O que desperta

1036 Words
— O que isso faz? A voz de Elisa saiu baixa. Frágil. Dante não respondeu de imediato. Apenas a observou. — Ele não faz nada. Um segundo. — Ele devolve. Elisa franziu levemente a testa. — Devolve o quê…? Dante sustentou o olhar. — O que é seu. O ar pareceu mudar. Mais denso. Mais pesado. Elisa levou a mão ao peito. O colar. Depois— o anel. Os dois. No mesmo instante— algo despertou. Veio de dentro. Rápido. Violento. Antigo. A respiração falhou. O coração perdeu o ritmo. A visão começou a falhar. As bordas escurecendo. Como se algo… estivesse puxando ela para dentro de si mesma. — Eu… O som da própria voz pareceu distante. Distorcido. — Elisa? — Sofia deu um passo à frente. Tarde. O chão desapareceu. O corpo cedeu— Mas não chegou ao chão. Dante a segurou. Rápido. Preciso. Como se já esperasse. Como se já soubesse. O corpo dela estava frio. Leve demais. — Elisa! — Sofia correu, o coração disparado — O que você fez?! Dante não respondeu. Os olhos fixos nela. Sentindo. Analisando. — Ela não está ferida. A voz saiu baixa. Controlada. Mas havia tensão ali. A mão dele ainda a segurava— firme demais. Os dedos pressionando além do necessário. Como se ele estivesse lutando contra algo. Algo interno. Henrique já estava ao lado. — Leva ela pro quarto. Direto. Sem espaço pra discussão. — Como assim?! — Sofia rebateu, assustada — Ela acabou de— Mas Dante já estava em movimento. Sem hesitar. Levou Elisa pelo corredor como se aquele caminho não fosse estranho. Como se já tivesse feito aquilo antes. O quarto. A cama. Ele a deitou com cuidado. Devagar. Mas algo nela… não estava ali. Escuridão. Então— fogo. Muito fogo. O calor queimava a pele. O ar era pesado. Irrespirável. O cheiro de queimado invadia tudo. Madeira. Sangue. Algo mais. Gritos. Altos. Desesperados. E, ao mesmo tempo— distantes. Ela corria. Pequena. As pernas fracas. O coração descompassado. Uma mão segurava a dela. Forte. Urgente. — Anda! A voz não era do pai. Era outra. Ela tropeçou. Quase caiu. A mão apertou mais forte. Protegendo. Puxando. Ela virou— E viu. Olhos escuros. Profundos. Familiares demais. Mas não só isso— havia algo atrás dele. Sombras se movendo. Observando. Esperando. — Dante… O nome escapou. Fraco. Mas carregado. Como uma memória antiga. Como algo que nunca deveria ter sido esquecido. No quarto— o tempo parou. Dante congelou. A mão ainda próxima do rosto dela. Os olhos escureceram. Mais profundos. Mais perigosos. A mandíbula travou. O corpo ficou rígido. Ela lembrou. Mesmo que pouco. Sofia, parada na porta, arregalou os olhos. — Ela… ela falou seu nome. O silêncio caiu. Pesado. Denso. — O que você fez com ela?! A voz de Sofia saiu mais alta. Mais afiada. Ela entrou no quarto. Os olhos indo de Dante para Elisa. — Isso não é normal! Nada disso é normal! A respiração dela estava acelerada. Irregular. — Ela nunca te viu! Nunca! Dante se levantou devagar. Calmo demais. — Você não entende. — Então explica! — Sofia rebateu — porque minha melhor amiga desmaia, chama o nome de um estranho e você age como se isso fosse… esperado?! Ela riu. Sem humor. — Isso aqui tá errado. Você tá errado. A frase saiu direta. Sem filtro. E então— o ar mudou. Dante não se moveu. Mas algo nele… cedeu. A mão dele se fechou com força. Um estalo seco ecoou baixo. A madeira da cama rachou sob seus dedos. Os olhos escureceram ainda mais. Por um segundo— não eram humanos. Eram antigos. Famintos. O ambiente ficou frio. Sufocante. Pesado. Sofia sentiu. O corpo inteiro entrou em alerta. O instinto gritava. Corre. Agora. Sai daqui. Mas Elisa estava ali. E isso foi o suficiente para ela ficar. Mesmo com medo. Mesmo tremendo. — Eu não confio em você — ela continuou, a voz falhando, mas firme — e se você fez alguma coisa com ela, eu— Ela não terminou. Dante deu um passo. Só um. Mas o ar ao redor dele se contraiu. A presença— esmagadora. Como se algo muito maior estivesse ali. Preso. Contido por pouco. Sofia travou. A respiração presa. O coração disparado. Dante inclinou levemente a cabeça. O mesmo movimento. O mesmo— do pássaro. E então— Henrique entrou na frente. Rápido. Sem hesitar. — Não. A voz dele cortou o ambiente. Firme. Absoluta. Dante parou. Os olhos ainda presos em Sofia. Mas o corpo— imóvel. Henrique deu um passo à frente. — Ela não sabe o que está dizendo. Mais baixo agora. Mais controlado. — E você sabe disso. Silêncio. Pesado. Tenso. Henrique sustentou o olhar dele. Sem recuar. — Você já salvou ela uma vez… Um segundo. — Não vai ser você que vai destruí-la agora. Aquilo atingiu. Não como ameaça. Como verdade. Dante desviou o olhar. Pela primeira vez. O ar mudou. Ainda pesado— mas controlado. — Ela é a única amiga da Elisa — Henrique continuou — se você machucar ela… um pequeno intervalo. — você machuca a Elisa junto. Dessa vez— foi direto. Sem espaço. Dante respirou fundo. Lento. Controlando. Recuando. Deu um passo para trás. A tensão não sumiu. Mas diminuiu. Sofia puxou o ar com força. Como se só agora pudesse respirar. — O que… você é…? A voz saiu baixa. Mas firme. Dante não respondeu. O olhar voltou para Elisa. Na cama. Imóvel. Mas— não completamente. Os dedos dela se moveram. Levemente. Quase imperceptível. Como se respondessem… a algo invisível. A respiração dela falhou por um segundo. E voltou. Irregular. Dante percebeu. Os olhos atentos. — Isso já começou. A voz saiu mais baixa. Mais inevitável. Sofia balançou a cabeça. — Eu não vou deixar nada acontecer com ela. Proteção pura. Dante ergueu os olhos. E dessa vez— não havia ameaça. Só certeza. — Você n******e impedir. O silêncio caiu. Irreversível. Porque, no fundo— todos ali sabiam. Aquilo não podia mais ser parado. Não era uma escolha. Era um retorno. E Elisa— não estava apenas vivendo. Ela estava despertando. E, junto com ela— algo antigo… também estava voltando.
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