Capítulo 2
GENERAL NARRANDO
Até então eu olhava essa gravidez como obrigação, custo, consequência de um erro. Mas quando pegaram aquele embrulho pequeno e colocaram nos meus braços pela primeira vez, eu senti um silêncio estranho dentro de mim.
Não era amor de novela.
Não era encantamento.
Era outra coisa.
Peso.
Responsabilidade.
Instinto.
Aquela menininha tinha os olhos fechados, a boca minúscula, a mão tão pequena que parecia mentira existir. E quando ela fechou os dedos no meu polegar, eu tive uma sensação que me deixou putö comigo mesmo.
Porque eu entendi na hora que, daqui pra frente, eu tava fodidö.
Rose percebeu.
Claro que percebeu.
Ela sempre foi boa em notar onde tava a fraqueza do outro. E a partir dali, começou a usar a Gabriela pra me manter por perto . Só que tinha uma diferença grande entre ficar por causa da criança e voltar pra ela.
Com Rose, eu não conseguia mais.
Não tocava nela.
Não queria.
A gravidez já tinha afastado o pouco de interesse que existia, e depois do parto isso só piorou . Eu sustentava a casa, colocava tudo do bom e do melhor, cuidava da menina, garantia segurança, médico, roupa, leite, tudo . Mas não dividia cama. Não dividia carinho . Não dividia porrä nenhuma.
E ela sabia.
Sabia que tinha vencido metade do jogo e perdido a outra.
Às vezes eu chegava em casa de madrugada, cansado, sujo de pólvora e rua, e encontrava a Gabriela dormindo no quarto . Eu ficava olhando aquela coisinha respirando baixinho e uma calma esquisita me batia . Não sei explicar . Talvez porque, no meio de tanto caos, ela ainda fosse a única coisa aqui que não pedia nada, não fingia nada, não manipulava nada.
Criança é diferente.
Olha pra tu com verdade.
E eu, que nunca tive saco pra quase ninguém, passei a ter pra ela.
Passei a fazer coisas que não combinavam comigo.
Mandar baixar som porque ela tava dormindo.
Mudar rota de carro pra passar na farmácia e comprar o remédio certo.
Chegar com brinquedo sem motivo.
Sentar cinco minutos do lado do berço só pra olhar.
Isso já era estranho o bastante.
Mas eu não sabia porque caralhö eu não conseguia sentir amor de pai mesmo por ela . Eu amava a Gabriela, mas tinha uma parada em mim que tava em alerta e eu não sabia o motivo, não ainda.
Eu jamais faria mäl pra essa ruivinha branquela, porque Gabriela era bem ruiva igual a mãe . Mas sentimento mesmo, paterno genuíno eu ainda não tinha, mas eu amava ela como nunca amei ninguém .
Só que a vida, quando resolve te föder, nunca vem em dose pequena .
Gabriela tava com dois anos quando Rose sumiu .
Não foi briga. Não foi despedida. Não foi cena .
Foi covardia mesmo .
Ela deixou um bilhete em cima da mesa e evaporou da porrä do mapa com um cara de fora. Mandei investigar e logo tive toda informação o cara que ela fugiu era um playboyzinho metido a bandido internacional, com dinheiro, promessa de luxo e fala mansa. O tipo de homem que ilude mulher vazia com viagem, hotel caro e mentira bonita .
No bilhete ela dizia que precisava viver a própria vida .
Que não nasceu pra ser mãe .
Que a Gabriela estaria melhor comigo .
Filha da putä.
Eu rasguei aquele papel na hora. Rasguei com ódio. Ódio pra caralhö . Se eu tivesse ela na minha frente naquele dia, não sei o que faria . Talvez nada. Talvez pior . Porque mulher que abandona filho pequeno não merece nem meu ódio . Merece desprezo .
E foi no meio dessa merdä toda que a segunda bomba veio.
Eu já tava estressado demais, lidando com a ausência dela, com a menina chorando mais que o normal, com a rotina bagunçada, com gente do morro cochichando pelos cantos, quando uma informação chegou em mim. Daquelas informações que primeiro parecem boato e depois começam a encaixar peça demais.
Data.
Traição.
Tempo.
Exame.
Quando confirmei, a vontade que deu foi de matar a Rose onde quer que ela estivesse escondida.
Gabriela não era minha filha.
Fiquei parado por uns bons minutos olhando o resultado na minha mão. Frio. Quieto. Com aquela calma perigosa que vem antes da explosão. Meu cérebro repetia a mesma coisa:
Ela mentiu.
Ela mentiu essa porrä toda.
Ela mentiu sobre a única coisa que eu não devia ter acreditado.
Lembro de ter ido pro quintal pra fumar. Acendi um baseadö atrás do outro, sem sentir gosto, sem sentir nada além daquela raiva funda, escura, que vai crescendo por dentro igual veneno.
Era simples resolver.
Muito simples.
Eu podia entregar a criança pra qualquer abrigo. Podia mandar procurar a mãe vagabundä. Podia lavar minhas mãos e seguir minha vida. Ninguém me cobraria. Ninguém poderia me cobrar.
Ela não era minha.
Não era meu sangue.
Não era minha responsabilidade.
Não era nada.
Mas quando eu entrei no quarto e vi a Gabriela sentada no berço, agarrada num ursinho velho, com o rosto molhado de choro e os olhos inchados procurando alguém eu entendi na mesma hora que já era tarde demais pra esse discurso.
O sangue não tinha vencido.
A convivência tinha.
O vínculo tinha.
Essa menina podia não carregar meu sangue no corpo, mas carregava minha presença em tudo. E talvez fosse isso que me födia mais.
Ela levantou os bracinhos quando me viu.
Um gesto simples.
Pequeno.
Mas foi suficiente pra acabar com qualquer dúvida.
Peguei ela no colo, e ela enfiou o rosto no meu pescoço, ainda soluçando baixinho.
— Pronto — eu murmurei, passando a mão nas costas dela. — Pronto, caralhö, não precisa chorar mais… acabou.
Acabou nada.
Isso foi só o começo.
Porque naquele dia eu tomei uma decisão que mudou a minha vida inteira:
eu nunca ia contar a verdade pra Gabriela.
Nunca.
Ela ia crescer sabendo que eu escolhi ficar. Mesmo sem saber disso. E a putä da Rose tava morta pra mim. Tinha deixado de existir.