Um Brinde Entre Inimigos .

1499 Words
⸻ Alina Hakan As ruas de Istambul passavam rapidamente diante dos olhos de Alina. Mas ela não prestava atenção em nenhuma delas. Os pensamentos estavam presos num único homem. Cesur Demir. A imagem dele recusava-se a sair da sua cabeça. O modo como entrou naquela sala… A postura impecável. A calma exagerada. A maneira como parecia observar tudo sem realmente olhar para ninguém. Aquilo incomodava-a. Muito. Alina apertou o volante com força. — Quem és tu afinal… Murmurou para si mesma. — O que realmente vieste fazer à Turquia? O coração dela dizia que havia alguma coisa errada. Não conseguia explicar. Era apenas uma sensação. Mas Alina Hakan nunca ignorava a própria intuição. Ela conhecia pessoas. Sabia ler olhares. Sabia distinguir um homem honesto de um mentiroso. E Cesur… Era impossível de ler. Quanto mais tentava entendê-lo… Mais misterioso ele parecia. Ela bateu com força no volante. — Merda! Pegou imediatamente no telemóvel. Ligou para a única pessoa em quem confiava completamente. O telefone chamou durante alguns segundos. — Alô? A voz divertida surgiu do outro lado. — Então… A menina rica finalmente lembrou-se de mim ou mandou-me definitivamente para o inferno? Alina fechou os olhos. Não tinha paciência para brincadeiras. — Asly… Por favor. Hoje não. Preciso de ti. É urgente. O tom da voz fez Asly mudar completamente de atitude. — O que aconteceu? Estás bem? Onde estás? — Vou enviar-te a localização. Encontra-me no restaurante. Agora. Sem esperar resposta, desligou. Respirou profundamente. Tentou acalmar o coração. Mas era impossível. Pela primeira vez… Um homem desconhecido conseguira deixá-la completamente inquieta. ⸻ Quarenta minutos depois… Alina já esperava sentada no restaurante. Era um lugar elegante. Discreto. Perfeito para conversar longe dos olhares curiosos. Mexia distraidamente no computador portátil. Mas não conseguia concentrar-se. A porta abriu-se. Asly entrou apressada. Assim que a viu, caminhou imediatamente até à mesa. — Agora vais dizer-me o que aconteceu… Ou vais continuar a fingir que esse computador é mais interessante do que eu? Alina nem levantou a cabeça. Continuava a olhar para o ecrã. Asly sentou-se. Pegou no copo de sumo. Esperou alguns segundos. Depois sorriu. — Espera… Não me digas… É por causa daquele investidor novo… Alina fechou imediatamente o computador. Olhou finalmente para a amiga. — Lembras-te dele? — Claro que lembro! Asly quase se engasgou com o sumo. — Como esquecer? Aquele homem é um pecado ambulante! Meu Deus… A altura dele… Os braços… A forma como estava vestido… E aqueles olhos azuis… Meu Deus do céu… Ela levou as mãos ao peito dramaticamente. — Se ele sorrisse para mim… Eu assinava qualquer contrato! Alina colocou as mãos na cabeça. — Posso falar agora? — Sim… Desculpa. Empolguei-me. Mas convenhamos… O homem é lindo. Alina respirou fundo. — É exatamente isso que me preocupa. Asly franziu a testa. — Como assim? — Há alguma coisa errada com ele. Muito errada. A amiga deixou o copo lentamente sobre a mesa. — Explica melhor. — Não sei explicar… Mas a presença dele arrepia-me. Os olhos dele… O olhar… A maneira como observa tudo… Como se já soubesse exatamente onde está cada pessoa. Como se estivesse sempre um passo à frente. Asly permaneceu em silêncio. Nunca tinha visto Alina falar daquela forma. Ela sempre foi racional. Calculista. Se estava desconfiada… Era porque realmente tinha percebido alguma coisa. — Fizeste alguma pesquisa? Alina assentiu. — Assim que cheguei a casa depois do evento. Passei horas a investigar a vida dele. Asly inclinou-se para a frente. — E? — Descobri que é um dos maiores empresários da Itália. Tudo parece perfeito. Empresa. Dinheiro. Família. Nenhum escândalo. Nada. Ela fez uma pausa. — E é exatamente isso que me preocupa. — Porque? — Porque homens perfeitos não existem. Muito menos no mundo dos negócios. Ela cruzou os braços. — Uma pessoa não abandona milhões na Itália para investir numa empresa turca sem esconder algum objetivo. Asly ficou pensativa. — Talvez seja apenas uma oportunidade de negócio… Alina abanou imediatamente a cabeça. — Não. Há qualquer coisa que ele quer. Só ainda não descobri o quê. Asly olhou atentamente para a amiga. — Tens medo dele? Silêncio. Alina desviou o olhar para a janela. A cidade iluminava-se lentamente. Depois respondeu… Quase num sussurro. — Sim. Tenho. Não dele… Mas do que ele pode fazer. Asly permaneceu alguns segundos em silêncio. Depois segurou delicadamente a mão da amiga. — Se realmente existir alguma coisa… Nós vamos descobrir. Juntas. Alina sorriu muito discretamente. Mas logo voltou a ficar séria. — Não. O destino não vai dizer nada. Eu própria vou descobrir quem é Cesur Demir. Nem que seja a última coisa que faça. ⸻ Alina Hakan sempre foi inteligente, determinada e observadora. Mas até a melhor aluna do mundo… nunca se compararia à inteligência fria de um verdadeiro professor. E Cesur Demir… Era exatamente isso. Um homem que ensinava sem nunca abrir um livro. Escritório do Hakan Holding Depois da reunião, Sultan Hakan convidou Cesur para o seu escritório. A porta fechou-se lentamente atrás dos dois. Pela primeira vez desde que se conheceram… Estavam completamente sozinhos. O silêncio dominou o ambiente. Cesur permaneceu sentado, elegante, com a postura impecável e as pernas cruzadas. O olhar continuava frio. Difícil de decifrar. Sultan caminhou lentamente até à enorme parede de vidro que revelava a cidade de Istambul. Ficou alguns segundos de costas. Depois virou-se. — Devo admitir… Estou realmente impressionado consigo, senhor Demir. Cesur não respondeu. Limitou-se a observá-lo calmamente. Sultan sorriu de lado. — Sempre foi assim tão reservado? — Personalidade. Respondeu Cesur, sem alterar a expressão. A resposta curta arrancou um pequeno sorriso a Sultan. Ele aproximou-se da secretária. Sentou-se exatamente em frente de Cesur. — Não está curioso para saber… Como descobri que foi o senhor quem comprou a propriedade Sultien ? — Não. Porque eu já sei. Os dois voltaram a encarar-se. Nenhum deles desviava o olhar. Sultan levantou-se novamente. — Quer beber alguma coisa? — Faça favor. Sultan caminhou até ao pequeno bar instalado no canto do escritório. Pegou numa garrafa de whisky. Serviu dois copos. Enquanto preparava as bebidas… Sentia o olhar de Cesur nas suas costas. Um olhar pesado. Quase desconfortável. Voltou. Entregou um dos copos. — Saúde. Cesur recebeu o whisky. — Obrigado. Levantou o copo lentamente. Tomou um pequeno gole sem nunca deixar de olhar para Sultan. O silêncio voltou. Até que Sultan voltou a falar. — Devo dizer… Que gostei muito de si. Cesur arqueou discretamente uma sobrancelha. — Que bom. Sultan deu uma pequena gargalhada. — Gostei da forma como pensa. Da maneira como fala. Da calma que transmite. Fez uma breve pausa. — Sabe… Gostaria de ter um filho igual ao senhor. Pela primeira vez… Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Cesur. Muito discreto. Quase imperceptível. — Pode considerar que tem. Os dois permaneceram em silêncio. Era um silêncio estranho. Pesado. Como se duas mentes tentassem descobrir quem iria cometer o primeiro erro. Sultan inclinou-se para a frente. Apoiou os cotovelos sobre os joelhos. — Investiguei toda a sua vida. Toda. Cesur continuava imóvel. Sem demonstrar qualquer reação. — Podemos dar-nos muito bem, senhor Demir. Acredito que podemos ser grandes aliados. Fez outra pausa. Depois aproximou-se ainda mais. A voz tornou-se mais baixa. Mais séria. — Mas há uma coisa… Que eu odeio acima de tudo. Cesur olhou-o diretamente nos olhos. — O quê? — Mentirosos. Silêncio. Cesur pousou calmamente o copo sobre a mesa. Depois respondeu com a mesma tranquilidade. — Eu também odeio. Sultan sorriu. Mas Cesur continuou. — Odeio ladrões. Homens que constroem impérios… Destruindo a vida de outras pessoas. O sorriso desapareceu lentamente do rosto de Sultan. Durante alguns segundos… Nenhum dos dois falou. O ar parecia pesado. Quase impossível de respirar. Finalmente… Cesur recostou-se novamente na cadeira. Como se nada tivesse acontecido. O olhar voltou a ser sereno. Quase educado. Sultan também recuperou a compostura. Levantou o copo. — Quero confiar em si. Cesur respondeu imediatamente. — Confiança… Não se pede. Conquista-se. Senhor Hakan. Silêncio. Sultan fez um pequeno aceno. — Tem razão. Mas hoje em dia… Existem demasiados Judas. Cesur levantou-se. Olhou uma última vez para Sultan. — E nunca sabemos… Quando estamos sentados diante de um deles. Os dois permaneceram imóveis. Olhavam-se. Como dois reis prestes a iniciar uma guerra. Cesur estendeu finalmente a mão. — Senhor Hakan. Espero que tenha uma boa tarde. Sultan apertou-lhe a mão. Com firmeza. — Igualmente, senhor Demir. Antes de sair, Sultan voltou a falar. — Em breve enviarei um convite. Gostaria que viesse jantar à minha casa. Cesur sorriu muito discretamente. — Não recusarei. Virou-se. Caminhou calmamente até à porta. Abriu-a. E saiu sem olhar para trás. A porta fechou-se. O escritório voltou ao silêncio. Sultan permaneceu imóvel durante vários segundos. Depois soltou um longo suspiro. Olhou para a cidade através do enorme vidro. E murmurou para si mesmo… — Quem és tu, Cesur Demir…? Porque, pela primeira vez em muitos anos… Sultan Hakan sentia que tinha encontrado um homem tão perigoso quanto ele.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD