CAP 13

1100 Words
Lucien Bellamy O anúncio sai da minha boca como algo cotidiano. — O casamento será em uma semana. Não olho para ela. Não preciso. A simples informação já é suficiente para deixá-la fora do eixo, e logo o som dos passos rápidos ecoa pelo chão de mármore enquanto ela desaparece pelo corredor. Silêncio. A porta da sala de jantar ainda está balançando levemente quando finalmente me sirvo de pão, ovos, café e queijo. A minha fome está absurda depois do treino, e eu pretendo comer em paz. Louis e Vincent se sentam em seguida. Meus irmãos nunca foram de fazer cerimônias. Chegam, se servem e ocupam espaço como se a mesa fosse extensão natural deles. O silêncio dura um tempo, mas não o suficiente. — Ela saiu daqui com um ódio imenso depois dessa notícia. — Louis comenta. Dou de ombros, montando o meu prato. — Não me importo. Vincent solta uma risada baixa, mas não é divertida; é cética. — Ainda acho que isso é uma grande loucura, Lucien. Pode dar muito errado. Mastigo devagar. Engulo. Limpo a boca com o guardanapo. — Não estou com paciência para sermões ou suposições agora. Só quero um desjejum em paz. É pedir demais? Eles se entreolham. Louis suspira, Vincent ergue as mãos em rendição. — Certo. — Louis diz. — Paz. Por alguns instantes, finalmente tenho o silêncio que pedi. Enquanto como, a minha mente continua trabalhando. Nunca para. Não posso me dar esse luxo. Tudo é questão de adaptação. Elisie vai se acostumar. Todos se acostumam. Alguns mais rápido, outros menos. Mas todos acabam entendendo o que significa viver sob as minhas regras. E, no fundo, admito para mim mesmo que nada disso é um mar de rosas. Nem para ela. Nem para mim. Se eu deixar o conselho interferir novamente, vou acabar com outro desastre como Vivienne. E eu não sou paciente o suficiente para tolerar candidatas aleatórias escolhidas por velhos que acham que entendem a minha vida melhor do que eu. Esta solução… é prática. E por mais absurdo que pareça, Elisie deveria estar agradecida. Sem mim, ela seria jogada para outro viúvo qualquer, sem voz, sem escolha, sem proteção. E pior: poderia acabar casada com alguém que não lhe daria absolutamente nada: nem segurança, nem conforto, nem respeito mínimo. Muito menos a herança. Comigo, ela terá tudo isso. O resto depende dela. Se seguir as regras, viverá bem. Se não seguir… Simples. Termino de comer devagar, aproveitando cada porção como quem preenche o corpo antes de preencher o dia de obrigações. O treino de hoje foi pesado, e a minha fome ainda mais. Depois que nos levantamos, caminhamos juntos até o escritório. — Vou pegar uns papéis no quarto. Não demoro. — Aviso a eles. Esqueci disso. Eles seguem, discutindo algo sobre negócios. Eu subo as escadas. O segundo andar está quieto, amplo e iluminado pela luz da manhã. Ando sem pressa, mas com propósito. A minha intenção era apenas pegar os documentos, mas algo me faz mudar de direção. Elisie. Chego à porta do quarto onde ela passou a noite. Não bato. Apenas giro a maçaneta e entro. Ela está sentada na ponta da cama, com as mãos no colo. O vestido longo cobre cada centímetro dela. Quando me vê, ergue o olhar e lá está a raiva sobre a qual Louis falou. Sim. Ele tinha razão. Ela me odeia. Mas isso não muda nada. Fecho a porta atrás de mim. — Já falou com a Cordélia? — Pergunto. Ela balança a cabeça. — Não! — Fale com ela. Ela sabe como preparar tudo. Hoje reunirei o conselho para esclarecer a situação e anunciar o nosso casamento. Ela se levanta, finalmente demonstrando alguma reação além de submissão silenciosa. — Isso é loucura. Dou um passo à frente. Ela não recua. — Você pode achar o que quiser. — Respondo. — Ainda assim, estou fazendo um favor a você. Ela ri sem humor, debochada e amarga. — Eu não acredito em nada disso. — Acredite ou não. — Digo — O que Henri deixou de herança será seu. Eu não vou tocar em um centavo. E você sabe tão bem quanto eu que outro homem jamais faria o mesmo. Ela fica muda. Golpe certeiro. Ela sabe a verdade. Ela viveu ao lado de Henri. Sabe exatamente do que os homens da nossa sociedade são capazes. Dou outro passo, diminuindo a distância entre nós, até ficarmos a poucos centímetros. — Recomponha-se. Prepare tudo para o casamento. Você terá conforto e segurança comigo. E se seguir as regras… não terá nada a temer. Ela ergue o queixo, teimosa. — Eu não confio em você. Sorrio, de leve. Um sorriso seco, curto, real. — Eu não ligo para isso. Aproximo o meu rosto do dela. Ela prende a respiração. — Só quero que siga as regras. Minhas regras! — Murmuro. — Só isso. Dou meia-volta e caminho até a porta. Mas, paro bem aqui. — Comece os preparativos ainda hoje. Fecho a porta atrás de mim. No corredor, sigo em direção à escada. A minha mente já está em outro ponto da lista de afazeres quando vejo Cordélia subindo. Ela para ao me ver e imediatamente baixa a cabeça. — Senhor… posso falar com o senhor por um momento? — Fale. Ela respira fundo, como se estivesse lutando com as próprias palavras. — Eu… achei que deveria contar algo. Fico imóvel. Espero. — Hoje cedo, quando levei algumas roupas para o quarto… a porta estava entreaberta enquanto a senhora Elisie se trocava. Eu… não queria olhar, mas acabei vendo. Meu maxilar trava. — Vendo o quê exatamente? Ela hesita por um segundo. — Marcas. No corpo dela. Não são recentes, mas… são cicatrizes. Fico confuso com isso. — Que tipo de cicatrizes? — Machucados, senhor. Nas costas… na lombar… e até um pouco perto da nuca. Parecem antigas, mas profundas. Eu nunca vi algo daquele tamanho em uma mulher da nossa sociedade. São marcas de... surrar. Algo assim. Ela abafa um suspiro e olha ao redor. — Parecia… parecia que foram provocados por alguém. Repetidamente. Pisco. Uma vez. Depois outra. Algo dentro de mim se move, algo que não admito nem para mim mesmo. Henri. O nome aparece como um veneno sobre a língua. Ele era mesmo capaz de algo assim? Não vi nada disso nos registros que a minha informante empregada passou. — Achei que o senhor deveria saber. Ela baixa a cabeça novamente e se cala. Fico parado aqui, pensando em tudo. Tentando ligar pontos. Tenho certeza de que não tinha nada sobre isso, mas eu vou descobrir.
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