CAP 21

1317 Words
Elisie Charpentier Hoje é o dia. Hoje é o dia em que eu me tornarei uma Bellamy. A nova esposa do mafioso mais temido da França. Eu acordei com essa frase martelando na minha cabeça, como se alguém repetisse em voz alta dentro do meu crânio. Parte de mim ainda, uma bela tola, esperava que algo nos últimos dias acontecesse para impedir essa união. Qualquer coisa. Um ataque, um problema político, uma ordem do Conselho, uma mudança de humor do próprio Lucien. Alguma coisa que me libertasse disso. Mas nada aconteceu. Ele estava decidido, e quando ele decide… o mundo obedece. O beijo de dias atrás foi a última vez em que realmente trocamos uma palavra. Desde então, nos esbarramos algumas vezes na mansão, na mesa de jantar, nos corredores, perto dos jardins. Mas sempre em silêncio. Ele apenas olhava, frio, calculado, e seguia adiante. E eu fazia o mesmo. Era mais seguro assim. Agora, estou sentada em frente a um espelho enorme, e duas mulheres trabalham em mim como se eu fosse uma boneca delicada. Uma finaliza a maquiagem; a outra ajusta as últimas mechas do meu cabelo. Eu já estou com o vestido de noiva e mesmo sem admitir em voz alta, eu sei que estou linda. Mas beleza não importa quando você sente que está caminhando para a própria morte. A cabeleireira prende a última flor no coque e toca no meu ombro. — Agora sim, querida. Está perfeita! — Ela declara com um sorriso. — A noiva mais linda que já vi. O seu marido tem sorte. A maquiadora sorri ao lado. — Uma noiva radiante. À altura de se casar com um homem como o senhor Bellamy. Eu não sorrio. Não respondo. Não tenho o que dizer. Apenas observo meu reflexo. O cabelo impecável, com flores brancas delicadas. A maquiagem leve, suave, feita para realçar, não esconder. O vestido… não há defeito. É feito sob medida, sofisticado, elegante, digno de uma mulher que vai entrar num casamento poderoso. Tudo está impecável! E, ainda assim… eu não vejo uma noiva. Vejo uma prisioneira adornada. Respiro fundo quando o pensamento do beijo surge. Eu quase consigo sentir a pressão dos lábios dele nos meus, o calor, a raiva, a confusão. Mas aquele beijo… nenhum beijo vindo dele será capaz de amenizar o medo que eu sinto hoje. Nenhum beijo vai amenizar o fato de que eu estou sendo obrigada a isso aqui. Nada disso tem como dar certo. Nada disso parece certo. Agradeço às duas mulheres pela ajuda. Elas sorriem aliviadas, felizes por fazer parte de algo tão grande, tão prestigioso. Elas começam a organizar as suas coisas e eu observo e penso: elas não têm culpa. Nenhuma delas. Quando a porta se abre, Cordélia entra como um furacão elegante. Vestido preto longo, cabelo preso, maquiagem impecável. Ela parece uma general pronta para comandar tropas. Eu não fazia ideia de que ela iria como convidada para ver a cerimônia, mas isso não é importante. — Você está perfeita. — Diz com um raro sorriso. — O senhor Bellamy vai ficar muito satisfeito quando a vir. Eu tenho certeza! Eu apenas aceno, sem saber se isso é bom ou r**m, e pego o buquê que estava sobre a mesinha. — Onde ele está? — Pergunto, com mais curiosidade do que gostaria de admitir. — Já está na Sede. — Cordélia ajeita um brinco e confere o relógio. — O helicóptero chegou. Precisamos ir. Não podemos nos atrasar por nada nesse mundo ou... — Já sei. — Vamos? Minha boca seca na hora. Eu tomo um gole de água bem gelada, esperando que isso me devolva alguma estabilidade, alguma coragem, mas tudo o que sinto é o estômago virando. É isso. Não tem mais volta. A hora chegou! Sigo com Cordélia pelos corredores, e cada passo ecoa como uma contagem regressiva. Do lado de fora, o vento frio corta minha pele exposta e eu aperto mais o buquê entre os dedos. O helicóptero aguarda na pista, barulhento, imponente, com as hélices girando devagar enquanto se mantém ligado. Louis está ali, ao lado dele. Quando ele me vê, sua expressão muda. Não de surpresa, mas de aprovação, quase satisfação e ele me olha como se estivesse chegando tudo. — Bem... — Ele diz, aproximando-se. — Você está perfeita para o casamento. Uma bela noiva, Elisie. — Obrigada. — Respondo, mas acrescento com sinceridade amarga: — Eu estaria mais feliz se tivesse escolha. Ele ri, não de sarcasmo, mas como quem entende o absurdo da situação. — Com o tempo, você se acostuma. — Ele coloca as mãos nos bolsos do terno. — Vai entender como Lucien funciona. Ele não faz nada sem motivo... e não vai fazer algo com você sem motivos. — Eu apenas ouço. — Seremos cunhados em alguns minutos. Eu não respondo. Eu não acredito nisso. Ainda não. Louis percebe minha tensão e apenas faz um gesto gentil com a mão, indicando o helicóptero. Ele me ajuda a subir, segurando a barra do vestido para não prender em nada. Cordélia sobe logo atrás de mim. Quando as portas se fecham e o som das hélices aumenta, o meu coração sobe junto com a aeronave. Eu vejo a mansão ficando menor, distante, e sinto algo apertar dentro de mim. Um luto silencioso pela vida que eu conhecia e que acabou no momento em que Henri morreu. Agora, sou a noiva do homem mais poderoso e temido deste país. E mesmo que todos digam que isso é um privilégio, tudo o que eu sinto é a certeza de que Lucien Bellamy vai me olhar com a mesma frieza e indiferença que demonstrou nesses últimos dias. Eu estou a caminho de um casamento, mas no meu peito, só há a sensação de que estou indo para o desconhecido. E, talvez, para o inevitável. { . . . } O helicóptero pousa na Sede com um impacto suave, mas o meu coração desce junto como se tivesse despencado de um penhasco. Quando a porta é aberta, o vento frio da região me atinge de uma vez, junto com a visão do lugar. A Sede é ainda maior do que eu lembrava. Eu só estive aqui uma vez, muitos anos atrás, e na época tudo parecia intimidante demais para que eu realmente absorvesse os detalhes. Agora, porém, eu vejo. Vejo tudo. As paredes altas de pedra clara, os arcos enormes, as bandeiras negras marcadas com o símbolo da família Bellamy tremulando ao vento. Toda a entrada está decorada com flores brancas e douradas, lanternas altas de metal e um corredor impecável de tapete claro que leva até as portas principais. É majestoso. É opressor. É um altar para um casamento que não é meu, mas vai ser. Louis me ajuda a descer e Cordélia ajeita meu véu. Minhas pernas tremem, mas eu disfarço o máximo possível. Assim que avançamos alguns passos, a porta principal se abre e Vincent, o outro irmão de Lucien, aparece. Ele sempre teve um sorriso fácil, mais leve que o dos outros, e hoje não é diferente. — Elisie… — Ele me olha de cima a baixo com genuína surpresa e um elogio silencioso. — Você está deslumbrante. Tudo está pronto lá dentro. — Obrigada! — Relaxa... vai seguir tudo bem! Eu agradeço num sussurro quase inaudível. Seguimos por um corredor amplo e iluminado. Cada passo ecoa, cada detalhe parece gritar que isso é real, que não existe volta. Meu estômago se revira quando chegamos à entrada do grande salão. E então eu o vejo. Lucien está lá na frente. Impecável. Intocável. Vestido no terno mais sofisticado que já vi, a postura reta, as mãos cruzadas nas costas. Ele não olha para ninguém. Só para o relógio. Não é nervosismo. É impaciência. Como se até o próprio tempo estivesse incomodando-o. Se ele já está impaciente agora… como isso pode dar certo? Que Deus me ajude!
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