Perfume de Perigo

1388 Words
Mansão Demir. O silêncio reinava na enorme mansão. Tudo permanecia organizado. Impecável. Apenas o som da água a cair quebrava aquela tranquilidade. No luxuoso banheiro da suíte principal… Cesur permanecia debaixo do chuveiro. A água quente escorria lentamente pelo seu corpo. A cabeça encontrava-se encostada à parede de mármore n***o. Os olhos fechados. Mas a mente… Trabalhava sem descanso. Uma única imagem ocupava completamente os seus pensamentos. Alina Hakan. O sorriso discreto. Os olhos curiosos. A forma como tentava esconder o desconforto sempre que ele se aproximava. Um pequeno sorriso apareceu-lhe no rosto. Quase impercetível. — Chegou o teu tempo… …querida Alina. Abriu lentamente os olhos. Desligou o chuveiro. Pegou na toalha e amarrou-a à cintura. Aproximou-se do enorme espelho. O reflexo mostrava um homem completamente diferente daquele que o mundo conhecia. Frio. Controlado. Calculista. Os músculos bem definidos destacavam-se sob a pele ainda húmida. Pegou no creme hidratante. Passou lentamente pelo peito e pelos braços. Depois abriu o roupeiro. Escolheu uma camisa preta larga. Calças pretas de corte italiano. Ténis brancos. Simples. Elegante. Pegou no perfume. Uma única borrifadela. O suficiente. Olhou mais uma vez para o espelho. — Hoje… …vamos dar mais um passo. Saiu do quarto. ⸻ Quando chegou à sala principal encontrou Mehola a preparar o café da amanha. A mesa já estava completamente organizada. Café. Frutas. Pão acabado de fazer. Mehola sorriu. — Bom dia, senhor. Cesur limitou-se a fazer um pequeno aceno de cabeça. Sentou-se. Tomou apenas um gole de café. Nem sequer tocou na comida. Mehola observou-o durante alguns segundos. Já conhecia aquele comportamento. Quando Cesur pensava demasiado… Perdia completamente o apetite. — Vai sair? Cesur pousou lentamente a chávena. — Sim. — Para a empresa? Silêncio. Depois respondeu apenas com duas palavras. — Ver Alina. Mehola sorriu discretamente. — Imaginei. Cesur levantou-se. Pegou nas chaves do carro. — Está bem, senhor. Sem dizer mais nada… Saiu. ⸻ LXL Company O motor do carro desportivo ecoava pelas ruas de Istambul. Cesur conduzia com a serenidade habitual. Nem demasiado rápido. Nem demasiado devagar. Cada movimento parecia calculado. Alguns minutos depois… Parou em frente ao enorme edifício da LXL Company. Desceu calmamente. Levantou os olhos. Observou a fachada. Elegante. Moderna. Sorriu discretamente. — Ainda… …por pouco tempo. Entrou. As portas automáticas abriram-se imediatamente. Vários funcionários olharam discretamente para aquele homem. Outros apenas admiraram a sua postura. Cesur caminhava como se aquele lugar lhe pertencesse. Chegou à receção. A rececionista sorriu educadamente. — Bom dia, senhor. Posso ajudá-lo? — Quero falar com a senhora Hakan. Ela abriu imediatamente o computador. — Tem encontro marcado? — Não. Ela voltou a olhar para o ecrã. — Nesse caso preciso informar primeiro a senhora Alina. Cesur permaneceu completamente imóvel. — Não será necessário. Ela levantou novamente o olhar. — Desculpe? — Ela conhece-me. A rececionista sorriu sem graça. — Mesmo assim… …preciso saber o seu nome. Cesur olhou rapidamente para o crachá dela. Depois para o elevador. — Qual o número do escritório dela? A mulher arregalou os olhos. — Senhor… …essa informação não pode ser fornecida. Silêncio. Cesur sorriu apenas com o canto dos lábios. — Entendo. Virou-se. Começou simplesmente a caminhar até ao elevador. A rececionista ficou completamente perdida. — Senhor! Espere! Mas as portas fecharam-se. Ela levou imediatamente as mãos à cabeça. — Meu Deus… …esse homem vai fazer-me perder o emprego… ⸻ Dentro do elevador… Cesur retirou calmamente o telemóvel. Ligou apenas para uma pessoa. — Tintu. A chamada foi atendida quase imediatamente. — Senhor Demir. — Número do escritório da Alina. Do outro lado houve apenas dois segundos de silêncio. — Escritório 189. — Obrigado. Desligou. Guardou novamente o telemóvel. O elevador abriu-se. Sem hesitar… Começou a caminhar pelo enorme corredor. Até parar em frente à porta. 189. Olhou para o número. Sorriu discretamente. Levou lentamente a mão à maçaneta. Não bateu. Não pediu autorização. Apenas… …abriu a porta. A porta abriu-se lentamente. Alina Hakan levantou imediatamente o olhar. O susto foi inevitável. — Senhor Demir…? A chávena de café permaneceu suspensa na sua mão. Por um instante… Ela pensou que estivesse a imaginar. Mas não. Era realmente ele. Cesur permaneceu parado junto à porta. As mãos dentro dos bolsos. O olhar tranquilo. Como se entrar sem autorização fosse a coisa mais normal do mundo. Logo atrás surgiu a rececionista completamente ofegante. — Senhora Hakan… eu tentei impedi-lo… Alina respirou fundo. Sem desviar os olhos de Cesur respondeu calmamente: — Está tudo bem. Pode voltar ao seu trabalho. A mulher olhou para Cesur mais uma vez. Depois saiu. A porta voltou a fechar-se. Agora… Estavam completamente sozinhos. O silêncio dominou o escritório. Alina pousou lentamente a chávena sobre a mesa. — Senhor Demir… Posso saber o que faz aqui? Cesur não respondeu. Começou apenas a caminhar lentamente pelo escritório. Observava tudo. Os livros. Os quadros. Os diplomas. As flores. Como se estivesse a memorizar cada detalhe daquele lugar. Alina voltou a falar. — Estou a fazer-lhe uma pergunta. Ele parou. Virou-se calmamente. Os olhos azuis encontraram imediatamente os dela. — Vim ver-te. Silêncio. Ela ficou sem reação durante alguns segundos. — Veio… …ver-me? — Sim. — Sem marcar encontro? — Sim. — Sem bater à porta? — Sim. Ela soltou uma pequena gargalhada de incredulidade. — O senhor consegue ser extremamente irritante. Cesur sorriu discretamente. — Já ouvi isso algumas vezes. — Não me admira. Voltou o silêncio. Mas desta vez… Era diferente. Os dois permaneciam apenas a observar-se. Cesur aproximou-se lentamente. Um passo. Depois outro. Parou apenas quando a distância entre ambos se tornou mínima. Não lhe tocou. Nem sequer levantou a mão. Limitou-se a permanecer ali. O perfume suave de Alina misturava-se com o aroma do café acabado de fazer. Cesur fechou lentamente os olhos durante um segundo. Respirou discretamente. Depois voltou a abri-los. Um pequeno sorriso apareceu no canto dos seus lábios. — Hm… Ela permaneceu imóvel. — Gosto do teu perfume. Alina engoliu em seco. — Senhor Demir… Ele continuava completamente sereno. — É delicado. Elegante. Combina contigo. O coração dela acelerou sem pedir autorização. Não compreendia porquê. Aquele homem… Tinha uma forma estranha de falar. Como se cada palavra tivesse um segundo significado. Ela tentou recuperar o controlo. — O senhor veio apenas para dizer isso? Cesur inclinou ligeiramente a cabeça. — Não. — Então diga o que pretende. — Ainda não. — Como? — Primeiro gosto de observar. Depois… …faço perguntas. Ela franziu a testa. — O senhor é sempre assim misterioso? — Apenas quando vale a pena. Antes que Alina respondesse… A porta abriu-se bruscamente. — Que raio está a acontecer aqui? Osvaldo Merzim entrou sem pedir licença. O olhar caiu imediatamente sobre Cesur. Depois sobre Alina. O ambiente mudou completamente. Alina afastou-se um passo. Cesur permaneceu exatamente na mesma posição. As mãos nos bolsos. O rosto impassível. Como se aquela interrupção não tivesse qualquer importância. Osvaldo aproximou-se. — Senhor Demir… Não esperava encontrá-lo aqui. Cesur respondeu calmamente. — A vida gosta de surpresas. Osvaldo estendeu-lhe a mão. — Osvaldo Merzim. Cesur apertou-a. — Cesur Demir. O aperto foi firme. Demorado. Nenhum dos dois desviava o olhar. Era como se estivessem a medir forças sem trocar uma única palavra. Finalmente… Osvaldo soltou-lhe a mão. Deu um passo para o lado. Colocou discretamente a mão na cintura de Alina. Puxando-a para junto de si. Alina ficou imediatamente desconfortável. Cesur reparou. Mas limitou-se a observá-la. Foi então que Osvaldo sorriu. — Aproveito para esclarecer uma coisa. Alina é minha namorada. E muito em breve… Será minha noiva. A sala mergulhou novamente no silêncio. Osvaldo esperava encontrar alguma reação. Ciúmes. Irritação. Surpresa. Mas… Cesur apenas continuava a olhar para Alina. Ignorando completamente a provocação. Ela desviou imediatamente os olhos. Sem perceber… Acabara de responder mais com o silêncio do que com qualquer palavra. Só então Cesur voltou finalmente a olhar para Osvaldo. Um leve sorriso surgiu-lhe no rosto. — Fico feliz por vocês. Espero receber o convite. Osvaldo sorriu com arrogância. — Naturalmente. Será um prazer. Cesur fez apenas um pequeno aceno de cabeça. Depois voltou-se para Alina. — Foi um prazer vê-la novamente… …senhora Hakan. Ela respondeu quase automaticamente. — Igualmente… …senhor Demir. Cesur sorriu uma última vez. Virou-se. E saiu exatamente com a mesma calma com que tinha entrado. A porta fechou-se. O silêncio permaneceu dentro do escritório. Mas agora… Era um silêncio muito mais pesado.
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