Elisie Charpentier
O dia seguinte chegou como um peso nos meus ombros.
É outro dia presa num destino que eu não escolhi.
Estou de pé diante de uma fileira interminável de vestidos. Tecidos pendurados por todos os lados, rendas, tules, pedras, sedas. Tudo muito caro, muito elegante… e muito distante de mim.
Eu nem queria estar aqui.
Desde o momento em que Lucien me mandou tirar o vestido e ver as minhas cicatrizes, como se quisesse analisar cada uma delas, cada marca do meu passado, nós não nos falamos mais.
Aquilo já foi susto o suficiente para uma vida inteira.
Eu tento não estremecer ao lembrar. Aqueles olhos duros, frios, avaliadores. Ele não disse nada sobre as cicatrizes, mas cada segundo que passou observando a minha pele me fez sentir exposta de um jeito que eu nunca senti antes.
Ainda assim… ele não me tocou. Nem uma vez. Isso, para mim, já é um bom sinal. Ou, pelo menos, o único sinal bom de que posso me agarrar.
A estilista abre mais um vestido, dessa vez um tecido de seda lisa, de um branco quase perolado. Simples, sem bordados, caindo em um corte único, fluido.
— Esse seria perfeito para você. — Ela diz com um sorriso. — Elegante. Sofisticado. Combina com a sua postura.
Eu não tenho postura nenhuma. Só medo.
Mas coloco o vestido assim mesmo, porque recusar não é mais uma opção para mim.
Enquanto ela ajusta o zíper, eu penso na minha vida daqui para frente. No casamento que já está marcado. Na ausência completa de escolha. Na certeza de que serei infeliz para sempre ao lado de um homem como Lucien Bellamy.
Talvez, se eu fizer o que esperam de mim… se eu for obediente…
Se eu der um filho a ele… talvez depois disso ele não precise mais de mim. Talvez cada um fique no seu canto, e eu tenha paz. E o bebê seja a minha única segurança.
É horrível pensar que um bebê pode ser uma forma de me manter viva.
Mas, no meu mundo, esperança é um luxo que ninguém me deu.
Quando a estilista solta um suspiro satisfeito e eu me olho no espelho. O vestido é simples, mas elegante. Confortável ao toque. Um raro conforto em meio ao caos. Eu sinto o toque suave na pele, não marca nada, não pinica e não há o que reclamar dele.
— Ficou realmente lindo. — Ela comenta. — m*l precisa de ajustes. Só um pequeno detalhe aqui na axila e outro nas costas. Coisa rápida!
Eu apenas aceno.
Não tenho forças para sorrir.
— Então será esse! — Digo.
A estilista comemora, já chamando duas assistentes para anotarem medidas. A sala continua cheia de vestidos, e no canto, como sempre, está Cordélia. Anotando tudo.
Vigiando tudo com aquele semblante rígido, profissional, que me faz sentir como se não pudesse respirar sem a sua autorização.
Ela parece um robô. Um observador constante e completamente inesgotável.
Depois dos vestidos, vêm as flores, as cores, as toalhas, os arranjos, a música, os tecidos da mesa, as velas, as taças. Coisas que, em outra vida, talvez me animassem.
Mas não aqui.
— Tudo deve ser enviado para a mansão Sede até amanhã de manhã. O senhor Bellamy não aceita atrasos. Nem falhas. Nem arrependimentos no processo. Tudo deve estar impecável um dia antes. — Cordélia diz isso mais uma vez.
Ela não cansa de repetir.
Eu apenas aceno novamente.
Não sei o que dizer.
Nem sei se devo dizer algo.
As horas passam arrastadas.
Cordélia fala, a estilista ri e participa de uns pontos, as mulheres ao redor opinam.
E eu apenas escuto. Falar demais nunca me trouxe nada de bom.
Quando as provas terminam, eu olho para Cordélia com o pouco de coragem que me resta.
— Posso… pegar um ar lá fora?
Ela me observa por um segundo interminável.
— Pode. Mas não se afaste demais da propriedade. — Eu aceno. — Tem homens por todo lado.
Já imaginei!
Saio da mansão como alguém que sai de uma prisão. O ar fresco bate no meu rosto e pela primeira vez no dia eu consigo respirar fundo de verdade.
Ando pelos jardins, pego um pouco de sol leve na pele, deixo o vento mover o meu cabelo. Tento convencer o meu coração a bater mais devagar, convencer a minha mente de que nada de m*l vai acontecer hoje.
Dou a volta ao redor da mansão, gigante demais, silenciosa demais, e então vejo, nos fundos, uma piscina enorme, impecável, azul como o mar do Mediterrâneo.
Não consigo evitar sorrir mesmo que seja um sorriso pequeno.
Eu amo água. Sempre amei nadar. Tomara que ninguém me impeça disso. E com esse pensamento, surge uma pergunta estranha: será que Lucien gosta de nadar?
Eu mesma respondo um segundo depois: por que eu me importaria com isso?
Dou de ombros e continuo o meu passeio. O sol começa a descer.
A tarde escorre lenta e nada acontece. Nenhuma voz dura. Nenhuma ordem absurda. Nenhuma presença ameaçadora.
E isso, para mim, é a única parte boa do dia.
{ . . . }
Já é noite e o frio se prendeu aqui dentro do quarto.
Eu jantei sozinha. Tomei banho e estou de camisola, sentada na beirada da cama, olhando para as paredes como se elas fossem me dar respostas.
Mas o sono não vem.
Não consigo relaxar.
Não consigo fazer nada que não seja esperar.
Esperar o quê?
Nem eu sei.
Caminho até a varanda e abro as portas devagar. A noite está fresca, calma, silenciosa. Coloco as mãos na grade e respiro fundo.
— Vai ficar tudo bem. — Sussurro para mim mesma. — Eu vou aprender. Eu vou me adaptar. Vou entender as regras… e quando entender, vai conseguir ter algum controle.
Eu me agarro a isso porque foi assim quando me casei com Henri. Eu não sabia de nada, mas fui aprendo. É, pode ser que eu consiga uma saída.
Penso nisso até que um barulho de água me chama atenção.
Um som firme, ritmado. Passos dentro de água. Braçadas.
Viro a cabeça para o lado e o meu coração dá um salto.
Lucien está na piscina.
Nadando em silêncio, como se o mundo não existisse. Como se ninguém pudesse lhe ver na piscina, como se ele fosse realmente invisível.
A luz azul da água faz sombras pelo corpo dele, um corpo forte, marcado, tenso, movendo-se com precisão e força. Ele corta a água como se a dominasse.
Eu engulo em seco.
Não era assim que eu imaginava ver o Don da máfia francesa. Eu não imaginava… isso. O jeito que os músculos do ombro se movem. A linha firme das costas.
As pernas impulsionando o corpo com facilidade.
Ele parece perigoso até nadando.
E mesmo de longe, mesmo escondida na varanda do meu próprio quarto…
Eu admito, só para mim: eu não esperava que ele fosse assim.
Fico até com vergonha de estar olhando, mas continuo.
Pela primeira vez, eu vejo Lucien Bellamy sem terno. Sem frieza. Sem paredes. Só um homem sozinho na água. Um homem que vai se casar comigo. Um homem que pode decidir a minha vida e a minha morte com um simples comando.
Confesso, ele é um homem que chama atenção mesmos sem terno e isso é perigoso demais.
Ele está apenas de box preta ali. Só!
Não posso ficar olhando, mas não consigo sair daqui.