CAP 23

1059 Words
Elisie Bellamy As felicitações começam assim que a cerimônia termina. Eu m*l tenho tempo de respirar antes de ser colocada ao lado de Lucien, como uma peça a ser exibida. Sorrisos, cumprimentos, mãos que se estendem… e nada, absolutamente nada, me atinge de verdade. Estou aqui, sorrindo, acenando, mas por dentro estou rígida. Assustada. Perdida. A maioria dos convidados é homem. Eles cumprimentam Lucien com reverência, respeito, bajulação. Como se ele fosse um rei. Para mim, sobram acenos rápidos, olhares curiosos, calculistas, ou comentários vazios. “Parabéns, senhora Bellamy.” “Que honra.” “Ele fez uma boa escolha.” Ouço tudo como se fosse por trás de um vidro. Não consigo reagir muito além de um sorriso educado. O meu rosto já dói. Lucien recebe tudo com a mesma postura de sempre: ereto, sério, o olhar frio e incisivo. Uma estátua de controle absoluto. Eu me pergunto se ele nota que minhas mãos tremem no buquê. As bebidas começam a ser servidas e posso ver a festa tomando forma. Músicos se organizam mais ao fundo, garçons circulam, e a luz amarela refletida nos cristais parece deixar tudo mais sufocante. Os irmãos dele já estão dispersos, conversando com outros homens importantes. Louis ri alto de alguma piada. Vincent debate algo sério com outro líder. Cordélia bebe calmamente uma taça de espumante como se estivesse em uma tarde de descanso. E tudo o que eu desejo é sair por alguns minutos desse salão fechado, desse mar de olhos, dessa atmosfera cheia de expectativas que não foram feitas por mim, mas sobre mim. Estou prestes a dar um passo para trás quando escuto algo. — E a lua de mel? — Pergunta um dos homens, sorrindo como se fosse um velho amigo de Lucien. Lucien nem hesita. — Não tenho tempo pra isso. Será feito depois. Eu congelo. Não pela falta da lua de mel, na verdade, seria um alívio, mas pelo tom dele. Pela forma como ele fala. Como se eu fosse um fardo. Como se não fosse nada. Como se esse casamento não passasse de uma burocracia para ele e ele faz questão de mostrar indiferença para comigo. Sendo que foi ele quem fez questão disso. Ele quem arquitetou tudo. Ele quem decidiu cada detalhe. Ele quem assinou a minha sentença de estar aqui. Engulo seco. Sinto o estômago revirar. A vergonha já vem forte. Eu não consigo fingir mais. Não consigo sorrir, nem parecer simpática. Ele me expôs, me colocou ao lado dele, me trata com uma frieza impiedosa… e espera que eu encare isso como o quê? Honra? Satisfação? Gratidão? A pergunta surge de forma automática: Será que com Vivienne ele foi assim? O casamento dele com ela… eu lembro que existiu. Lembro da cerimônia, mas não lembro de detalhes. Eu tinha outras preocupações naquela época. Eu era outra pessoa. Mas isso não diminui a vergonha que arde na minha pele agora. A intimidação. A inquietação constante no peito. E se esse é o começo… como será o resto? Sigo parada aqui, acenando de vez em quando, respondendo a algo quando preciso. Mas por dentro, estou dissolvendo. Ser esposa do chefe da máfia… é muito pior do que eu imaginei. Não há brilho. Não há admiração. Só exposição. Só peso. E, começando por ele, eu sou vista como… nada. Em algum momento, Lucien se volta para mim. — Volto já. Fique aqui! Eu apenas aceno. Ele sai. E eu finalmente respiro, como se pudesse tirar o peso dos ombros, mesmo que por alguns segundos. Pego um copo de suco. O líquido frio alivia a minha garganta seca. Eu inspiro fundo, tentando me acalmar, convencer o meu cérebro de que posso sobreviver a mais alguns minutos. Cordélia surge do meu lado tão discretamente que quase me assusto. Ela ajeita o meu véu, como se fosse apenas um gesto atencioso, mas vejo outra coisa. — Mostre-se mais amigável. Mais sociável... é observada, senhora Bellamy! — Ela sussurra discretamente. Eu rio sem humor. — Impossível, quando meu marido me diminui na frente de todos. Cordélia suspira, sem paciência. — Isso faz parte, senhora Bellamy. Depois você vai entender. Eu a encaro, irritada. — Não tem como entender isso. Ela respira fundo, como alguém que explica algo óbvio. — Ser esposa de um homem qualquer, como você foi de Henri, é totalmente diferente de ser esposa do chefe da máfia. O senhor Bellamy tem os seus motivos, suas precauções. Ele nunca faz nada sem motivo. E, com certeza, o que ele está fazendo… não é sobre você. Isso me deixa mais confusa do que antes. — O que isso quer dizer? — Faça um esforço. Todos estão olhando. Eles precisam ver que isso é firme. Que o casamento é real. Senão... podem criar boatos. Eu não tenho vontade nenhuma… mas olho ao redor. Ele está lá, do outro lado do salão, conversando com os irmãos. Bebendo calmamente. E ainda assim… me observando. Quase o tempo inteiro. Decido tentar. Cordélia inventa tópicos, me conduz pelo salão, me apresenta a outras mulheres. Eu como alguma coisa, falo superficialmente, tento parecer mais leve, mas minha mente lateja: hoje o casamento será consumado. E cada vez que Lucien observa, parece que ele está decidindo quando isso vai acontecer. A música sobe um pouco. Conversas aumentam. Eu tento controlar a respiração. Mas a cada minuto, me sinto mais observada: seja por membros da organização, seja por Lucien. Mas é predominantemente por Lucien. Quase como se ele estivesse me avaliando. Medindo. Esperando. — Preciso retocar o batom. Com licença, senhoras! — Falo e me viro. Vou andando pelo local e passo por algumas pessoas. Descubro o banheiro no terceiro corredor leste. Entro rápido, evitando olhar para os espelhos, mas inevitavelmente acabo encarando o meu reflexo. Estou pálida. Assustada. Com os olhos alertas demais. Parece que vou desmaiar a qualquer momento. Lavo as mãos. A água gelada me ajuda a manter o foco. Ergo o rosto, tentando me recompor, mas meu peito aperta quando percebo que as minhas mãos ainda tremem. Inspiro devagar. Eu preciso ser forte. Preciso… sobreviver. O som da porta abrindo me faz virar imediatamente. — Cordélia? — Pergunto, mas minha voz sai mais baixa do que eu gostaria. Não é Cordélia. E o meu coração dispara, uma onda súbita de inquietação subindo pela minha coluna. Eu prendo a respiração aqui e me viro...
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