A campainha tocou.
Henrique abriu a porta poucos segundos depois.
Dante entrou sem pressa.
Os passos eram silenciosos, precisos - como se cada movimento já estivesse decidido antes mesmo de acontecer.
- Boa noite.
A voz saiu baixa. Firme.
- Boa noite, Dante - respondeu Henrique, ajeitando a mesa. - Não esperava você hoje.
Dante não respondeu de imediato.
O olhar percorreu o apartamento.
Lento.
O quadro antigo. A cortina balançando com o vento. O cheiro de café ainda presente no ar.
Então parou.
A foto.
Elisa sorria, despreocupada. Um instante comum.
Mas não para ele.
Nunca foi.
Ele se aproximou.
Não tocou.
Mas ficou perto o suficiente.
- Ela mudou.
Henrique soltou o ar pelo nariz.
- Não. Ela só cresceu desde a sua última visita.
Silêncio.
Do tipo que não era vazio.
- O tempo está acabando.
A frase saiu simples.
Direta.
Henrique parou.
- Não sei do que você está falando.
Dante virou o rosto, finalmente encarando-o.
- Eu vou reivindicá-la.
O ar pareceu esfriar.
- Ela não é um objeto para ser reivindicado.
Dante sustentou o olhar.
- Eu sei.
Um pequeno intervalo.
- É por isso que confiei ela a você.
Do bolso, ele retirou uma pequena caixa.
Dentro, um colar.
Delicado.
Escuro.
O pingente parecia engolir a luz da sala.
Henrique pegou.
O peso veio depois.
- Isso não é da sua família.
- Não.
- Então por quê?
Dante desviou o olhar, por um instante, para a porta.
- Porque está na hora.
Henrique fechou a mão em volta do colar.
- Ela é minha filha.
Dante ficou em silêncio por um segundo.
- Graças a mim.
Henrique desviou o olhar.
- Mas ela está viva por minha causa.
Henrique não respondeu.
Não havia resposta.
- Quero vê-la.
- Então fica.
Henrique virou para a cozinha.
- Me ajuda com o jantar. Hoje é aniversário dela.
O som da faca contra a madeira era regular.
Preciso.
Dante cortava os legumes sem olhar.
Sem hesitar.
Henrique mexia o estrogonofe, mas não parecia realmente ali.
- Você não costuma aparecer assim.
- Eu sei.
- Então por quê?
Silêncio.
Henrique assentiu devagar.
Entendeu.
- Falta o tempero - disse, pegando a carteira. - Já volto.
Ele hesitou na porta.
Olhou para Dante.
Rápido.
Suficiente.
E saiu.
O silêncio voltou.
Mais denso.
Dante ergueu o olhar.
E então-
algo mudou.
Sutil.
Quase imperceptível.
Como se o próprio ar anunciasse a chegada dela.
A chave girou.
Dante saiu levemente das sombras.
Só o suficiente.
A porta se abriu.
Elisa entrou.
E parou.
O coração falhou um batimento.
Por quê?
Ela não sabia.
Mas sentiu.
Ele.
Ali.
O ar parecia mais frio.
Mais pesado.
Ela fechou a porta devagar.
Deu alguns passos.
O cheiro da comida não ajudava.
Nada ajudava.
Sentou-se no sofá.
As mãos ainda tensas.
- Posso ajudar?
A voz saiu mais firme do que ela esperava.
Dante a observou.
Sem pressa.
- Se quiser.
Um breve silêncio.
Ela engoliu seco.
Por que aquilo soava... como um aviso?
- Vocês se conhecem há muito tempo?
- Tempo suficiente - respondeu Henrique da cozinha.
Rápido demais.
Como se não quisesse continuar.
Elisa olhou para Dante.
Ele não desviou.
- Você observa muito.
Ela nem percebeu quando disse.
Dante inclinou levemente a cabeça.
- Só quando é necessário.
Um arrepio percorreu sua pele.
Ela desviou o olhar.
Mas voltou.
Sem entender por quê.
- Elisa, vem provar - chamou Henrique.
Ela se levantou.
Ao passar por Dante-
o mundo falhou.
Por um segundo...
o som da cozinha sumiu.
O ar ficou estático.
Denso.
Irreal.
Ela parou.
Um segundo.
Dois.
E então-
tudo voltou.
Como se nada tivesse acontecido.
Mas aconteceu.
E ela sentiu.
O jantar começou.
Talheres.
Pratos.
Vozes.
Mas nada parecia normal.
Elisa não conseguia focar.
Era o olhar dele.
Sempre.
Quando Dante se inclinou-
perto demais-
a voz veio baixa.
Só pra ela.
- Nem tudo que você acredita... é real.
Um frio percorreu sua coluna.
Ela não respondeu.
Não conseguiu.
A campainha tocou.
O som quebrou tudo.
Elisa levantou rápido.
Abriu a porta.
- Feliz aniversário!
Sofia entrou sorrindo, com uma sacola nas mãos.
- Trouxe bolo e presente!
O ar mudou.
Mais leve.
Mais real.
Elisa sorriu.
De verdade.
- Obrigada...
Sofia entrou animada.
Mas, quando olhou para Dante-
parou.
Por um segundo.
O sorriso falhou.
Um arrepio percorreu sua pele.
Ela não sabia explicar.
Mas sentiu.
- Ah... Sofia, esse é o Dante... - Elisa disse, ainda confusa - amigo do meu pai.
Sofia forçou um sorriso educado.
- Prazer...
- O prazer é meu - Dante respondeu, calmo.
Mas o olhar dele permaneceu... atento demais.
Como se a estivesse avaliando.
Sofia desviou.
Instintivo.
Henrique bateu levemente as mãos.
- Chega de mistério por hoje... vamos cantar parabéns antes que tudo esfrie.
- Isso! - Sofia disse, animando o ambiente. - Eu trouxe o bolo justamente pra isso.
Ela abriu a caixa.
O cheiro doce se espalhou.
Quase suficiente para afastar a tensão.
Quase.
A vela foi acesa.
A chama tremulou.
Instável.
Elisa se aproximou.
Os olhos fixos nela.
- Faz um pedido - disse Sofia.
Elisa fechou os olhos.
Respirou fundo.
Mas nada vinha.
Só a sensação.
O peso.
Então-
o pensamento surgiu.
Claro demais.
"Eu quero entender."
A chama oscilou forte.
Como se tivesse ouvido.
Elisa abriu os olhos.
E soprou.
A chama apagou.
Mas a escuridão durou um segundo a mais do que deveria.
Errado.
Quando a luz voltou-
Dante ainda estava olhando para ela.
Como se soubesse.
- Agora corta! - Sofia disse.
Elisa pegou a faca.
Cortou.
Pegou o primeiro pedaço.
Automático.
Era do pai.
Sempre foi.
Ela virou-
e parou.
Algo mudou.
Sutil.
Mas inevitável.
Quando percebeu-
estava diante de Dante.
O silêncio se fechou ao redor.
- Eu... - ela hesitou.
Mas não recuou.
Estendeu o prato.
Para ele.
Sofia percebeu.
Na hora.
Henrique também.
Mas ficou em silêncio.
Dante pegou.
Devagar.
Os dedos roçaram os dela.
Um choque.
Ela puxou a mão.
- Obrigado - ele disse, baixo.
Mas aquilo não era só educação.
Era reconhecimento.
Elisa recuou.
- Eu... não sei por que fiz isso...
Mas já estava feito.
Henrique desviou o olhar.
Como se já esperasse.
- Espera... ainda falta uma coisa.
Ele pegou uma caixa.
Entregou.
- Esse é meu presente.
Ela abriu.
Um colar.
Antigo.
- Era da sua mãe.
O coração dela apertou.
Ela colocou.
O metal tocou sua pele.
E-
o mundo desacelerou.
O ar sumiu.
Algo dentro dela se moveu.
Pequeno.
Mas vivo.
- Elisa? - Sofia chamou.
Tudo voltou.
Rápido demais.
- Tô bem.
Mas não estava.
Dante já estava atento.
Mais do que antes.
Então-
ele deu um passo à frente.
- Falta um.
O ar mudou.
Ele ergueu a mão.
Um anel.
Escuro.
Antigo.
Errado.
- Eu não posso aceitar-
- Pode.
A voz dele foi firme.
Inquestionável.
- Porque sempre foi seu.
O mundo tremeu.
Ele pegou a mão dela.
No toque-
tudo reagiu.
Ela puxou o ar.
Mas não recuou.
Não conseguiu.
O anel deslizou em seu dedo.
Perfeito.
Como destino.
Como retorno.
O silêncio caiu.
Irreversível.
Dante se inclinou.
A voz baixa.
Só pra ela.
- Agora sim.
Algo dentro dela respondeu.
Não com medo.
Mas com reconhecimento.
E isso...
foi pior.
Sofia observava.
Sem entender.
Mas sentindo.
Aquilo não era um presente.
Era uma marca.
Henrique fechou os olhos.
Por um segundo.
Aceitando.
E Dante-
permaneceu imóvel.
Observando.
Como se, finalmente-
algo tivesse voltado para onde sempre pertenceu.