CAP 22

1021 Words
Elisie Charpentier Eu me posiciono na entrada, exatamente onde Cordélia me deixa, e sinto o chão fugir um pouco dos meus pés. Respiro fundo, tentando manter os pulmões funcionando, mas quanto mais tento, mais parece que o ar pesa dentro de mim. Hoje eu me torno uma Bellamy. Hoje eu me torno esposa do homem mais temido da França. Hoje… posso muito bem estar andando direto para a minha própria morte. As minhas pernas tremem tanto que eu temo tropeçar antes mesmo de dar o primeiro passo. Os meus dedos estão gelados, trêmulos, quase incapazes de segurar o buquê corretamente. E a pior parte é a sensação crescente de que, se algo der errado, se qualquer gesto for interpretado como afronta, eu posso ser eliminada bem ali, diante de todos. Como um espetáculo. Mas eu não tenho tempo para esse tipo de pensamento. As portas se abrem. Largas, pesadas, e o som ecoa pelo salão em um estrondo que parece anunciar a minha sentença. Dezenas de pares de olhos se voltam para mim. Homens. Líderes. Membros influentes da organização. Mulheres que provavelmente são esposas ou parentes. E outras pessoas que eu nunca vi. Todos me observam como se eu fosse uma peça rara exposta pela primeira vez. Mas eu só vejo um olhar. O dele. Lucien. Ele não move um músculo. Não esboça surpresa. Não parece impressionado ou emocionado. Ele apenas me observa, imóvel, como se estivesse avaliando um quadro recém-adquirido. Um objeto. Um símbolo. Eu solto o ar pela boca e começo a andar até ele. Passos lentos. Firmes, mesmo que as minhas pernas estejam feitas de vidro. Cautelosos, porque o vestido é longo e eu sinto medo de pisar na barra. E tímidos… porque não existe confiança alguma em mim para sustentar esse momento. — Vai ficar tudo bem. — Eu sussurro para mim mesma. — Vai acabar logo! Evito olhar para as pessoas nos bancos. Não quero ver julgamento. Não quero ver desprezo. Não quero ver compaixão. Tudo isso me faria desabar. Tento manter no rosto uma expressão… algo minimamente amigável. Não sei se funciona. Sinto que tudo em mim grita medo. Quando finalmente chego ao altar, Lucien dá um passo à frente. Ele estende a mão para mim. Eu coloco a minha na dele, porque não tenho outra escolha e, porque recusar seria o suficiente para morrer antes mesmo de dizer “sim”. Ele me olha de cima abaixo, sem pressa. Primeiro o meu rosto, depois o véu, o vestido inteiro… — Você escolheu bem. — É isso que ele diz. Só isso. Ele não diz que estou bonita. Não diz que pareço uma noiva. Não diz nada que se aproxime de delicadeza. Apenas… escolheu bem. Engulo em seco, querendo desaparecer. A cerimônia começa. O homem do conselho, um dos mais velhos, fala alto, com projeção, carregando no tom toda a tradição da máfia. E cada frase dele parece um peso colocado sobre os meus ombros. Ele fala sobre a honra de ser esposa de um líder. Sobre a responsabilidade de sustentar o nome Bellamy. Sobre dever, respeito, submissão. Sobre a importância de ser leal ao chefe da organização. Sobre a obrigação de manter a ordem, a casa, a imagem. Sobre dar continuidade ao legado. É tudo sobre mim. Sobre o que eu devo fazer. Sobre como eu devo servir. Sobre o quanto eu devo obedecer. Nada sobre Lucien. Nada sobre reciprocidade. Nada sobre proteção ou parceria, respeito, lealdade. Nada! Somente dever. Somente peso. Sinto à vontade de chorar subir como uma onda forte, mas eu a empurro para baixo. Engulo tudo e fico aqui, quieta, calada. Porque não tenho outra opção. Chega a hora dos votos. Tradicional. Engessado. Sem emoção. — Eu aceito essa aliança como prova da minha fidelidade, comprometimento, e prometo ser leal até o dia da minha morte. Tudo pela máfia! Eu repito, a voz firme apesar de tudo querer falhar dentro de mim. Trocamos as alianças. E então é anunciada a permissão para o beijo. Eu tinha esquecido dessa parte. Merdä! Eu fico ali, parada, respirando rápido. Lucien segura a minha mão, vira-a levemente e deposita um beijo rápido, quase sem contato. Formal. Protocolar. Frio. Os aplausos começam. O salão inteiro parece vibrar com uma energia pesada, sufocante. Não é alegria. Não é celebração. É… tensão. Como se muitos ali não concordassem com o casamento. Como se não confiassem em mim. Como se achassem que tudo isso é uma péssima ideia. Não tenho tempo para decifrar. De repente, Lucien me puxa para perto. Ele se inclina devagar, a sua boca chegando perto da minha orelha. — Se seguir as regras, não terá o que temer. E ainda hoje, tenho algo para te mostrar. Meu corpo endurece. — Eu não confio em você. — Respondo baixinho, sem pensar. Ele sorri de um jeito quase imperceptível. — Não me importo com isso, Elisie. — Pausa. — Mas há algo que vai provar que você vivia com um homem que só acelerou o processo de ele se casar com você. Eu não entendo e não tenho tempo de perguntar. Louis e Vincent surgem logo em seguida, sorrindo para nós oferecendo parabéns aos dois. — Parabéns ao novo casal! — Vincent diz. — Foram um casal bonito. — Cuidado com as palavras. — Lucien intervém. — Acredito que logo todos se acostumam. — Louis diz. — Relaxem! E meus parabéns... seja bem-vinda à família Bellamy. Eu aceno. Eles são educados, até gentis na medida do possível, mas tudo soa distante, abafado. Como se eu estivesse olhando tudo por trás de um vidro grosso. E então, no meio disso tudo, dessa realização, desse medo crescente… eu penso: é isso. Eu sou uma Bellamy agora. Eu tenho cunhados. Tenho uma nova vida que eu não escolhi. Um marido que eu m*l conheço. Uma organização inteira esperando que eu corresponda ao que eles decidiram que eu devo ser. E o único modo de sair disso… É morrendo. Um de nós dois. Ou eu. Ou ele. E não sei qual destino me assusta mais, mas eu tenho um novo título: a nova esposa do mafioso, Lucien Bellamy.
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