Antes da chegada

1247 Words
A campainha tocou. Henrique abriu a porta poucos segundos depois. Dante entrou sem pressa. Os passos eram silenciosos, precisos - como se cada movimento já estivesse decidido antes mesmo de acontecer. - Boa noite. A voz saiu baixa. Firme. - Boa noite, Dante - respondeu Henrique, ajeitando a mesa. - Não esperava você hoje. Dante não respondeu de imediato. O olhar percorreu o apartamento. Lento. O quadro antigo. A cortina balançando com o vento. O cheiro de café ainda presente no ar. Então parou. A foto. Elisa sorria, despreocupada. Um instante comum. Mas não para ele. Nunca foi. Ele se aproximou. Não tocou. Mas ficou perto o suficiente. - Ela mudou. Henrique soltou o ar pelo nariz. - Não. Ela só cresceu desde a sua última visita. Silêncio. Do tipo que não era vazio. - O tempo está acabando. A frase saiu simples. Direta. Henrique parou. - Não sei do que você está falando. Dante virou o rosto, finalmente encarando-o. - Eu vou reivindicá-la. O ar pareceu esfriar. - Ela não é um objeto para ser reivindicado. Dante sustentou o olhar. - Eu sei. Um pequeno intervalo. - É por isso que confiei ela a você. Do bolso, ele retirou uma pequena caixa. Dentro, um colar. Delicado. Escuro. O pingente parecia engolir a luz da sala. Henrique pegou. O peso veio depois. - Isso não é da sua família. - Não. - Então por quê? Dante desviou o olhar, por um instante, para a porta. - Porque está na hora. Henrique fechou a mão em volta do colar. - Ela é minha filha. Dante ficou em silêncio por um segundo. - Graças a mim. Henrique desviou o olhar. - Mas ela está viva por minha causa. Henrique não respondeu. Não havia resposta. - Quero vê-la. - Então fica. Henrique virou para a cozinha. - Me ajuda com o jantar. Hoje é aniversário dela. O som da faca contra a madeira era regular. Preciso. Dante cortava os legumes sem olhar. Sem hesitar. Henrique mexia o estrogonofe, mas não parecia realmente ali. - Você não costuma aparecer assim. - Eu sei. - Então por quê? Silêncio. Henrique assentiu devagar. Entendeu. - Falta o tempero - disse, pegando a carteira. - Já volto. Ele hesitou na porta. Olhou para Dante. Rápido. Suficiente. E saiu. O silêncio voltou. Mais denso. Dante ergueu o olhar. E então- algo mudou. Sutil. Quase imperceptível. Como se o próprio ar anunciasse a chegada dela. A chave girou. Dante saiu levemente das sombras. Só o suficiente. A porta se abriu. Elisa entrou. E parou. O coração falhou um batimento. Por quê? Ela não sabia. Mas sentiu. Ele. Ali. O ar parecia mais frio. Mais pesado. Ela fechou a porta devagar. Deu alguns passos. O cheiro da comida não ajudava. Nada ajudava. Sentou-se no sofá. As mãos ainda tensas. - Posso ajudar? A voz saiu mais firme do que ela esperava. Dante a observou. Sem pressa. - Se quiser. Um breve silêncio. Ela engoliu seco. Por que aquilo soava... como um aviso? - Vocês se conhecem há muito tempo? - Tempo suficiente - respondeu Henrique da cozinha. Rápido demais. Como se não quisesse continuar. Elisa olhou para Dante. Ele não desviou. - Você observa muito. Ela nem percebeu quando disse. Dante inclinou levemente a cabeça. - Só quando é necessário. Um arrepio percorreu sua pele. Ela desviou o olhar. Mas voltou. Sem entender por quê. - Elisa, vem provar - chamou Henrique. Ela se levantou. Ao passar por Dante- o mundo falhou. Por um segundo... o som da cozinha sumiu. O ar ficou estático. Denso. Irreal. Ela parou. Um segundo. Dois. E então- tudo voltou. Como se nada tivesse acontecido. Mas aconteceu. E ela sentiu. O jantar começou. Talheres. Pratos. Vozes. Mas nada parecia normal. Elisa não conseguia focar. Era o olhar dele. Sempre. Quando Dante se inclinou- perto demais- a voz veio baixa. Só pra ela. - Nem tudo que você acredita... é real. Um frio percorreu sua coluna. Ela não respondeu. Não conseguiu. A campainha tocou. O som quebrou tudo. Elisa levantou rápido. Abriu a porta. - Feliz aniversário! Sofia entrou sorrindo, com uma sacola nas mãos. - Trouxe bolo e presente! O ar mudou. Mais leve. Mais real. Elisa sorriu. De verdade. - Obrigada... Sofia entrou animada. Mas, quando olhou para Dante- parou. Por um segundo. O sorriso falhou. Um arrepio percorreu sua pele. Ela não sabia explicar. Mas sentiu. - Ah... Sofia, esse é o Dante... - Elisa disse, ainda confusa - amigo do meu pai. Sofia forçou um sorriso educado. - Prazer... - O prazer é meu - Dante respondeu, calmo. Mas o olhar dele permaneceu... atento demais. Como se a estivesse avaliando. Sofia desviou. Instintivo. Henrique bateu levemente as mãos. - Chega de mistério por hoje... vamos cantar parabéns antes que tudo esfrie. - Isso! - Sofia disse, animando o ambiente. - Eu trouxe o bolo justamente pra isso. Ela abriu a caixa. O cheiro doce se espalhou. Quase suficiente para afastar a tensão. Quase. A vela foi acesa. A chama tremulou. Instável. Elisa se aproximou. Os olhos fixos nela. - Faz um pedido - disse Sofia. Elisa fechou os olhos. Respirou fundo. Mas nada vinha. Só a sensação. O peso. Então- o pensamento surgiu. Claro demais. "Eu quero entender." A chama oscilou forte. Como se tivesse ouvido. Elisa abriu os olhos. E soprou. A chama apagou. Mas a escuridão durou um segundo a mais do que deveria. Errado. Quando a luz voltou- Dante ainda estava olhando para ela. Como se soubesse. - Agora corta! - Sofia disse. Elisa pegou a faca. Cortou. Pegou o primeiro pedaço. Automático. Era do pai. Sempre foi. Ela virou- e parou. Algo mudou. Sutil. Mas inevitável. Quando percebeu- estava diante de Dante. O silêncio se fechou ao redor. - Eu... - ela hesitou. Mas não recuou. Estendeu o prato. Para ele. Sofia percebeu. Na hora. Henrique também. Mas ficou em silêncio. Dante pegou. Devagar. Os dedos roçaram os dela. Um choque. Ela puxou a mão. - Obrigado - ele disse, baixo. Mas aquilo não era só educação. Era reconhecimento. Elisa recuou. - Eu... não sei por que fiz isso... Mas já estava feito. Henrique desviou o olhar. Como se já esperasse. - Espera... ainda falta uma coisa. Ele pegou uma caixa. Entregou. - Esse é meu presente. Ela abriu. Um colar. Antigo. - Era da sua mãe. O coração dela apertou. Ela colocou. O metal tocou sua pele. E- o mundo desacelerou. O ar sumiu. Algo dentro dela se moveu. Pequeno. Mas vivo. - Elisa? - Sofia chamou. Tudo voltou. Rápido demais. - Tô bem. Mas não estava. Dante já estava atento. Mais do que antes. Então- ele deu um passo à frente. - Falta um. O ar mudou. Ele ergueu a mão. Um anel. Escuro. Antigo. Errado. - Eu não posso aceitar- - Pode. A voz dele foi firme. Inquestionável. - Porque sempre foi seu. O mundo tremeu. Ele pegou a mão dela. No toque- tudo reagiu. Ela puxou o ar. Mas não recuou. Não conseguiu. O anel deslizou em seu dedo. Perfeito. Como destino. Como retorno. O silêncio caiu. Irreversível. Dante se inclinou. A voz baixa. Só pra ela. - Agora sim. Algo dentro dela respondeu. Não com medo. Mas com reconhecimento. E isso... foi pior. Sofia observava. Sem entender. Mas sentindo. Aquilo não era um presente. Era uma marca. Henrique fechou os olhos. Por um segundo. Aceitando. E Dante- permaneceu imóvel. Observando. Como se, finalmente- algo tivesse voltado para onde sempre pertenceu.
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