur se aproximou, baixo, firme. — Que qualquer tentativa de rompimento durante uma gestação transfere a guarda integral e o controle financeiro total para mim. Senti o chão desaparecer. — Isso é abuso. — Isso é lei assinada. — Você planejou isso. — Eu previ. — Eu vou lutar. Arthur sorriu. — Contra mim? Ele tocou meu abdômen novamente. — Nosso filho não vai crescer em um lar quebrado. Nem que eu tenha que quebrar você primeiro. Quando ele saiu do quarto, minhas pernas cederam. Sentei no chão, abraçando o próprio corpo. O teste ainda estava na bolsa. A cláusula agora estava na minha cabeça. E o amor… esse já tinha morrido. O que restava era uma luta. E eu finalmente entendi: meu corpo não mentia. Mas o casamento inteiro era uma armadilha.
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