CAP 11

1157 Words
Lucien Bellamy O dia nem sequer esquentou e eu já estou acordado. Não existe manhã possível para mim sem isso aqui: a minha sala de treinos. Assim que abro os olhos, a minha rotina acontece de forma automática: levantar, escovar os dentes, vestir a roupa de treino e caminhar até essa ala inteira construída exclusivamente para mim. Um corredor só leva a esse lugar e ninguém além de mim entra aqui sem permissão. Nem segurança. Nem criado algum. Às vezes, apenas os meus irmãos. A porta se fecha atrás de mim e o isolamento acústico engole qualquer ruído da mansão. É o único espaço onde posso existir sem interferências. Essa sala tem tudo o que eu preciso para funcionar: aparelhos de musculação, cárdio, esteiras, pesos livres, manequins de luta, armas, alvos móveis, módulos de simulação… Tudo calibrado para acompanhar o ritmo do meu corpo e da minha mente. Passar um único dia sem colocar os pés aqui é simplesmente impensável. O meu dia só começa depois que eu queimo cada gota de energia acumulada. Só depois que eu libero aquilo que poderia se transformar em impulsos perigosos. E hoje, eu tenho energia demais para gastar. Bato com força contra o equipamento de impacto, os meus punhos encaixando com precisão. Cada soco que dou é como descarregar uma lembrança ou uma ameaça futura. Imagino confrontos, ataques possíveis, reações. Vejo rostos, vejo intenções. A minha respiração pesa, e o som abafado dos golpes ecoa contra as paredes revestidas. Eu só paro quando ouço a porta se abrindo. Não deveria ouvir nada aqui dentro, o isolamento impede até o barulho da chuva ou o que seja lá fora. O fato de a minha audição captar o clique significa que alguém desativou a trava de segurança. E só duas pessoas têm autoridade para isso. Me viro ligeiramente, ainda golpeando, quando Louis entra primeiro. Vincent aparece logo atrás. Louis já chega andando com as mãos nos bolsos. — Então? O que diabos aconteceu ontem? — Aposto que o Lucien fez merdä. E das grandes. — Vincent complementa com uma provocação previsível Reviro internamente a paciência. Dou mais um golpe final no equipamento, depois, eu seco o suor com a toalha que deixei no banco e solto as luvas, deixando que caiam no chão. Eles ficam ali, parados, com expressão de quem exige respostas. Dou de ombros. — Eu matei a Vivienne. Ambos piscam. Louis abre a boca, Vincent ergue as sobrancelhas. — Como é que é? Eu achei que era brincadeira... — Louis comenta. — Achei que... — Ele nem sabe o que dizer. — Ela estava me traindo com o Henri Dumas. — Respondo simplesmente, pegando a minha garrafa de água. Bebo longos goles enquanto observo a reação deles. — Fiz o que precisava ser feito. Vincent solta um assobio baixo, impressionado. Louis passa a mão no rosto, atordoado. — Certo… e agora? Com quem você vai se casar? — Ele questiona, pragmático como sempre. Fecho a garrafa, sem demonstrar nada de especial. — Com a viúva de Henri. O nome dela é Elisie. Silêncio. Vincent quase engasga com o próprio fôlego. — Espera. O quê? — Ele me encara. — Você bateu a cabeça em algum equipamento? Desde quando isso faz sentido? — É estratégico! — Respondo. Louis cruza os braços. — De que forma isso pode ser estratégia? — Simples. — Pego outro pano para tirar o suor do pescoço. — Eu não tenho paciência para ficar disponível por muito tempo. O conselho iria começar aquela busca irritante por pretendentes, alianças, acordos. Não tenho tempo nem disposição para isso. — Dou de ombros. — Então escolhi eu mesmo. Elise é uma mulher obediente. Conhece as regras. É filha da máfia, preparada para a vida que leva. Não causa problemas. Além disso, diferente da Vivienne, ela jamais traiu Henri. Vincent aperta os lábios, pensando, o que para ele já significa progresso. Louis respira fundo. — Ainda assim… pode ser um erro colossal. Dou de ombros. — Se for, eu dou a ela o mesmo fim da Vivienne. É simples. Vincent ri. — Isso vai dar um trabalho dos diabos com o conselho. Você matou a filha de um deles, pensou nisso? E agora vai se casar com a viúva do cara que te traiu? Lucien… você só piora as próprias guerras. — Não me importo! — Sento no banco, começo a tirar o tênis. — Eles não escolhem a minha esposa. Na última vez que fizeram isso com o nosso pai, o resultado foi… frustrante. Mais um ponto para minha sinceridade. Louis suspira, mas seu olhar suaviza um pouco. — Você tem o meu apoio. Mas espero de verdade que você saiba onde está pisando. Vincent estala os dedos e me encara. — Pelo menos essa tal de Elise é bonita? — Pergunta, com o humor debochado de sempre. Reviro os olhos e levanto, ignorando a pergunta completamente. Saio andando pelo corredor e eles me acompanham, porque meus irmãos são como sombras: quando surgem, demoram para desgrudar. Já sei que vão passar o dia aqui e vão querer ver a Elisie. O movimento da casa já começou. Empregadas caminham apressadas, carregando caixas, malas, objetos diversos. Reconheço o motivo imediatamente: os pertences dela estão chegando. Não olho para nada além do que importa. Mas registro mentalmente: quero tudo organizado, adequado, como eu gosto. Meu espaço. Minhas regras. Minha ordem. — Quando vai ser esse casamento, afinal? — Louis questiona. Paro no meio do corredor e viro o rosto devagar, como se a resposta fosse óbvia. — Daqui a uma semana. No máximo. — Eles congelam. Louis solta um riso desacreditado. Vincent arregala os olhos como se eu tivesse anunciado o fim do mundo. — Lucien… isso é um absurdo. — Vincent protesta. — Você m*l tirou o corpo da Vivienne da casa! — Ela foi queimada ontem à noite! — Respondo, direto, frio. — E eu não tenho intenção de perder tempo. Quanto antes resolver essa parte, antes posso concentrar a minha energia no conselho… e no que eles vão tentar fazer para retaliar. Louis me encara por alguns segundos. Ele sabe. Ele sempre sabe quando estou me preparando para algo. Vincent esfrega a nuca. — Então vamos ter uma semana infernal. — Vocês vão! — Digo, caminhando novamente. — Eu, não. Eu já estou acostumado. Quando atravesso o grande hall, vejo mais pessoas da equipe movimentando as coisas dela. Elise já está sendo tratada como uma prisioneira de luxo. E é isso que ela será até aprender a ser esposa. Não sinto nada com a ideia. É uma união estratégica. Apenas isso! — E ela já sabe? Quer dizer, sabe desse prazo? — Ainda não. — Respondo. — Mas vai saber em breve. Respiro fundo, sentindo o sangue pulsar com aquela energia típica de um dia que promete complicações. Meus irmãos me observam como se eu estivesse prestes a incendiar Paris inteira. Talvez eu esteja. Mas tudo no seu tempo.
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