Elisie Charpentier
Eu deveria entrar no quarto. Deveria simplesmente dar meia volta, me enfiar debaixo das cobertas e fingir que nada neste lugar consegue me afetar. Mas meus olhos… eles não param de voltar para a piscina lateral, onde Lucien nada como se fizesse parte da água.
Eu observo aqui no cantinho, atrás da coluna. Ele mergulha outra vez, sumindo no fundo escuro da piscina, e o silêncio da noite parece prender a respiração junto comigo. Ele leva longos segundos lá embaixo. Tempo demais. Tempo suficiente para eu pensar que algo está errado, mas claro, está longe de alguém como ele ficar sem ar.
Quando finalmente rompe a superfície, o meu corpo inteiro endurece. Ele respira fundo, passa as mãos pelos cabelos molhados, e a água escorre pelas costas dele… costas que não deveriam estar tão expostas à lua. Só então percebo a tatuagem. Ela ocupa quase toda a omoplata. Linhas fortes, intrincadas, desenhadas com precisão assustadora. Não consigo decifrar o desenho, só o impacto visual. É… perigosa. É masculina. E é tão bonita quanto ele é perigoso.
Eu engulo seco.
Lucien nada com firmeza, postura rígida, movimentos certeiros demais para alguém que simplesmente aprendeu a nadar. Isso é treinamento. Isso é hábito. Isso é controle.
Ele é tão lindo quanto monstruoso. Um contraste que arrepia a minha nuca como se um aviso estivesse sendo sussurrado a mim.
Depois de alguns minutos encarando a tatuagem e tentando interpretar o que ela significa, eu finalmente recuo. Chega! Não posso ficar espiando o homem que vai, em menos de uma semana, se tornar meu marido à força. Não posso me permitir pensar que ele é bonito quando tudo nele grita perigo.
Fecho a janela. Fecho as cortinas. Fecho tudo.
Eu me deito, me cubro até o pescoço e fecho os olhos.
Nada.
Viro para a direita. Para a esquerda. Volto para a direita. Tiro o lençol. Me cubro outra vez. Mudo de posição pela décima vez. O travesseiro parece duro demais, outra hora macio demais, incômodo demais. O quarto inteiro parece conspirar para não me deixar dormir.
A sensação de estar sendo observada não ajuda. Mesmo sabendo que ele está lá fora, nadando… ou talvez já não esteja.
Os minutos passam arrastados. Dez parecem trinta. Trinta parecem uma hora. Quando finalmente sinto o corpo começando a afrouxar, a bexiga decide que é hora de atrapalhar.
Ótimo. Perfeito!
Eu me levanto com um suspiro irritado, vou até o banheiro e alivio a bexiga. Lavo as mãos, passo água no pescoço para ver se a frieza me acorda ou me acalma. E não faz nenhum dos dois. Quando ergo o olhar para o espelho, vejo algo pior: fome.
Não… vontade de doce. E essa é pior, porque não dá para ignorar.
Eu sei que não deveria sair do quarto. Que deveria me manter no meu canto, quieta, invisível. Mas a casa está silenciosa demais e eu já ouvi a governanta dizer que Lucien dorme tarde, mas não tão tarde assim.
Já faz bastante tempo desde que ele estava na piscina. Ele deve estar no quarto dele.
Certo?
Certo!
Abro a porta devagar, o coração batendo rápido como se eu estivesse prestes a cometer um crime. Ando pelo corredor escuro, iluminado apenas pela luz prateada da lua que entra pelas janelas. Piso nas pontas dos pés, como se os azulejos pudessem denunciar a minha presença.
Desço as escadas segurando o corrimão com força. Cada passo ecoa na minha cabeça mesmo que, na realidade, esteja tudo quieto.
A cozinha está tão escura quanto o resto da mansão. Mas quando acendo a luz, sinto um pequeno conforto. A luz amarela é suave, quase acolhedora. Vou até a geladeira e abro devagar. Uma onda de ar frio me encontra. Um copo de leite parece a escolha mais segura.
Mas, então vejo. No balcão, em uma boleira de vidro: vários bolinhos individuais. Pequenos, fofos, lindos. O tipo de doce que eu só comeria em ocasiões especiais.
Eu pego um.
É macio. Doce na medida certa e com recheio. Perfeito.
Como devagar, apreciando cada mordida. Tomo um gole de leite. Outro. E quando finalmente termino, tomo o último gole do leite direto do copo.
E é exatamente aí, no último gole, que vejo movimento na porta da cozinha.
É ele.
Lucien entra.
E eu me engasgo imediatamente.
O leite desce pelo lado errado e eu sinto o ar sumir. Os meus olhos arregalam. Meu peito arde. Tento puxar o ar, mas não entra e fico desesperada.
Lucien se aproxima sem pressa.
Sem expressão.
Sem demonstrar uma gota de preocupação.
Mas suas mãos são rápidas e precisas. Ele me vira um pouco para frente e bate de leve nas minhas costas, no ponto certo. Eu finalmente consigo tossir. O leite espirra para fora, a minha garganta arde e os meus olhos lacrimejam. E aqui, eu puxo o ar com força.
Ele continua segurando as minhas costas até eu parar de tossir.
Quando eu consigo respirar de novo, ele me entrega um copo de água.
— Melhorou? — A voz dele é num tom arrogante.
Eu apenas aceno. Ainda recuperando o ar.
E então ele me encara.
— Pretende se matar antes do casamento ou só depois?
Eu arregalo os olhos.
— O quê? — A minha voz sai arranhada.
— Engasgando desse jeito… — Ele ergue uma sobrancelha. — Parece esforço próprio.
— Foi um acidente! — Rebato, irritada. — E aliás… a culpa é sua!
— Minha? — Ele cruza os braços. — Você deveria estar dormindo. Não comendo na cozinha no meio da madrugada... e ainda comendo porcaria.
— E você deveria avisar quando chega em um lugar!
Os nossos olhares se chocam.
O dele firme, profundo, completamente inabalável.
O meu ardendo de indignação.
Eu não recuo. Não dessa vez.
Viro as costas e sinto a raiva queimando por esse jeito dele.
— Idiotä… — Murmuro, baixinho demais para qualquer humano ouvir.
Ou pelo menos eu achei que é baixo demais, mas me engano porque, em um segundo, ele segura o meu braço.
Forte.
Quente.
Úmido.
O meu coração dispara.
— O que você disse? — ele pergunta, a voz num tom tão calmo que arrepia. — Repete essa porrä!
Eu congelo. Pensei que ele não tinha ouvido. Como ele ouviu? Ele estava a metros de distância.
Eu puxo o braço.
Ele não solta.
Puxo de novo.
Ele continua firme.
E aí percebo: a pele dele ainda está úmida da piscina. O cabelo escorre gotinhas de água. Ele está… sem camisa. Totalmente. E eu sinto o calor do corpo dele irradiando para o meu.
O meu estômago vira.
— Me solta… — Peço, a voz tremendo.
Ele finalmente solta.
— Não chegue perto de mim! — Decreto recuando.
E eu saio quase correndo.
Subo as escadas como se algo estivesse atrás de mim. Entro no quarto, empurro a porta para fechar e me jogo na cama. O meu coração lateja forte demais, a minha respiração está descompassada. Eu tento me acalmar. Tiro o cabelo da testa, respiro fundo repetidas vezes.
Ele ficou na cozinha. Ele não veio atrás de mim.
Certo?
Certo!
Eu me levanto, vou até a janela e abro as cortinas para deixar o ar fresco da noite entrar. Abro a janela também, respirando como se tivesse corrido uma maratona.
Mas, quando me viro para voltar para a cama…
Ele está na porta.
Parado.
Molhado.
Sem camisa.
A sombra da noite desenha o seu corpo como se fosse uma ameaça viva. Os seus olhos estão fixos em mim. E o medo vem tão forte que as minhas pernas quase falham.
Lucien saiu da cozinha.
Ele veio atrás de mim.
E agora ele está aqui.
Com a porta fechada atrás dele.