Lucien Bellamy
Eu ainda estou com a respiração pesada quando termino o beijo e afasto o meu rosto apenas alguns centímetros do dela. A Elisie permanece presa entre o meu corpo e a parede, com o rosto vermelho, lábios inchados e o peit0 subindo e descendo num ritmo desordenado.
E eu encaro cada detalhe.
Há inocência nos olhos dela, mas também há ousadia. Uma faísca de desafio que não deveria existir, e exatamente por isso é tão malditamente viciante. Eu deveria soltá-la imediatamente. Eu deveria recuar, manter distância, lembrar das minhas regras, mas eu acabei de beijá-la com mais intensidade do que já beijei qualquer mulher na minha vida, e agora estou intoxicado.
Droga. Isso é perigoso.
Mas perigoso não significa que eu queira parar.
Ela tenta desviar o olhar, como se quisesse se recompor antes que eu note alguma fragilidade, mas eu já notei.
Eu notei tudo.
A boca dela tem gosto de afronta, medo, tensão… e desejo escondido.
E isso é pior do que tudo porque alimenta o meu próprio.
Eu a solto devagar, observando a reação. Ela inspira fundo, quase como alguém que tenta manter dignidade depois de ser engolido por uma onda. Ela não recua e isso eu admiro. Ela permanece firme, mesmo tremendo por dentro.
— Eu vou embora. — Digo com a voz baixa, rouca pelo excesso de impulso que eu tentei controlar sem sucesso.
Ela abre os lábios, mas não fala nada.
Eu chego à porta, mas paro com a mão na maçaneta. Olho por cima do ombro e deixo escapar um sorriso discreto, calculado, porque eu sei exatamente o efeito que esse pequeno gesto tem sobre ela.
— Recomendo que você tranque a porta durante a noite. — Murmuro.
Ela arregala um pouco os olhos, surpresa e exatamente como eu imaginei, está assustada. Mas eu não tenho pressa de explicar.
— Por quê? O que vai... fazer? — Ela pergunta num fio de voz.
O meu sorriso cresce um pouco.
— Aproveite essas noites, Elisie... porque depois do casamento, você não vai precisar de tranca. Você estará na minha cama.
Viro-me e saio antes que ela responda, antes que ela encontre mais uma frase orgulhosa pra tentar se defender. Eu fecho a porta atrás de mim.
No exato segundo em que a maçaneta para de balançar, eu ouço.
O clique da chave.
Eu rio sozinho.
Ela trancou.
É claro que trancou.
Chego ao meu quarto ainda sentindo o cheiro da pele dela no meu corpo. Tiro a camisa, jogo de lado. Pego uma toalha, mas acabo deixando-a cair porque tudo em mim está inquieto, elétrico, irritado. Não com ela, mas comigo mesmo.
Entro no banho e deixo a água fria vir sobre a cabeça, descendo pelo peito.
Mas ao invés de relaxar, eu sinto… o gosto. O gosto da boca dela ainda está na minha.
Fecho os olhos e sinto o estômago contrair.
Porrä!
Eu perdi o controle.
Eu sei exatamente quando passou do limite: no instante em que ela me afrontou em sussurro. Aquele olhar dela não era apenas medo. Era resistência. Foi um “não” silencioso, orgulhoso, ousado. E eu quis esmagar aquilo. E quis saborear aquilo.
O que eu fiz ali não foi só testar limites. E muito menos foi só provocação.
— Merdä! — Murmuro para mim mesmo, esfregando o rosto com as mãos.
Eu sou o Don. Eu não perco cabeça por ninguém.
Nenhuma mulher nunca me deixou assim e não é como se eu desse espaço pra isso acontecer.
Mas Elisie…
Ela tem um tipo de energia que irrita e intriga ao mesmo tempo, como se cada vez que ela me desafia, ela acendesse algo que eu não pedi pra sentir.
Eu fico alguns segundos parado no chuveiro, respirando forte, tentando racionalizar.
“Foi só um beijo.”
Foi só um beijo, e mesmo assim eu estou lembrando do jeito que ela tremeu, do jeito que ela apertou os lábios antes de ceder, do jeito que ela tentou manter orgulho.
Eu bufo, irritado.
Isso não pode acontecer. Eu tenho regras. Eu tenho um plano. Eu só posso tocá-la depois do casamento.
E eu vou esperar.
O pensamento de que ela não é mais virgem torna tudo mais prático e mais simples.
No casamento, não haverá cerimônias de delicadeza. Não preciso ter medo de feri-la.
Eu vou ter todas as noites para ensinar o corpo dela a responder ao meu.
E ela vai.
Por mais que lute, por mais que desafie, ela vai.
A ideia me dá um calor perigoso.
Saio do banho ainda irritado e vou dormir sabendo que vou sonhar com aquele beijo.
Mais uma vez... que merdä!
{ . . . }
Acordei antes do sol. Treinei por quase três horas.
Corri, pratiquei luta, descarreguei energia como se estivesse tentando apagar a noite inteira da minha memória. Funcionou até certo ponto.
Mas quando eu paro, suado e ofegante, ainda sinto o gosto dela.
Sento no chão da sala de treino e tiro a garrafa de água. Bebo longos goles, forçando o corpo a voltar para o estado normal.
A porta se abre.
Meu irmão, Louis, entra com seu típico sorriso de ironia nascido.
— Bom dia. — Ele dá uma olhada no meu estado. — Vejo que alguém acordou m*l-humorado. Estou errado?
— Vai direto ao ponto. — Resmungo.
— Como quiser. — Ele cruza os braços. — O Conselho está em alvoroço por causa do casamento. Eles acham que vai ser um desastre de imagem. Uma esposa inesperada, sem anúncios, escolhida por sua ordem unilateral… você sabe, aquelas frescuras que eles fingem que importam.
Reviro os olhos.
Eles não importam.
Eles obedecem.
— Não vou mudar nada. — Digo firme. — Eles não escolhem por mim.
— Eu imaginei. — Louis suspira, e então levanta uma sobrancelha. — Isso tudo é pela autonomia… ou você já foi para a cama com ela? É uma dúvida minha... só pra entender.
Olho diretamente para ele, sério, frio.
Ele entende imediatamente.
— Ah. — Ele solta, levantando as mãos, rendido. — Certo. Sem perguntas adicionais.
Eu volto a beber água.
— Sobre os bens do Henri: começamos a vender tudo. Carros, propriedades menores… falta apenas a mansão principal e algumas terras. Todos os funcionários foram remanejados. E o dinheiro está indo exatamente para a conta que você ordenou.
Aceno, satisfeito.
— E as joias da Elisie?
— Intactas. Chegarão nesta semana à mansão.
Perfeito.
Vou me levantar e encerrar o assunto, mas Louis solta um assobio e eu o encaro.
— Tem mais uma coisa.
Eu paro.
— O que é?
Louis inspira fundo.
— É sobre a mortë dos pais da Elisie.
Esse assunto chama a minha atenção na mesma hora. Tenho curiosidades sobre esse assunto.
— Fale.
— Henri estava no meio disso. — Louis diz.
E por um instante, tudo no meu corpo fica imóvel.
Uma pausa curta.
Pesada.
Lenta.
Como se a sala inteira prendesse a respiração comigo.
— Explique. — Digo, com a voz mais baixa do que deveria estar.
Louis engole seco e abre uma pasta.
Quero todos os detalhes possíveis!