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Alina Hakan
As ruas de Istambul passavam rapidamente diante dos olhos de Alina.
Mas ela não prestava atenção em nenhuma delas.
Os pensamentos estavam presos num único homem.
Cesur Demir.
A imagem dele recusava-se a sair da sua cabeça.
O modo como entrou naquela sala…
A postura impecável.
A calma exagerada.
A maneira como parecia observar tudo sem realmente olhar para ninguém.
Aquilo incomodava-a.
Muito.
Alina apertou o volante com força.
— Quem és tu afinal…
Murmurou para si mesma.
— O que realmente vieste fazer à Turquia?
O coração dela dizia que havia alguma coisa errada.
Não conseguia explicar.
Era apenas uma sensação.
Mas Alina Hakan nunca ignorava a própria intuição.
Ela conhecia pessoas.
Sabia ler olhares.
Sabia distinguir um homem honesto de um mentiroso.
E Cesur…
Era impossível de ler.
Quanto mais tentava entendê-lo…
Mais misterioso ele parecia.
Ela bateu com força no volante.
— Merda!
Pegou imediatamente no telemóvel.
Ligou para a única pessoa em quem confiava completamente.
O telefone chamou durante alguns segundos.
— Alô?
A voz divertida surgiu do outro lado.
— Então…
A menina rica finalmente lembrou-se de mim ou mandou-me definitivamente para o inferno?
Alina fechou os olhos.
Não tinha paciência para brincadeiras.
— Asly…
Por favor.
Hoje não.
Preciso de ti.
É urgente.
O tom da voz fez Asly mudar completamente de atitude.
— O que aconteceu?
Estás bem?
Onde estás?
— Vou enviar-te a localização.
Encontra-me no restaurante.
Agora.
Sem esperar resposta, desligou.
Respirou profundamente.
Tentou acalmar o coração.
Mas era impossível.
Pela primeira vez…
Um homem desconhecido conseguira deixá-la completamente inquieta.
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Quarenta minutos depois…
Alina já esperava sentada no restaurante.
Era um lugar elegante.
Discreto.
Perfeito para conversar longe dos olhares curiosos.
Mexia distraidamente no computador portátil.
Mas não conseguia concentrar-se.
A porta abriu-se.
Asly entrou apressada.
Assim que a viu, caminhou imediatamente até à mesa.
— Agora vais dizer-me o que aconteceu…
Ou vais continuar a fingir que esse computador é mais interessante do que eu?
Alina nem levantou a cabeça.
Continuava a olhar para o ecrã.
Asly sentou-se.
Pegou no copo de sumo.
Esperou alguns segundos.
Depois sorriu.
— Espera…
Não me digas…
É por causa daquele investidor novo…
Alina fechou imediatamente o computador.
Olhou finalmente para a amiga.
— Lembras-te dele?
— Claro que lembro!
Asly quase se engasgou com o sumo.
— Como esquecer?
Aquele homem é um pecado ambulante!
Meu Deus…
A altura dele…
Os braços…
A forma como estava vestido…
E aqueles olhos azuis…
Meu Deus do céu…
Ela levou as mãos ao peito dramaticamente.
— Se ele sorrisse para mim…
Eu assinava qualquer contrato!
Alina colocou as mãos na cabeça.
— Posso falar agora?
— Sim…
Desculpa.
Empolguei-me.
Mas convenhamos…
O homem é lindo.
Alina respirou fundo.
— É exatamente isso que me preocupa.
Asly franziu a testa.
— Como assim?
— Há alguma coisa errada com ele.
Muito errada.
A amiga deixou o copo lentamente sobre a mesa.
— Explica melhor.
— Não sei explicar…
Mas a presença dele arrepia-me.
Os olhos dele…
O olhar…
A maneira como observa tudo…
Como se já soubesse exatamente onde está cada pessoa.
Como se estivesse sempre um passo à frente.
Asly permaneceu em silêncio.
Nunca tinha visto Alina falar daquela forma.
Ela sempre foi racional.
Calculista.
Se estava desconfiada…
Era porque realmente tinha percebido alguma coisa.
— Fizeste alguma pesquisa?
Alina assentiu.
— Assim que cheguei a casa depois do evento.
Passei horas a investigar a vida dele.
Asly inclinou-se para a frente.
— E?
— Descobri que é um dos maiores empresários da Itália.
Tudo parece perfeito.
Empresa.
Dinheiro.
Família.
Nenhum escândalo.
Nada.
Ela fez uma pausa.
— E é exatamente isso que me preocupa.
— Porque?
— Porque homens perfeitos não existem.
Muito menos no mundo dos negócios.
Ela cruzou os braços.
— Uma pessoa não abandona milhões na Itália para investir numa empresa turca sem esconder algum objetivo.
Asly ficou pensativa.
— Talvez seja apenas uma oportunidade de negócio…
Alina abanou imediatamente a cabeça.
— Não.
Há qualquer coisa que ele quer.
Só ainda não descobri o quê.
Asly olhou atentamente para a amiga.
— Tens medo dele?
Silêncio.
Alina desviou o olhar para a janela.
A cidade iluminava-se lentamente.
Depois respondeu…
Quase num sussurro.
— Sim.
Tenho.
Não dele…
Mas do que ele pode fazer.
Asly permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois segurou delicadamente a mão da amiga.
— Se realmente existir alguma coisa…
Nós vamos descobrir.
Juntas.
Alina sorriu muito discretamente.
Mas logo voltou a ficar séria.
— Não.
O destino não vai dizer nada.
Eu própria vou descobrir quem é Cesur Demir.
Nem que seja a última coisa que faça.
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Alina Hakan sempre foi inteligente, determinada e observadora.
Mas até a melhor aluna do mundo… nunca se compararia à inteligência fria de um verdadeiro professor.
E Cesur Demir…
Era exatamente isso.
Um homem que ensinava sem nunca abrir um livro.
Escritório do Hakan Holding
Depois da reunião, Sultan Hakan convidou Cesur para o seu escritório.
A porta fechou-se lentamente atrás dos dois.
Pela primeira vez desde que se conheceram…
Estavam completamente sozinhos.
O silêncio dominou o ambiente.
Cesur permaneceu sentado, elegante, com a postura impecável e as pernas cruzadas.
O olhar continuava frio.
Difícil de decifrar.
Sultan caminhou lentamente até à enorme parede de vidro que revelava a cidade de Istambul.
Ficou alguns segundos de costas.
Depois virou-se.
— Devo admitir…
Estou realmente impressionado consigo, senhor Demir.
Cesur não respondeu.
Limitou-se a observá-lo calmamente.
Sultan sorriu de lado.
— Sempre foi assim tão reservado?
— Personalidade.
Respondeu Cesur, sem alterar a expressão.
A resposta curta arrancou um pequeno sorriso a Sultan.
Ele aproximou-se da secretária.
Sentou-se exatamente em frente de Cesur.
— Não está curioso para saber…
Como descobri que foi o senhor quem comprou a propriedade Sultien ?
— Não.
Porque eu já sei.
Os dois voltaram a encarar-se.
Nenhum deles desviava o olhar.
Sultan levantou-se novamente.
— Quer beber alguma coisa?
— Faça favor.
Sultan caminhou até ao pequeno bar instalado no canto do escritório.
Pegou numa garrafa de whisky.
Serviu dois copos.
Enquanto preparava as bebidas…
Sentia o olhar de Cesur nas suas costas.
Um olhar pesado.
Quase desconfortável.
Voltou.
Entregou um dos copos.
— Saúde.
Cesur recebeu o whisky.
— Obrigado.
Levantou o copo lentamente.
Tomou um pequeno gole sem nunca deixar de olhar para Sultan.
O silêncio voltou.
Até que Sultan voltou a falar.
— Devo dizer…
Que gostei muito de si.
Cesur arqueou discretamente uma sobrancelha.
— Que bom.
Sultan deu uma pequena gargalhada.
— Gostei da forma como pensa.
Da maneira como fala.
Da calma que transmite.
Fez uma breve pausa.
— Sabe…
Gostaria de ter um filho igual ao senhor.
Pela primeira vez…
Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Cesur.
Muito discreto.
Quase imperceptível.
— Pode considerar que tem.
Os dois permaneceram em silêncio.
Era um silêncio estranho.
Pesado.
Como se duas mentes tentassem descobrir quem iria cometer o primeiro erro.
Sultan inclinou-se para a frente.
Apoiou os cotovelos sobre os joelhos.
— Investiguei toda a sua vida.
Toda.
Cesur continuava imóvel.
Sem demonstrar qualquer reação.
— Podemos dar-nos muito bem, senhor Demir.
Acredito que podemos ser grandes aliados.
Fez outra pausa.
Depois aproximou-se ainda mais.
A voz tornou-se mais baixa.
Mais séria.
— Mas há uma coisa…
Que eu odeio acima de tudo.
Cesur olhou-o diretamente nos olhos.
— O quê?
— Mentirosos.
Silêncio.
Cesur pousou calmamente o copo sobre a mesa.
Depois respondeu com a mesma tranquilidade.
— Eu também odeio.
Sultan sorriu.
Mas Cesur continuou.
— Odeio ladrões.
Homens que constroem impérios…
Destruindo a vida de outras pessoas.
O sorriso desapareceu lentamente do rosto de Sultan.
Durante alguns segundos…
Nenhum dos dois falou.
O ar parecia pesado.
Quase impossível de respirar.
Finalmente…
Cesur recostou-se novamente na cadeira.
Como se nada tivesse acontecido.
O olhar voltou a ser sereno.
Quase educado.
Sultan também recuperou a compostura.
Levantou o copo.
— Quero confiar em si.
Cesur respondeu imediatamente.
— Confiança…
Não se pede.
Conquista-se.
Senhor Hakan.
Silêncio.
Sultan fez um pequeno aceno.
— Tem razão.
Mas hoje em dia…
Existem demasiados Judas.
Cesur levantou-se.
Olhou uma última vez para Sultan.
— E nunca sabemos…
Quando estamos sentados diante de um deles.
Os dois permaneceram imóveis.
Olhavam-se.
Como dois reis prestes a iniciar uma guerra.
Cesur estendeu finalmente a mão.
— Senhor Hakan.
Espero que tenha uma boa tarde.
Sultan apertou-lhe a mão.
Com firmeza.
— Igualmente, senhor Demir.
Antes de sair, Sultan voltou a falar.
— Em breve enviarei um convite.
Gostaria que viesse jantar à minha casa.
Cesur sorriu muito discretamente.
— Não recusarei.
Virou-se.
Caminhou calmamente até à porta.
Abriu-a.
E saiu sem olhar para trás.
A porta fechou-se.
O escritório voltou ao silêncio.
Sultan permaneceu imóvel durante vários segundos.
Depois soltou um longo suspiro.
Olhou para a cidade através do enorme vidro.
E murmurou para si mesmo…
— Quem és tu, Cesur Demir…?
Porque, pela primeira vez em muitos anos…
Sultan Hakan sentia que tinha encontrado um homem tão perigoso quanto ele.