A alvorada chegou sem o canto dos pássaros.
O céu estava coberto por nuvens pesadas e longas faixas de luz prateada, como se a própria lua se recusasse a desaparecer.
Lucian observava o horizonte da sacada de seus aposentos, já vestido com a armadura escura de batalha, o manto azul-escuro esvoaçando ao vento.
Nos corredores, o som de passos apressados ecoava — mensageiros, soldados, magos.
Todos sabiam que algo estava prestes a mudar.
Isla apareceu ao lado dele, envolta em um vestido de viagem feito de couro leve e tecidos escuros. O cabelo, agora solto, refletia a luz prateada que escapava pelas nuvens.
Nos olhos dela, havia calma… e tempestade.
O norte está chamando — ela disse, sem rodeios. Eu consigo sentir o pulso da energia por lá. Como um coração que voltou a bater.
Lucian virou-se para ela, estudando o rosto da mulher que agora era sua rainha.
Ela parecia diferente — mais forte, mais desperta.
Havia algo em seu olhar que lembrava o luar sobre a lâmina de uma espada: belo, mas letal.
Então vamos — respondeu ele. Antes que essa energia decida vir até nós.
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A viagem até o norte foi longa e silenciosa.
Os campos antes férteis estavam cobertos por uma névoa baixa e fria.
A cada milha percorrida, o ar ficava mais denso, mais saturado de poder.
As runas de proteção das carroças crepitavam, reagindo ao ambiente.
Rowan e mais uma dúzia de soldados escoltavam o casal real.
Mas, apesar da presença deles, Lucian não tirava os olhos do caminho — o instinto de alfa não o deixava relaxar nem por um segundo.
Em determinado momento, Isla pediu que parassem.
Ela desceu do cavalo, caminhando até uma árvore seca, o tronco retorcido como se tivesse sido queimado por dentro.
Ao tocar a casca, a madeira começou a emitir um brilho prateado.
Lucian se aproximou, atento.
O que está fazendo?
Ela fechou os olhos.
O poder da lua ainda está aqui. Preso sob a corrupção.
E pode libertá-lo?
Não. Mas posso senti-lo gritar.
O vento soprou, e uma sombra atravessou o campo — rápida demais para ser humana.
Os lobos que os acompanhavam começaram a rosnar, o pelo eriçado.
Lucian puxou a espada.
Protejam a rainha!
Do meio da névoa, figuras começaram a surgir.
Eram altos, de armaduras quebradas e olhos vazios — os chamados Renegados, restos de guerreiros tomados pela energia que fugira do véu.
Mas havia algo estranho neles.
Quando viram Isla, pararam.
Um dos guerreiros caiu de joelhos, batendo o punho no chão em reverência.
Lucian estreitou os olhos.
Que diabos...
Isla deu um passo à frente, hesitante.
O guerreiro ergueu a cabeça — e, por um instante, a face de um lobo ancestral surgiu sob a forma humana, com olhos brancos que refletiam o luar.
Lunaris... — murmurou ele, com voz rouca e reverente. A Filha retornou.
Os outros guerreiros imitaram o gesto, ajoelhando-se.
Rowan, confuso, olhou para Lucian.
Estão… se curvando?
Isla recuou um passo, atônita.
O guerreiro ergueu uma das mãos, revelando um símbolo antigo gravado em seu braço — o mesmo que ela vira nos templos de suas visões.
Somos os Guardiões Esquecidos — disse ele. Juramos proteger a linhagem da Primeira Lua, mesmo na morte.
Lucian baixou lentamente a espada.
E vocês foram corrompidos pela f***a.
O guerreiro assentiu.
. Perdemos o nome, mas não o juramento. O sangue dela... nos chama de volta.
Isla sentiu o coração apertar.
Aqueles homens — ou o que restava deles — eram ecos do passado, guardiões que haviam permanecido entre os mundos por eras, presos entre luz e sombra.
Ela ergueu a mão.
Um brilho prateado começou a emanar de seus dedos, e o símbolo no peito dos guerreiros respondeu, pulsando em sincronia.
Lucian observava em silêncio, a expressão grave.
A aura dela era intensa, quase divina, mas ao mesmo tempo… perigosa.
Um a um, os guerreiros se desintegraram em faíscas prateadas, libertos da maldição.
E, no chão, o símbolo de uma lua partida brilhou brevemente antes de desaparecer.
Lucian se aproximou, colocando uma das mãos nas costas dela.
Você os libertou.
Ela assentiu, respirando fundo.
. E eles me mostraram o caminho.
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No cair da noite, chegaram às montanhas de Aeryon — terras antigas, onde o vento soava como um cântico esquecido.
As ruínas do antigo templo se erguiam no alto, cobertas por gelo e raízes.
Mas ao se aproximarem, uma luz azulada começou a cintilar nas pedras, respondendo à presença de Isla.
Lucian ergueu o olhar para a construção.
Parece que o templo te reconhece.
Ele lembra do meu sangue — ela respondeu, caminhando à frente.
Ao cruzar o portão, uma sensação familiar a envolveu.
Não era medo, nem poder — era pertencimento.
As paredes sussurravam, as chamas nas tochas antigas se reacendiam sozinhas.
E, no centro do templo, um altar de prata aguardava.
Isla subiu os degraus lentamente.
Sobre o altar, havia uma pedra oval, pulsando em ritmo com o coração dela.
Lucian ficou logo atrás, em alerta.
Isla… cuidado.
É o Coração da Lua — ela disse, em um sussurro. O que resta da Primeira Energia.
Ela estendeu a mão — e o ar se partiu.
Um raio de luz saiu da pedra, envolvendo-a.
Seu corpo foi erguido do chão, o cabelo flutuando, os olhos brilhando com um azul intenso.
Lucian tentou avançar, mas uma barreira de energia o impediu.
A luz cresceu até preencher o templo inteiro.
E então, uma voz ecoou — não apenas no ar, mas dentro de cada mente ali presente.
“A Herdeira desperta.
Que o juramento da Lua se cumpra mais uma vez.”
A pedra se fragmentou, espalhando partículas de prata que flutuaram ao redor de Isla.
Quando a luz se dissipou, ela caiu nos braços de Lucian, ofegante.
Ele a segurou com força, o coração disparado.
Isla!
Ela abriu os olhos lentamente.
O azul em suas íris havia se tornado mais profundo, quase líquido, e símbolos lunares agora marcavam sua pele, como tatuagens prateadas.
Eu me lembro… — murmurou ela. De tudo.
Lucian tocou o rosto dela, temendo a resposta.
Do quê?
De quem eu sou. Ela olhou para o altar destruído. A Primeira Lua… era minha ancestral. Mas não foi a única. Houve outra — uma sombra criada do reflexo dela.
A escuridão?
Sim. E ela ainda vive. No outro lado do véu.
Lucian a ajudou a ficar de pé, mantendo o olhar firme.
Então, essa é a ameaça que a Deusa mencionou.
Isla assentiu, o rosto sério.
Ela quer voltar. E está usando Damon para isso.
O nome dele ecoou como uma lâmina cortante entre os dois.
Lucian cerrou os punhos.
Então vamos impedir.
Mas Isla desviou o olhar, como se algo a perturbasse.
Lucian… e se, para fechar o véu, for preciso que eu o atravesse?
Ele a segurou pelos ombros, os olhos ardendo de emoção.
Não. Eu não vou te perder de novo. Nem para Damon, nem para deuses.
Ela sorriu com ternura, pousando uma das mãos sobre o peito dele.
Então me prometa algo.
Qualquer coisa.
Que se a sombra tentar me dominar… você me trará de volta. Mesmo que precise me enfrentar.
Lucian respirou fundo, a dor visível em cada traço de seu rosto.
Mas assentiu.
Eu prometo.
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Quando deixaram o templo, o vento havia mudado.
O ar estava mais frio, e o luar agora tinha um tom avermelhado.
Do alto das montanhas, era possível ver o vale se contorcendo — como se a terra respirasse.
Rowan apontou para o horizonte.
Majestade… aquilo não é névoa.
Lucian estreitou os olhos.
Uma massa n***a se movia lentamente em direção ao sul, engolindo florestas e rios.
E, no centro dela, um clarão carmesim pulsava.
Isla sentiu o chão vibrar sob os pés.
A energia do véu.
O despertar havia começado.
Ela olhou para Lucian, e ele a olhou de volta — o mesmo medo e a mesma determinação refletidos em ambos.
Está começando — ela disse.
Então que venha — respondeu ele. E que a lua esteja conosco.
O vento rugiu, levando consigo as cinzas do templo e o eco de um juramento antigo:
“Enquanto houver luz, a sombra nunca vencerá.”
Mas na escuridão ao norte, uma risada ecoou… distante, fria e familiar.
Damon tinha ouvido o chamado.