CAP 14

1212 Words
Elisie Charpentier Eu realmente não tenho escolha alguma. É a primeira coisa que passa pela minha mente quando abro os olhos nessa manhã. A verdade chega como uma pedrada: eu ainda estava me agarrando à possibilidade absurda de Lucien Bellamy desistir da ideia insana de me tomar como esposa. No fundo, eu queria acreditar que tudo aconteceu porque ele agiu no calor do momento, tomado pela raiva quando matou Vivienne. Talvez, depois de esfriar a cabeça, ele fosse perceber o absurdo. Mas não. Ele não voltou atrás. O casamento vai acontecer e vai ser em sete dias. Sete dias para me preparar, sete dias para ceder ao capricho do líder da máfia francesa. E depois disso… eu estarei presa a ele para sempre. Sem rota de fuga. Sem alternativa. Eu já pensei em fugir várias vezes, mas é impossível. Há servos por toda parte, seguranças treinados, portas que não abrem sem autorização. Eu sequer posso andar pela mansão sem alguém me seguindo. Não pude nem pegar as minhas próprias coisas. Além de “noiva”, sou prisioneira. E não existe absolutamente ninguém que possa me ajudar. Sinto que, em pouco tempo, estarei como Vivienne está agora: morta. Porque Lucien não hesita, não teme nada, não se importa com nada além de controle, obediência e regras… tantas regras. Ele repete isso o tempo todo, como se quisesse me enterrar dentro daquela palavra. Regras. Passo horas no quarto sem fazer nada. O medo me paralisa. Tenho pavor de sair e ser castigada por tão pouco. Tenho medo do que Lucien faria comigo se eu o desagradasse, mesmo sem querer. Eu nunca senti medo assim de Henri, mesmo sabendo que ele era um canalhä. Mas Lucien é impossível de prever. Assusta com o olhar. Com o silêncio. Com a presença. Percebo que estou encolhida na cama quando alguém bate na porta. Eu não respondo, mas a empregada entra mesmo assim, carregando uma pilha de itens novos para o quarto: roupas, objetos pessoais, toalhas, perfumes. Tudo escolhido por outras mãos. — A senhorita vai ficar aqui apenas por alguns dias. — Diz ela enquanto arruma tudo com pressa. — Um dia antes do casamento, as suas coisas serão levadas ao quarto do senhor Bellamy. O meu coração dispara. — Ao… quarto dele? — Pergunto, como se eu pudesse ter entendido errado. — Sim. — Ela confirma como se fosse algo banal. — O senhor disse que vocês terão um quarto só. Ordem dele. Eu sinto o ar sumir. A ideia de dividir um quarto com Lucien já seria desesperadora, mas dormir ao lado dele? Ser observada? Ou pior…? Mordo os lábios, tentando conter o tremor. — Ele… está aqui? — Pergunto quase sussurrando. A empregada baixa o olhar. — Saiu com os irmãos. Ninguém sabe quando volta. De alguma forma, isso não traz alívio. Ela termina de organizar o quarto e sai, e o silêncio volta a me sufocar. Deito na cama sem saber o que fazer, as lágrimas silenciosas escorrendo pelo canto dos olhos. Choro baixinho, abafado. Choro pelo medo, pela impotência, pela certeza de que não tenho saída. E acabo adormecendo no meio do choro. { . . . } Acordo com um sobressalto. Por um instante, não sei onde estou. O quarto parece maior e mais frio do que antes. Ainda é dia, mas não faço ideia de quanto tempo dormi. Passo as mãos no rosto inchado e tento me sentar. É quando eu vejo. Lucien está no quarto. Sentado em uma poltrona, as pernas afastadas, cotovelos apoiados sobre os joelhos, as mãos entrelaçadas. Observando-me. Em silêncio. Como se estivesse ali há muito tempo. O pânico me atravessa com força. — O que… o que está f-fazendo aqui? — Gaguejo. Ele não responde. Apenas ergue o queixo, me encarando de cima a baixo. — Fique de pé! — Ordena. Eu piscaria se conseguisse. Mas estou paralisada. — O que…? — Não vou repetir... você ouviu! Engulo em seco, sentindo as minhas pernas fraquejarem enquanto me levanto. Fico ao lado da cama, encolhida, respirando rápido demais. Eu o olho com um medo absurdo que faz a minha carne tremer. — Tire o vestido. — Ele manda. O meu coração quase para. — Você enlouqueceu?! — Sussurro, horrorizada. Lucien se inclina para frente, a voz baixa e cortante. — Se você não tirar, eu tiro e não vai ser gentil. Tire o vestido, Elisie. Uma lágrima escapa dos meus olhos. Quente, amarga. Sinto o rosto queimar e arder de um jeito insano. As minhas mãos tremem quando começo a desfazer os botões, um a um. Ele olha cada movimento meu. O tecido cai pesado no chão. Estou de lingerie, mas exposta na frente dele. Estou vulnerável como nunca estive e diante de um homem que não sei nada. Eu aperto as mãos juntas, tentando cobrir alguma coisa, mas não adianta. — Vire de costas. — Outra ordem dele. Eu tremo dos pés à cabeça. — Por favor… — Minha voz falha. — Não faça isso. Eu não vou… não vou suportar… Silêncio. Silêncio que dói e que diz que ele não vai recuar. Sinto as lágrimas correrem pelo meu rosto enquanto me viro devagar, o rosto ardendo de vergonha e medo. O que ele vai fazer comigo aqui? — O que são essas marcas? O meu corpo inteiro enrijece. Eu sabia que isso viria. Sabia que alguém notaria, só não pensei que isso seria por essa causa. Mas ouvir a pergunta dele… dói em um lugar que eu não sabia que ainda existia. — Quem fez isso com você? — Ele repete. Eu sinto o nó na garganta ficar maior, sufocante. — Minha mãe... — Respondo, com a voz quebrada. — Ela era… bipolar. Surta­va de formas que ninguém conseguia controlar. E o meu pai incentivava. Ele… dizia que eu precisava aprender a obedecer e ele me culpava por tudo. — Engulo o choro. — Foram anos assim. Anos. Lembrar de tudo é uma dor imensa. — Henri já fez isso? — Não. — Respondo imediatamente. — Ele nunca encostou um dedo em mim dessa forma. Um silêncio denso toma o quarto. — Pode se vestir. — Ele diz enfim. Eu me abaixo depressa, pego o vestido e o seguro contra o corpo, como um escudo improvisado. As minhas mãos ainda tremem. Lucien se levanta. — Pelo que conheço de cicatrizes... — Ele diz, analisando-me de forma impessoal — Essas nunca vão sumir. Agora entendo por que você se cobre tanto. — É um dos motivos. — Sussurro. Ele não pergunta qual é o outro e sou grata por isso. E nisso, torço para que isso seja um motivo de ele cancelar essa loucura. Ele vai até a porta, abre, mas antes de sair, me olha. — Amanhã de manhã trarão vestidos. As provas serão aqui mesmo. Ele não vai desistir. — Estou coordenando as vendas de tudo que era de Henri. As propriedades, as contas, os negócios. Nada será transferido para o meu nome até depois do casamento. — Ele olha sobre o ombro. — Considere isso… minha garantia. E então, ele sai. A porta se fecha. E eu fico aqui, tremendo, abraçada ao vestido, com uma única certeza: Lucien Bellamy é um homem louco. E eu estou presa nas mãos dele.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD