Cesur entrou na mansão sem dizer uma única palavra. Caminhou diretamente até à sala de vigilância, onde Mehola, Tintu e o resto da equipa já o esperavam.
O enorme ecrã exibia várias câmaras ligadas ao sistema.
— Conseguiram gravar toda a gente? — perguntou Cesur, retirando lentamente as luvas.
Tintu, o informático da equipa, mantinha os olhos fixos nos computadores enquanto os dedos corriam pelo teclado.
— Claro. Foi um sucesso.
Cesur cruzou os braços.
— Quero ouvir. Agora.
— Espera… deixa-me encontrar o ficheiro.
Depois de alguns minutos, Tintu abriu a gravação.
No ecrã apareceu Sultan Hakan ao lado de Matias e de alguns investidores.
A gravação começou.
Sultan Hakan:
— Quero descobrir tudo sobre esse homem. Não se esqueçam. Amanhã, logo pela manhã, quero saber quem ele é, de onde veio, quem é a família dele… tudo.
Matias:
— Senhor, será um pouco complicado conseguir todas essas informações em menos de um dia…
Sultan:
— Eu não quero saber! Tenho a certeza de que ele esconde alguma coisa. Acham que sou i****a? Ele pensa que me faz de burro?
Matias permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de responder:
— Também o achei um pouco estranho. Disse que veio de Itália…
Sultan interrompeu-o.
— Mas tem aparência de alguém da Turquia.
Ele apertou a mandíbula.
— Descobre quem ele é… e o que realmente veio fazer aqui.
Matias assentiu.
— Sim, senhor.
Sultan voltou a falar:
— Ainda bem que chegaste a tempo de me dizer que foi ele quem comprou a propriedade. Se eu descobrir que tudo isto não passa de uma brincadeira… tu já sabes o que fazer.
— Claro, senhor.
Nesse momento, Sultan levantou a taça de champanhe para chamar um empregado.
O empregado aproximou-se para recolher a taça.
Subitamente…
O sinal foi interrompido.
A gravação terminou.
O silêncio tomou conta da sala.
Cesur permaneceu imóvel durante alguns segundos.
Depois, um pequeno sorriso apareceu no canto dos seus lábios.
— O Sultan é tudo… menos burro.
A sua voz saiu calma.
— Não é fácil enganar um homem que passou a vida inteira a enganar os outros.
Tintu encostou-se à cadeira e sorriu.
— Tchau, velho babaca.
Fez uma expressão dramática de falsa tristeza, arrancando algumas gargalhadas da equipa.
Cesur caminhou calmamente até ao bar.
Serviu-se de um copo de whisky.
Como sempre, colocou uma das mãos no bolso da calça enquanto girava o copo entre os dedos.
Virou-se para Mehola.
— Está tudo pronto?
Mehola sorriu.
— Se estás a falar da tua mãe, do teu pai… e da tua irmã…
Fez uma pausa.
— Está tudo prontinho, querido impostor.
Os dois soltaram uma gargalhada.
Mehola também pegou num copo de whisky.
Depois lançou-lhe um olhar provocador.
— Tenho de admitir…
Ele sorriu de lado.
— Gostei da forma como olhaste para a filha do Sultan.
Cesur permaneceu em silêncio.
Durante dois segundos ficou perdido nos próprios pensamentos.
Sem perceber, levou o copo aos lábios.
Um sorriso discreto… mas perigoso… apareceu no seu rosto.
Tintu arregalou os olhos.
— Não… não… não me digas que estás a pensar…
Nem conseguiu terminar a frase.
— Cala a boca. — interrompeu Mehola, rindo.
Cesur pousou o copo.
O seu olhar voltou a ficar frio.
— Já é tarde.
Olhou para toda a equipa.
— Podem ir.
Todos começaram a sair da sala.
Todos…
Menos Mehola.
O seu melhor amigo.
E o único homem em quem Cesur confiava cegamente.
Enquanto toda a mansão dormia…
Cesur Demir continuava acordado.
00h00
Vestia apenas umas calças de moletom escura.O peito musculado permanecia descoberto. Na mão direita segurava um copo de whisky, enquanto os olhos permaneciam perdidos na enorme janela da sala de estar.
A cidade dormia.
Mas a mente dele… não.
Alguns segundos depois, ouviu passos.
Mehola aproximou-se e bateu-lhe levemente no ombro.
— Ainda não consegues dormir, meu amigo?
Cesur apenas sorriu de lado.
Os dois sentaram-se no sofá.
Durante alguns instantes, o silêncio falou mais alto.
Mehola quebrou-o.
— Como foi… ficar frente a frente com aquele homem? Apertar a mão dele?
Cesur permaneceu em silêncio.
O olhar perdeu-se novamente na janela.
Depois respirou fundo.
— A única coisa que eu queria…
Apertou o copo com força.
— …era apertar o pescoço daquele nojento.
A voz saiu fria.
— E cuspir na cara dele.
Fez uma pequena pausa.
— Eu vou destruí-lo.
Os seus olhos escureceram.
— Vou tirar dele aquilo que ele tem de mais precioso.
Mehola franziu a testa.
— O que é mais precioso para Sultan Hakan?
Cesur desviou o olhar durante alguns segundos.
Quando voltou a encará-lo…
Havia apenas determinação.
— A sua maior joia.
Fez outra pausa.
— Alina Hakan.
Mehola arregalou os olhos.
— A filha dele?
Cesur apenas assentiu.
— Como pretendes fazer isso?
Cesur levantou-se calmamente.
Foi até ao bar.
Encheu novamente o copo de whisky.
Virou-se de costas, olhando para a cidade iluminada.
Depois sorriu.
Um sorriso frio.
Perigoso.
— Será a coisa mais fácil do mundo.
Levou o copo aos lábios.
— Vou fazê-la apaixonar-se por mim.
Acreditar que sou um homem bom.
Que sou diferente.
Que pode confiar em mim…
A sua voz tornou-se ainda mais baixa.
— E quando ela me entregar o coração…
Vou destruí-lo.
E quando ela cair…
Sultan cairá com ela.
Porque um homem que destrói uma família…
Não merece ver a sua permanecer de pé.
Vou destruir todos eles.
Um por um.
Até que o sobrenome Hakan desapareça para sempre.
O silêncio tomou conta da sala.
Assim como o pai dela destruiu o meu.
O silêncio voltou a dominar a sala.
Mehola levantou-se lentamente.
Ainda tentava processar aquelas palavras.
— Uau…
Depois respirou fundo.
— Só há uma coisa que me preocupa…
Cesur virou-se lentamente para ele.
— E se…
Mehola hesitou.
— …e se fores tu quem acabar apaixonado por ela?
O sorriso desapareceu do rosto de Cesur.
Os seus olhos tornaram-se frios.
Afiados.
Assustadores.
Ele encarou Mehola durante alguns segundos antes de responder, sem desviar o olhar.
— O amor…
Ergueu novamente o copo.
— Foi a primeira coisa que enterrei… no dia em que enterraram o meu pai.
Mehola permaneceu em silêncio.
Pela primeira vez…
Temeu que, naquela guerra…
O coração do próprio Cesur fosse o primeiro a cair.