Elisie Charpentier
Eu não dormi.
A noite inteira, eu simplesmente não dormi.
O meu corpo ficou parado, imóvel na cama que não conheço, num quarto que não me pertence, mas a minha mente… ela correu sem parar. Correu como se cada pensamento tivesse uma faca apontada para a minha garganta.
O jantar.
O sangue.
A morte de Henri.
A morte de Vivienne.
As expressões vazias.
O cheiro metálico impregnando tudo.
O olhar de Lucien.
Só de pensar nisso, o meu estômago revira outra vez. Uma noite só, e sinto como se tivesse envelhecido anos.
Eu queria dormir, queria esquecer tudo por algumas horas, mas não consigo parar de ver a cena repetindo dentro da minha cabeça. E, quando a madrugada engolia qualquer esperança, fiquei com a empregada que me ajudou ontem. Ficamos revisando os meus pertences que começaram a chegar agora de manhã.
Roupas.
Sapatos.
Joias que eu nunca quis usar.
Itens pessoais que eu deveria achar reconfortantes.
Mas nada disso aliviou a sensação de que estou num lugar onde não deveria estar. De que fiz uma escolha terrível, impulsiva, movida por dor, raiva, desespero.
E agora estou pagando.
Cordélia e outras empregadas começaram a organizar o closet inteiro só para mim, como se isso fosse… normal. Como se eu devesse me sentir acolhida, agradecida. Mas meus olhos estão ardendo, minha cabeça dói, e dentro de mim só existe silêncio e medo.
Tento respirar fundo, mas tudo parece perdido pra mim.
Eu preciso de um banho. Preciso de água, de alguma sensação que pareça humana.
Entro no banheiro e finalmente fico sozinha. Fecho a porta e me apoio nela. Deixo o ar escapar com força, como se estivesse enfim soltando um peso preso no peito. O banho é quente, escorrendo pelo meu rosto, e pela primeira vez desde ontem, eu fecho os olhos… e me pergunto:
Eu fiz a coisa certa?
Expor Henri daquele jeito? Entregar as provas diante de todos? Fazer aquilo na mesa do chefe da máfia?
Eu queria justiça.
Queria verdade.
Queria… liberdade.
Mas agora estou presa. Completamente presa com o homem mais perigoso do país.
E a pergunta se repete: valeu a pena?
O arrependimento começa a se instalar como um parasita. Ele se agarra a mim e não solta.
Depois do banho, ainda zonza de tanto pensar, visto um dos meus vestidos longos. Mangas compridas, tecido pesado, tudo cobrindo cada centímetro possível do meu corpo.
Sempre usei coisas assim por causa de Henri, que odiava quando eu chamava atenção, e agora faço isso pelo mesmo motivo.
Não quero a atenção daquele homem!
Eu não quero que Lucien olhe para mim. Não quero que ele veja nada. Nada!
Eu ajeito o tecido, amarro o cabelo e tento ao menos parecer inteira.
Cordélia me espera do lado de fora do quarto e seguimos pelo corredor para que eu tome café. Pelo caminho, meus olhos capturam detalhes da mansão.
É enorme.
Enorme de um jeito intimidante.
Tem luxo, claro, tudo caro, tudo brilhante, tudo impecável, mas há também um ar pesado, antigo, quase sagrado. É um lugar que parece contar histórias de sangue, de vinganças, de tradições que engolem pessoas. O típico lugar que pertenceu a alguém da família por anos.
— A casa é linda… — Murmuro, só para não ficar em silêncio absoluto.
— Sim, senhora. — Cordélia responde, receosa.
Continuamos andando. No caminho, ela passa a responsabilidade de eu ser levada à sala de jantar para outra empregada. A mesma de ontem que me deu o chá. E com a coragem que me restou dessa noite miserável, resolvo perguntar o que ninguém quer dizer.
— Como Lucien é?
A coitada empalidece e me olha num susto.
— E-eu… não sei se devo. — Ela olha ao redor.
— Quero saber o básico. — A interrompo e tento manter a calma. — Só o suficiente para eu não provocar a fúria dele. Não quero cometer erros.
Com isso, aos poucos, eu posso conseguir mais com o tempo.
Ela engole em seco e olha para os lados sem parar.
— Ele é… complicado. — Ela sussurra. — As ordens dele nunca podem ser questionadas.
Ele não aceita ser enfrentado. É impaciente. Muito impaciente. — Ela frisa bem isso. — Controlador… exigente… discreto. Ele manda em tudo e... é como um chefe da máfia. Eu não sei mais como explicar.
Ela respira fundo, claramente arrependida de cada palavra.
— No seu caso, senhora… eu realmente não sei como ajudar. Não sei como ele vai lidar com tudo isso.
E antes que eu possa perguntar mais alguma coisa, ela praticamente foge, acelerando o passo.
Fico parada por dois segundos, perdida.
Ótimo.
Perfeito.
Mais pânico para somar ao meu.
Quando enfim entro na sala de jantar, as minhas pernas enfraquecem. As lembranças da mortë de ontem surgem como um tapa.
A mesa. É tão vivo na minha mente como se eu estivesse vendo agora.
O lugar onde Henri caiu.
Onde Vivienne caiu.
Mas nada denuncia isso. Nada. Tudo está limpo demais. Organizado demais. Há cheiro de limpeza suave no ar. Como se nada tivesse acontecido.
Sento longe da cadeira principal, a mais distante possível, e a comida começa a chegar. Pães, frutas, ovos, chá, tudo colocado diante de mim com cuidado. Eu como devagar, sozinha. Sozinha e tensa, cada músculo rígido.
E tudo que eu quero é que Lucien esteja a quilômetros daqui.
Mas, claro, isso não acontece.
Minutos depois, ouço passos. Vozes masculinas. Risos baixos.
Eu congelo.
A comida quase entala quando tento engolir o último pedaço. Empurro o prato para longe e me levanto. Mas, não dá tempo.
Lucien aparecem e com dois homens que se parecem com ele, mas mais jovens. Meus olhos encontram os dele por um segundo e o meu corpo inteiro ameaça desistir.
A minha respiração some.
Ele me olha como se avaliasse cada detalhe. Seus irmãos também.
Sinto vontade de recuar, mas minhas pernas já estão coladas ao chão.
Lucien dá um passo à frente.
— Você pode terminar de comer! — Ele diz, com a voz calma demais.
— Eu já acabei. — Respondo, quase num sopro.
Ele se senta, ignorando meu esforço para desaparecer, e um dos homens sorri para mim com educação.
— Eu sou Louis. — Ele diz. — Irmão do Lucien. Este é Vincent... o mais novo.
Os dois parecem… normais. Mas eu não confio em ninguém aqui.
Faço um aceno rápido e só quero sair.
— Licença…
Viro para ir embora, mas a voz dele corta o ar.
— Elise.
Paro.
O meu nome na voz dele parece uma sentença.
Ele nem me olha. Continua mexendo no guardanapo, como se estivesse anunciando algo banal.
— Prepare-se. O casamento será em uma semana.
Eu congelo.
Uma semana?
Os meus lábios abrem antes que eu consiga controlar, mas ele abre a boca antes.
— Não vou mudar o prazo. Converse com Cordélia sobre os preparativos. Agilizem que eu não quero falhas!
Ele não olha para mim.
Não demonstra nada.
Nada.
Mas eu sinto algo quente subindo pela minha garganta. Não é medo desta vez. É raiva.
Raiva pura.
Quente.
Forte.
E Louis e Vincent veem isso. Eles veem o ódio que eu tento esconder. Pisco, tentando controlar a respiração, e viro sem dizer nada.
Saio da sala com passos firmes, quase duros demais.
Quase violentos.
A vontade é de gritar.
De quebrar alguma coisa.
De arrancar as cortinas, virar a mesa, destruir tudo que pertence a ele.
O meu limite realmente está no fim e eu não sei o que fazer.