Entre o medo e o chamado

1093 Words
Escuridão. Mas não completa. Havia algo ali. Pulsando. Chamando. Como um eco antigo… que nunca deixou de existir. Elisa respirou fundo. Ou tentou. O ar entrou pesado. Frio demais. Denso. Como se não fosse feito para ela. Seus dedos se moveram primeiro. Lentos. Estranhos. Como se não pertencessem totalmente ao seu corpo. O som do próprio coração ecoava alto demais. Forte. Ritmado. Errado. Depois— um leve estremecer percorreu seus músculos. Mais intenso. Mais profundo. E então— os olhos abriram. O teto. Familiar. O quarto. Mas nada parecia igual. Tudo estava… mais nítido. Mais vivo. Mais próximo. A textura da parede parecia ao alcance das mãos. O leve ranger da madeira… alto demais. O som distante… impossível de ignorar. Até o ar… tinha peso. E então— Respiração. Não a dela. Outra. Elisa não se moveu. Mas sentiu. Antes mesmo de ver. Ele. O coração disparou. Não de susto. De reconhecimento. E isso— foi pior. Devagar— ela virou o rosto. Dante estava ali. Encostado na parede. Imóvel. Observando. Como se nunca tivesse saído. Como se sempre estivesse ali. Esperando. O ar ao redor dele parecia diferente. Mais frio. Mais denso. Quase… sólido. E havia algo mais. Um cheiro. Frio. Metálico. Familiar demais. Elisa puxou o ar com cuidado. Como se qualquer movimento pudesse quebrar algo invisível entre eles. — Você acordou. A voz dele saiu baixa. Controlada. Mas havia algo diferente agora. Mais contido. Mais… cuidadoso. Elisa piscou devagar. Tentando organizar os pensamentos. Mas eles não obedeciam. Nada obedecia. — Eu… A voz falhou. Ela levou a mão à cabeça. Uma pressão leve. Constante. — O que aconteceu comigo? Silêncio. Dante não respondeu. Apenas observou. Mais atento. Mais… cauteloso. — Você lembra de alguma coisa? A pergunta veio no lugar da resposta. Elisa franziu a testa. Forçando. E então— veio. Fragmentos. Fogo. Calor. Gritos. Mãos puxando— E ele. O coração apertou. — Eu vi você. Agora a voz saiu mais firme. Dante não se moveu. Mas os olhos escureceram levemente. — Isso não é possível… — ela murmurou — eu nunca te vi antes… como isso aconteceu? Mas a certeza já não existia. Nunca existiu. Ela sentia. Não era novo. Nunca foi. — Quem é você? Agora não era curiosidade. Era necessidade. Dante sustentou o olhar. Intenso. Silencioso. — Ainda não. A mesma resposta. Mas mais pesada. Elisa soltou uma risada curta. Sem humor. — Você fala isso como se eu tivesse escolha… ou tempo pra esperar. Silêncio. Ele se afastou da parede. Um passo. Mas parou. Mantendo distância. Como se precisasse. — Você não está pronta para a resposta. Algo dentro dela reagiu. — Para de dizer isso — ela cortou, mais firme — sou eu quem escolhe se estou pronta ou não. Eu tô cansada de não entender nada… cansada de você fugir. Um segundo. — Pelo menos uma vez… me fala a verdade. O ar pesou. Dante a observou. Mais intenso agora. — E você acha que entender vai facilitar? Ela não respondeu. Porque sabia. Não ia. — Então me diz pelo menos o básico — ela insistiu — por que eu senti você antes de te ver… antes de chegar em casa? Silêncio. Longo. Pesado. Dante desviou o olhar por um segundo. Como se estivesse decidindo. E então— — Porque eu sou seu… e você é minha. O impacto foi imediato. Direto. Profundo. O mundo pareceu inclinar. — Isso não faz sentido… Ela respirou fundo. — …e mesmo assim faz. O silêncio se estendeu. Denso. E então— a visão veio. Rápida. Violenta. Não o quarto. Não a casa. Mas ele. Coberto de sangue. Os olhos ainda mais escuros. Mais selvagens. Mais perigosos. A mão estendida. Para ela. Chamando. Elisa puxou o ar com força. O corpo reagiu antes da mente. A visão desapareceu. Mas a sensação— não. Ficou. — Eu desmaiei. — Sim. — Tive um sonho estranho. Silêncio. — E você estava lá. Dessa vez— ele não negou. — Não era um sonho. O coração dela acelerou. — Aquilo foi real? Dante a observou. E então— — Foi. Um segundo. — E você estava lá. O quarto pareceu menor. Sufocante. — Quando isso aconteceu? Silêncio. Ele não respondeu. E isso— respondeu tudo. Elisa abriu os olhos. Mais alerta agora. Mais consciente. — Tem mais coisa que você não tá me contando. — Tem. Simples. Direto. Sem hesitar. Isso irritou. — E você acha que isso ajuda? — ela retrucou — ficar escondendo tudo? Dante deu um passo à frente. Dessa vez— mais próximo. O suficiente. O ar entre eles mudou. Não era só presença. Era… atração. Algo invisível puxando. Errado. Mas impossível de ignorar. — Eu não estou escondendo. A voz saiu mais baixa. Mais intensa. — Eu estou esperando. — O quê? Ele sustentou o olhar. Sem desviar. — Você lembrar. O silêncio caiu. Pesado. Confuso. O coração dela disparou. — Isso não faz sentido nenhum… Mas fazia. De um jeito errado. Antigo. Inevitável. A porta se abriu de repente. — Elisa?! Sofia entrou sem bater. Os olhos cheios de preocupação. — Você acordou! Ela correu até a cama. — Você tá bem? Tá sentindo alguma coisa? Dor? Tontura? Elisa piscou. A realidade voltando aos poucos. — Eu tô… eu acho que tô. Sofia segurou a mão dela. Firme. Quente. Real. — Você desmaiou do nada — ela continuou — e depois começou a falar coisas estranhas… Elisa travou. — O que eu falei? Sofia hesitou. O olhar foi direto para Dante. E voltou. — Você falou o nome dele. Silêncio. O coração falhou um batimento. — Eu… não lembro. Mas sentia. Sofia se levantou devagar. E então— olhou para Dante. Mais atenta agora. Mais tensa. Instinto. Cru. Perigo. — A gente precisa conversar. Não era um convite. Era um aviso. Dante não respondeu. Apenas sustentou o olhar. Calmo demais. — Depois. A voz de Henrique surgiu na porta. Controlada. Mas firme. — Agora ela precisa descansar. O olhar dele passou por Elisa. Mais atento. Mais sério. Como se já esperasse tudo aquilo. — A gente resolve isso depois. Mas Elisa sabia. Nada ali seria resolvido. Não de verdade. Porque, pela primeira vez— não era só medo. Era algo pior. Era curiosidade. E, no fundo— ela queria saber. Mesmo que isso destruísse tudo. E Dante— permaneceu ali. Em silêncio. Observando. Como se já soubesse— que, a partir daquele momento, ela não conseguiria mais fugir. Porque fugir— já não era mais uma escolha. Mas lembrar… talvez fosse ainda mais perigoso.
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