Mansão Demir.
O silêncio reinava na enorme mansão.
Tudo permanecia organizado.
Impecável.
Apenas o som da água a cair quebrava aquela tranquilidade.
No luxuoso banheiro da suíte principal…
Cesur permanecia debaixo do chuveiro.
A água quente escorria lentamente pelo seu corpo.
A cabeça encontrava-se encostada à parede de mármore n***o.
Os olhos fechados.
Mas a mente…
Trabalhava sem descanso.
Uma única imagem ocupava completamente os seus pensamentos.
Alina Hakan.
O sorriso discreto.
Os olhos curiosos.
A forma como tentava esconder o desconforto sempre que ele se aproximava.
Um pequeno sorriso apareceu-lhe no rosto.
Quase impercetível.
— Chegou o teu tempo…
…querida Alina.
Abriu lentamente os olhos.
Desligou o chuveiro.
Pegou na toalha e amarrou-a à cintura.
Aproximou-se do enorme espelho.
O reflexo mostrava um homem completamente diferente daquele que o mundo conhecia.
Frio.
Controlado.
Calculista.
Os músculos bem definidos destacavam-se sob a pele ainda húmida.
Pegou no creme hidratante.
Passou lentamente pelo peito e pelos braços.
Depois abriu o roupeiro.
Escolheu uma camisa preta larga.
Calças pretas de corte italiano.
Ténis brancos.
Simples.
Elegante.
Pegou no perfume.
Uma única borrifadela.
O suficiente.
Olhou mais uma vez para o espelho.
— Hoje…
…vamos dar mais um passo.
Saiu do quarto.
⸻
Quando chegou à sala principal encontrou Mehola a preparar o café da amanha.
A mesa já estava completamente organizada.
Café.
Frutas.
Pão acabado de fazer.
Mehola sorriu.
— Bom dia, senhor.
Cesur limitou-se a fazer um pequeno aceno de cabeça.
Sentou-se.
Tomou apenas um gole de café.
Nem sequer tocou na comida.
Mehola observou-o durante alguns segundos.
Já conhecia aquele comportamento.
Quando Cesur pensava demasiado…
Perdia completamente o apetite.
— Vai sair?
Cesur pousou lentamente a chávena.
— Sim.
— Para a empresa?
Silêncio.
Depois respondeu apenas com duas palavras.
— Ver Alina.
Mehola sorriu discretamente.
— Imaginei.
Cesur levantou-se.
Pegou nas chaves do carro.
— Está bem, senhor.
Sem dizer mais nada…
Saiu.
⸻
LXL Company
O motor do carro desportivo ecoava pelas ruas de Istambul.
Cesur conduzia com a serenidade habitual.
Nem demasiado rápido.
Nem demasiado devagar.
Cada movimento parecia calculado.
Alguns minutos depois…
Parou em frente ao enorme edifício da LXL Company.
Desceu calmamente.
Levantou os olhos.
Observou a fachada.
Elegante.
Moderna.
Sorriu discretamente.
— Ainda…
…por pouco tempo.
Entrou.
As portas automáticas abriram-se imediatamente.
Vários funcionários olharam discretamente para aquele homem.
Outros apenas admiraram a sua postura.
Cesur caminhava como se aquele lugar lhe pertencesse.
Chegou à receção.
A rececionista sorriu educadamente.
— Bom dia, senhor.
Posso ajudá-lo?
— Quero falar com a senhora Hakan.
Ela abriu imediatamente o computador.
— Tem encontro marcado?
— Não.
Ela voltou a olhar para o ecrã.
— Nesse caso preciso informar primeiro a senhora Alina.
Cesur permaneceu completamente imóvel.
— Não será necessário.
Ela levantou novamente o olhar.
— Desculpe?
— Ela conhece-me.
A rececionista sorriu sem graça.
— Mesmo assim…
…preciso saber o seu nome.
Cesur olhou rapidamente para o crachá dela.
Depois para o elevador.
— Qual o número do escritório dela?
A mulher arregalou os olhos.
— Senhor…
…essa informação não pode ser fornecida.
Silêncio.
Cesur sorriu apenas com o canto dos lábios.
— Entendo.
Virou-se.
Começou simplesmente a caminhar até ao elevador.
A rececionista ficou completamente perdida.
— Senhor!
Espere!
Mas as portas fecharam-se.
Ela levou imediatamente as mãos à cabeça.
— Meu Deus…
…esse homem vai fazer-me perder o emprego…
⸻
Dentro do elevador…
Cesur retirou calmamente o telemóvel.
Ligou apenas para uma pessoa.
— Tintu.
A chamada foi atendida quase imediatamente.
— Senhor Demir.
— Número do escritório da Alina.
Do outro lado houve apenas dois segundos de silêncio.
— Escritório 189.
— Obrigado.
Desligou.
Guardou novamente o telemóvel.
O elevador abriu-se.
Sem hesitar…
Começou a caminhar pelo enorme corredor.
Até parar em frente à porta.
189.
Olhou para o número.
Sorriu discretamente.
Levou lentamente a mão à maçaneta.
Não bateu.
Não pediu autorização.
Apenas…
…abriu a porta.
A porta abriu-se lentamente.
Alina Hakan levantou imediatamente o olhar.
O susto foi inevitável.
— Senhor Demir…?
A chávena de café permaneceu suspensa na sua mão.
Por um instante…
Ela pensou que estivesse a imaginar.
Mas não.
Era realmente ele.
Cesur permaneceu parado junto à porta.
As mãos dentro dos bolsos.
O olhar tranquilo.
Como se entrar sem autorização fosse a coisa mais normal do mundo.
Logo atrás surgiu a rececionista completamente ofegante.
— Senhora Hakan… eu tentei impedi-lo…
Alina respirou fundo.
Sem desviar os olhos de Cesur respondeu calmamente:
— Está tudo bem.
Pode voltar ao seu trabalho.
A mulher olhou para Cesur mais uma vez.
Depois saiu.
A porta voltou a fechar-se.
Agora…
Estavam completamente sozinhos.
O silêncio dominou o escritório.
Alina pousou lentamente a chávena sobre a mesa.
— Senhor Demir…
Posso saber o que faz aqui?
Cesur não respondeu.
Começou apenas a caminhar lentamente pelo escritório.
Observava tudo.
Os livros.
Os quadros.
Os diplomas.
As flores.
Como se estivesse a memorizar cada detalhe daquele lugar.
Alina voltou a falar.
— Estou a fazer-lhe uma pergunta.
Ele parou.
Virou-se calmamente.
Os olhos azuis encontraram imediatamente os dela.
— Vim ver-te.
Silêncio.
Ela ficou sem reação durante alguns segundos.
— Veio…
…ver-me?
— Sim.
— Sem marcar encontro?
— Sim.
— Sem bater à porta?
— Sim.
Ela soltou uma pequena gargalhada de incredulidade.
— O senhor consegue ser extremamente irritante.
Cesur sorriu discretamente.
— Já ouvi isso algumas vezes.
— Não me admira.
Voltou o silêncio.
Mas desta vez…
Era diferente.
Os dois permaneciam apenas a observar-se.
Cesur aproximou-se lentamente.
Um passo.
Depois outro.
Parou apenas quando a distância entre ambos se tornou mínima.
Não lhe tocou.
Nem sequer levantou a mão.
Limitou-se a permanecer ali.
O perfume suave de Alina misturava-se com o aroma do café acabado de fazer.
Cesur fechou lentamente os olhos durante um segundo.
Respirou discretamente.
Depois voltou a abri-los.
Um pequeno sorriso apareceu no canto dos seus lábios.
— Hm…
Ela permaneceu imóvel.
— Gosto do teu perfume.
Alina engoliu em seco.
— Senhor Demir…
Ele continuava completamente sereno.
— É delicado.
Elegante.
Combina contigo.
O coração dela acelerou sem pedir autorização.
Não compreendia porquê.
Aquele homem…
Tinha uma forma estranha de falar.
Como se cada palavra tivesse um segundo significado.
Ela tentou recuperar o controlo.
— O senhor veio apenas para dizer isso?
Cesur inclinou ligeiramente a cabeça.
— Não.
— Então diga o que pretende.
— Ainda não.
— Como?
— Primeiro gosto de observar.
Depois…
…faço perguntas.
Ela franziu a testa.
— O senhor é sempre assim misterioso?
— Apenas quando vale a pena.
Antes que Alina respondesse…
A porta abriu-se bruscamente.
— Que raio está a acontecer aqui?
Osvaldo Merzim entrou sem pedir licença.
O olhar caiu imediatamente sobre Cesur.
Depois sobre Alina.
O ambiente mudou completamente.
Alina afastou-se um passo.
Cesur permaneceu exatamente na mesma posição.
As mãos nos bolsos.
O rosto impassível.
Como se aquela interrupção não tivesse qualquer importância.
Osvaldo aproximou-se.
— Senhor Demir…
Não esperava encontrá-lo aqui.
Cesur respondeu calmamente.
— A vida gosta de surpresas.
Osvaldo estendeu-lhe a mão.
— Osvaldo Merzim.
Cesur apertou-a.
— Cesur Demir.
O aperto foi firme.
Demorado.
Nenhum dos dois desviava o olhar.
Era como se estivessem a medir forças sem trocar uma única palavra.
Finalmente…
Osvaldo soltou-lhe a mão.
Deu um passo para o lado.
Colocou discretamente a mão na cintura de Alina.
Puxando-a para junto de si.
Alina ficou imediatamente desconfortável.
Cesur reparou.
Mas limitou-se a observá-la.
Foi então que Osvaldo sorriu.
— Aproveito para esclarecer uma coisa.
Alina é minha namorada.
E muito em breve…
Será minha noiva.
A sala mergulhou novamente no silêncio.
Osvaldo esperava encontrar alguma reação.
Ciúmes.
Irritação.
Surpresa.
Mas…
Cesur apenas continuava a olhar para Alina.
Ignorando completamente a provocação.
Ela desviou imediatamente os olhos.
Sem perceber…
Acabara de responder mais com o silêncio do que com qualquer palavra.
Só então Cesur voltou finalmente a olhar para Osvaldo.
Um leve sorriso surgiu-lhe no rosto.
— Fico feliz por vocês.
Espero receber o convite.
Osvaldo sorriu com arrogância.
— Naturalmente.
Será um prazer.
Cesur fez apenas um pequeno aceno de cabeça.
Depois voltou-se para Alina.
— Foi um prazer vê-la novamente…
…senhora Hakan.
Ela respondeu quase automaticamente.
— Igualmente…
…senhor Demir.
Cesur sorriu uma última vez.
Virou-se.
E saiu exatamente com a mesma calma com que tinha entrado.
A porta fechou-se.
O silêncio permaneceu dentro do escritório.
Mas agora…
Era um silêncio muito mais pesado.