— O que isso faz?
A voz de Elisa saiu baixa. Frágil.
Dante não respondeu de imediato. Apenas a observou.
— Ele não faz nada.
Um segundo.
— Ele devolve.
Elisa franziu levemente a testa.
— Devolve o quê…?
Dante sustentou o olhar.
— O que é seu.
O ar pareceu mudar.
Mais denso. Mais pesado.
Elisa levou a mão ao peito. O colar.
Depois— o anel.
Os dois.
No mesmo instante—
algo despertou.
Veio de dentro.
Rápido. Violento.
Antigo.
A respiração falhou.
O coração perdeu o ritmo.
A visão começou a falhar.
As bordas escurecendo.
Como se algo…
estivesse puxando ela para dentro de si mesma.
— Eu…
O som da própria voz pareceu distante.
Distorcido.
— Elisa? — Sofia deu um passo à frente.
Tarde.
O chão desapareceu.
O corpo cedeu—
Mas não chegou ao chão.
Dante a segurou.
Rápido. Preciso.
Como se já esperasse.
Como se já soubesse.
O corpo dela estava frio.
Leve demais.
— Elisa! — Sofia correu, o coração disparado — O que você fez?!
Dante não respondeu.
Os olhos fixos nela.
Sentindo.
Analisando.
— Ela não está ferida.
A voz saiu baixa.
Controlada.
Mas havia tensão ali.
A mão dele ainda a segurava—
firme demais.
Os dedos pressionando além do necessário.
Como se ele estivesse lutando contra algo.
Algo interno.
Henrique já estava ao lado.
— Leva ela pro quarto.
Direto. Sem espaço pra discussão.
— Como assim?! — Sofia rebateu, assustada — Ela acabou de—
Mas Dante já estava em movimento.
Sem hesitar.
Levou Elisa pelo corredor como se aquele caminho não fosse estranho.
Como se já tivesse feito aquilo antes.
O quarto.
A cama.
Ele a deitou com cuidado.
Devagar.
Mas algo nela…
não estava ali.
Escuridão.
Então—
fogo.
Muito fogo.
O calor queimava a pele.
O ar era pesado.
Irrespirável.
O cheiro de queimado invadia tudo.
Madeira.
Sangue.
Algo mais.
Gritos.
Altos.
Desesperados.
E, ao mesmo tempo—
distantes.
Ela corria.
Pequena.
As pernas fracas.
O coração descompassado.
Uma mão segurava a dela.
Forte.
Urgente.
— Anda!
A voz não era do pai.
Era outra.
Ela tropeçou.
Quase caiu.
A mão apertou mais forte.
Protegendo.
Puxando.
Ela virou—
E viu.
Olhos escuros.
Profundos.
Familiares demais.
Mas não só isso—
havia algo atrás dele.
Sombras se movendo.
Observando.
Esperando.
— Dante…
O nome escapou.
Fraco.
Mas carregado.
Como uma memória antiga.
Como algo que nunca deveria ter sido esquecido.
No quarto—
o tempo parou.
Dante congelou.
A mão ainda próxima do rosto dela.
Os olhos escureceram.
Mais profundos.
Mais perigosos.
A mandíbula travou.
O corpo ficou rígido.
Ela lembrou.
Mesmo que pouco.
Sofia, parada na porta, arregalou os olhos.
— Ela… ela falou seu nome.
O silêncio caiu.
Pesado.
Denso.
— O que você fez com ela?!
A voz de Sofia saiu mais alta.
Mais afiada.
Ela entrou no quarto.
Os olhos indo de Dante para Elisa.
— Isso não é normal! Nada disso é normal!
A respiração dela estava acelerada.
Irregular.
— Ela nunca te viu! Nunca!
Dante se levantou devagar.
Calmo demais.
— Você não entende.
— Então explica! — Sofia rebateu — porque minha melhor amiga desmaia, chama o nome de um estranho e você age como se isso fosse… esperado?!
Ela riu.
Sem humor.
— Isso aqui tá errado. Você tá errado.
A frase saiu direta.
Sem filtro.
E então—
o ar mudou.
Dante não se moveu.
Mas algo nele…
cedeu.
A mão dele se fechou com força.
Um estalo seco ecoou baixo.
A madeira da cama rachou sob seus dedos.
Os olhos escureceram ainda mais.
Por um segundo—
não eram humanos.
Eram antigos.
Famintos.
O ambiente ficou frio.
Sufocante.
Pesado.
Sofia sentiu.
O corpo inteiro entrou em alerta.
O instinto gritava.
Corre.
Agora.
Sai daqui.
Mas Elisa estava ali.
E isso foi o suficiente para ela ficar.
Mesmo com medo.
Mesmo tremendo.
— Eu não confio em você — ela continuou, a voz falhando, mas firme — e se você fez alguma coisa com ela, eu—
Ela não terminou.
Dante deu um passo.
Só um.
Mas o ar ao redor dele se contraiu.
A presença—
esmagadora.
Como se algo muito maior estivesse ali.
Preso.
Contido por pouco.
Sofia travou.
A respiração presa.
O coração disparado.
Dante inclinou levemente a cabeça.
O mesmo movimento.
O mesmo—
do pássaro.
E então—
Henrique entrou na frente.
Rápido.
Sem hesitar.
— Não.
A voz dele cortou o ambiente.
Firme.
Absoluta.
Dante parou.
Os olhos ainda presos em Sofia.
Mas o corpo—
imóvel.
Henrique deu um passo à frente.
— Ela não sabe o que está dizendo.
Mais baixo agora.
Mais controlado.
— E você sabe disso.
Silêncio.
Pesado.
Tenso.
Henrique sustentou o olhar dele.
Sem recuar.
— Você já salvou ela uma vez…
Um segundo.
— Não vai ser você que vai destruí-la agora.
Aquilo atingiu.
Não como ameaça.
Como verdade.
Dante desviou o olhar.
Pela primeira vez.
O ar mudou.
Ainda pesado—
mas controlado.
— Ela é a única amiga da Elisa — Henrique continuou — se você machucar ela…
um pequeno intervalo.
— você machuca a Elisa junto.
Dessa vez—
foi direto.
Sem espaço.
Dante respirou fundo.
Lento.
Controlando.
Recuando.
Deu um passo para trás.
A tensão não sumiu.
Mas diminuiu.
Sofia puxou o ar com força.
Como se só agora pudesse respirar.
— O que… você é…?
A voz saiu baixa.
Mas firme.
Dante não respondeu.
O olhar voltou para Elisa.
Na cama.
Imóvel.
Mas—
não completamente.
Os dedos dela se moveram.
Levemente.
Quase imperceptível.
Como se respondessem…
a algo invisível.
A respiração dela falhou por um segundo.
E voltou.
Irregular.
Dante percebeu.
Os olhos atentos.
— Isso já começou.
A voz saiu mais baixa.
Mais inevitável.
Sofia balançou a cabeça.
— Eu não vou deixar nada acontecer com ela.
Proteção pura.
Dante ergueu os olhos.
E dessa vez—
não havia ameaça.
Só certeza.
— Você n******e impedir.
O silêncio caiu.
Irreversível.
Porque, no fundo—
todos ali sabiam.
Aquilo não podia mais ser parado.
Não era uma escolha.
Era um retorno.
E Elisa—
não estava apenas vivendo.
Ela estava despertando.
E, junto com ela—
algo antigo…
também estava voltando.