O caminho até em casa nunca pareceu tão longo.
Elisa caminhava rápido, mas cada passo soava alto demais nas ruas desertas. O vento gelado arranhava a pele, carregando o cheiro de cidade vazia, de noite adiada. Algo estava diferente. Ela podia sentir.
Cada sombra parecia se mover com vida própria. Cada esquina parecia esconder olhos invisíveis.
Ela tentou ignorar.
Não funcionou.
O pássaro voltou à sua mente.
Imóvel. Observando.
A sensação familiar.
Errada.
Elisa apertou a alça da bolsa.
Ridículo.
Só cansaço. Só mais uma noite.
Mas o coração não obedecia à razão.
Cada passo parecia trazer algo desconhecido mais perto.
Virou a última esquina. O prédio surgiu à frente: silencioso, simples, com poucas janelas iluminadas.
Normal.
Tudo parecia normal.
E, ainda assim...
não parecia.
Ela empurrou a porta com força. O som ecoou pelo hall vazio.
Silêncio.
Sempre o silêncio.
Subiu as escadas. Um lance, dois, três.
O coração desacelerava aos poucos, mas a respiração continuava irregular.
- É só coisa da cabeça... - murmurou, mais para si mesma do que para qualquer outro.
No corredor do andar, parou.
As luzes fracas piscavam, projetando sombras irregulares nas paredes. Um leve cheiro de mofo antigo se misturava ao perfume distante de café.
Nada fora do comum.
Pelo menos... à primeira vista.
Procurou a chave na bolsa. O metal tilintou baixo. Ela girou a chave e entrou.
O apartamento estava escuro, familiar.
O cheiro de café antigo e madeira, misturado a um toque de lavanda, a envolveu.
Seguro.
Finalmente.
Mas algo estava errado.
O ar parecia mais denso.
Mais frio.
Como se alguém ocupasse o espaço invisível entre ela e os móveis.
Elisa virou lentamente a cabeça.
Nada.
O sofá. A mesa. Silêncio absoluto.
Mas a sensação não desapareceu.
Pelo contrário.
Aumentou.
Atrás dela.
Sempre atrás dela.
Um arrepio subiu pela coluna.
O vento que entrou pela porta entreaberta parecia gelar a pele, como dedos invisíveis tocando cada músculo.
- Demorou.
A voz surgiu do escuro, baixa, controlada, carregada de algo que fez o corpo dela travar.
Elisa prendeu a respiração.
- Quem está aí?
Silêncio.
Um segundo.
Um passo.
Lento. Preciso. Ecoando pelo chão de madeira.
Ela virou.
E viu.
Ele estava ali.
Encostado na parede, parcialmente coberto pelas sombras.
Alto. Imóvel. Observando.
Olhos escuros demais.
Vivos demais.
Perigosos demais.
O ar desapareceu de seus pulmões.
- Como... - ela engoliu seco - como você entrou aqui?
Ele não respondeu.
Apenas a estudava.
Cada detalhe.
Cada reação.
- O que está fazendo aqui?
- Não preciso te responder.
A voz saiu baixa. Calma. Fria.
Um arrepio percorreu sua pele.
- Você n******e simplesmente entrar aqui... é minha casa.
Ele avançou um passo.
Depois outro.
A luz revelou traços marcantes: pele pálida, olhos penetrantes, quase hipnotizantes.
Ele parou perto demais.
O ar ao redor dele parecia gelado.
Quase sólido.
- Isso não importa agora.
Elisa franziu a testa.
- Você não deveria estar aqui.
- Vai me expulsar?
- É exatamente isso que eu deveria fazer.
O coração dela acelerou.
O movimento sutil da cabeça dele - igual ao do pássaro - fez seu corpo gelar.
- O pássaro... - sussurrou.
Os olhos dele não desviaram.
- Você vê mais do que deveria.
- Meu pai... - Elisa olhou ao redor, tensa. - Pai?
Silêncio.
Vazio.
Errado.
O coração apertou.
- Ele estava aqui... mas saiu faz pouco tempo.
Ela virou o rosto.
- Eu não acredito em um desconhecido.
- Eu estava aqui. Vi ele sair.
O ar ficou mais pesado.
- Ele disse que ia comprar um tempero.
- Tempero?
- Estamos fazendo estrogonofe. Para você.
O coração dela parou por um instante.
- É um dos seus pratos favoritos e hoje é um dia especial - disse ele, calmamente.
Elisa franziu a testa.
- Como você sabe disso?
Ele a analisava, sem pressa.
- Eu conheço seu pai.
Ele deu mais um passo em direção a Elisa.
- E também conheço você.
Um arrepio percorreu sua espinha.
- Eu sou um amigo dele - disse ele, calmo - vim fazer uma visita.
Elisa negou com a cabeça.
- Não... eu me lembraria.
Ele deu um passo à frente.
Lento.
Calculado.
- Nem sempre.
O silêncio caiu como uma pedra.
- Como eu esqueceria?
Ele apenas a olhou.
Intenso.
Silencioso.
- Quem é você...?
Ele inclinou a cabeça.
- Tenha paciência.
- O quê?
- Você vai entender.
O ar ficou mais pesado.
- Mas não agora.
- Por quê?
- Porque você ainda não está pronta.
O mundo pareceu falhar por um segundo.
- Pronta pra quê...?
Ele deu um passo para trás.
E não respondeu.
O silêncio voltou.
Pesado.
Frio.
Pela primeira vez, Elisa teve medo.
Não dele.
Mas de si mesma.
Memórias vagas - sonhos, sensações antigas, presságios - começaram a se misturar à realidade.
O pássaro.
Os olhos invisíveis.
A sensação de que algo sempre esteve ali...
E então-
o som da chave girando na porta quebrou tudo.
Os dois olharam ao mesmo tempo.
- Elisa?
O pai entrou, carregando uma sacola.
Parou ao ver Dante.
Seu olhar demorou um instante.
Não surpresa.
Reconhecimento.
Como se confirmasse algo.
- Ah... já conheceu nossa visita? Desculpa, devia ter avisado.
Elisa piscou, confusa.
- Uma mensagem teria ajudado... e muito.
- Desculpa, filha. Fiquei focado na comida e acabei esquecendo.
- Ele já estava aqui quando cheguei. Eu quase o expulsei.
Dante esboçou um leve sorriso.
O pai assentiu.
- Tive que sair rapidinho... faltava o tempero que você mais gosta. E a batata palha.
Seu olhar passou brevemente por Dante.
Rápido.
Discreto.
Significativo.
- Não demorei muito, né?
Dante não respondeu.
Não precisava.
- Estávamos fazendo seu prato favorito - o pai continuou, voltando a atenção para Elisa - achei que você ia gostar.
O coração dela apertou.
Algo estava errado.
Muito errado.
- Não vai me apresentar? - ela perguntou, nervosa.
A voz de Dante cortou o silêncio:
- Parece que ela não lembra.
O pai respirou fundo.
- Ele é... um velho conhecido.
- Dante.
O nome soou natural.
Como se já tivesse sido dito antes.
O coração dela disparou.
- Velho conhecido...?
O pai apenas assentiu.
- Fique à v*****e - disse, seguindo para a cozinha.
Antes de desaparecer, lançou um último olhar para Dante.
Rápido.
Silencioso.
Um aviso.
Ou um acordo.
E, pela primeira vez...
Elisa não sabia se estava mais assustada com ele-
ou com o fato de que uma parte dela...
parecia reconhecê-lo.