Elisie Charpentier
Eu fico parada, imóvel, com a mão ainda apoiada na moldura da janela aberta. O ar frio da noite entra, mas não consegue diminuir o calor nervoso que toma o meu corpo inteiro. E quando Lucien fecha a porta atrás de si, em silêncio absoluto, eu sinto o meu estômago afundar.
Ele está ali.
Molhado, sem camisa, respiração leve… como se nada no mundo pudesse alcançá-lo.
E o pior: ele me olha. Um olhar obscuro. Pesado. Tão profundo que parece atravessar todas as camadas que passei anos tentando construir.
O meu coração falha uma batida pelo medo do que ele pode fazer. Ele me dá medo!
Lucien dá um passo à frente.
— O que você disse lá embaixo? — Ele pergunta, a voz baixa, firme, quase fria. — Do que você me chamou?
Engulo seco e sinto a minha garganta arranhar.
— Eu… não lembro. — Respondo, sem coragem de encarar muito tempo aqueles olhos.
Ele ri, um som curto. Sem humor.
— Você está mentindo, Elisie.
Mais um passo.
Agora ele está perto o bastante para que eu sinta o cheiro dele: água, algo amadeirado e algo quente.
— Eu quero ouvir. — Ele continua, inclinando a cabeça levemente. — Da sua boca. Na minha cara... fala!
Eu aperto os dedos na moldura da janela.
Eu sei exatamente o que disse.
Idiotä. Eu o chamei de idiotä, mas não vou repetir aqui. Jamais, eu vou falar isso olhando diretamente para ele, porque num golpe só… eu perco.
Ele é mais alto, mais forte, mais treinado.
Eu não sei me defender. Nunca soube.
E eu não vou ser machucada por mais um homem.
Já bastou a minha mãe.
Já bastou meu pai.
Já bastou o ex-marido que me entregou humilhação.
E Lucien…
Lucien tomou a minha vida. Tomou meu destino. Tomou o meu caminho.
Eu não vou entregar também a minha dignidade.
Ele se aproxima tanto que o meu peit0 sobe e desce mais rápido.
Estou ofegante. Não por ele, mas por tudo. Pelos anos carregados nas costas. Pelo que significa estar presa nesse quarto com ele.
— Por que está inquieta? — Ele pergunta, com aquela calma irritante. — Eu não fiz nada.
— Sai daqui! — Eu digo, dando um passo para trás. — Esse é o meu quarto.
— A mansão é minha... — Ele corrige, e o tom muda. — Todos os quartos são meus.
Eu sinto o golpe.
Um frio percorrendo a espinha.
— Isso é injusto. — Digo, a voz trêmula, mas firme. — Eu estou aqui à força.
Ele ergue um canto da boca.
— E?
— A minha vontade é ir embora. — Digo, encarando. — E nunca mais olhar na sua cara.
Lucien ri.
Um riso curto, quase debochado.
— Normalmente as mulheres rastejam atrás de mim.
— Eu não sou “as outras mulheres”. — Eu ergo o queixo. — Nenhuma delas.
— Não? — Ele parece genuinamente intrigado.
Eu respiro fundo e completo:
— Você não conte com isso, Lucien. Porque eu nunca vou querer você.
O sorriso dele muda.
Fica mais lento. Mais perigoso.
Ele dá um passo, o último entre nós.
— Você gosta de testar limites, não é, Elisie?
— E você gosta de achar que manda em tudo ao seu redor. — Digo, o coração descompassado. — Inclusive em mim.
— Eu não “acho”. — Ele aproxima o rosto do meu. — Eu mando.
— Não comigo!
Ele sorri de lado.
Um sorriso de predador que acabou de encontrar desafio.
A mão dele começa a subir em direção ao meu rosto, dedos prontos para afastar uma mecha do meu cabelo, mas eu seguro o pulso dele no ar, antes que toque.
— Não faça isso.
— Por quê?
— Porque você quer que eu reaja. — Digo, firme. — E eu não vou te dar essa satisfação.
Ele observa a minha mão segurando o pulso dele. Observa a minha respiração. Meu pescoço. Meus olhos.
— Você já está reagindo.
Uma descarga elétrica atravessa meu corpo.
Eu não sei se é medo, raiva ou a mistura caótica de tudo junto.
— Vai embora... — Peço. — Por favor.
Ele não vai.
Lucien se inclina, o rosto a centímetros do meu, o ar dele batendo quente na minha boca.
— Vai chegar o dia... — Ele sussurra. — Em que você não apenas vai me desejar… mas vai implorar por mim.
Eu rio. Sincero. Incrédulo.
— Você é louco!
Eu não termino de respirar o “o” de louco antes que tudo aconteça de uma vez.
Ele me puxa pelo pescoço. firme, com posse e me pressiona contra a parede ao lado da janela. O choque do contato me faz arfar, e antes que eu diga qualquer palavra, ele me beija.
Não é um beijo gentil.
É devastador.
É força, fome, domínio, um vendaval entrando onde eu jurava que ninguém mais entraria.
Os pulsos presos acima da minha cabeça, uma das mãos dele segurando os dois com facilidade assustadora. O corpo dele colado no meu, quente demais, perto demais, forte demais.
A minha respiração falha.
Ele explode a minha boca com a dele. Quase como se quisesse roubar o ar que eu uso para enfrentá-lo.
Não há alternativa. E ao mesmo tempo… há algo mais.
Algo que o meu corpo sente antes da minha mente.
Algo que me faz estremecer inteira.
Eu odeio isso.
Mas Lucien me beija como ninguém jamais beijou.
Com determinação.
Com certeza.
Com um controle que me desmonta.
Ele aperta meus pulsos. Desce a outra mão pela minha cintura.
Aperta o meu quadril com força o suficiente para arrancar de mim um gemido que eu tento, de verdade, segurar.
Ele não para.
Não recua.
Não me dá espaço para pensar.
E eu me sinto presa.
Sim.
Mas não como antes.
Não é o tipo de prisão que dói.
É outro tipo. Um que confunde. Que agita. Que puxa memórias que eu nunca vivi. Então, num gesto tão calculado quanto o beijo, ele abre os dedos e solta os meus pulsos.
Mas não recua do meu corpo.
Eu fico aqui, ofegante, com as mãos livres, mas sem forças para usá-las.
— Isso é só o começo, Elisie. — Ele fala baixo, com a boca ainda tocando a minha.
Eu fecho os olhos um segundo.
Porque se eu olhar pra ele agora… talvez eu esqueça o que sinto. Talvez eu esqueça o que quero.
Talvez eu esqueça quem ele é.
Quando eu abro os olhos, ele está me olhando como se tivesse acabado de descobrir um segredo que eu mesma ainda não sei.
E esse é o maior perigo de todos.