A Carona

964 Words
Maya já estava do lado de fora quando Julian finalmente conseguiu sair do estúdio. O ar da noite estava mais frio do que ele esperava. Ou talvez fosse apenas o corpo ainda quente demais para perceber a temperatura real. Ela caminhava pela calçada, distraída, mexendo no celular, como se nada tivesse acontecido. Como se aquele quase beijo não tivesse deixado marcas invisíveis nos dois. Julian a chamou antes que pudesse pensar melhor. — Maya. Ela virou devagar. — O que foi? Ele apontou para o carro estacionado a poucos metros. — Posso te dar uma carona. Ela hesitou. Não por educação. Por instinto. — Eu ia chamar um aplicativo. — Eu sei — respondeu ele. — Mas está tarde. E eu estou indo para o mesmo lado. Maya cruzou os braços. — Isso não é uma continuação do ensaio, é? — Não — disse Julian, com honestidade desconfortável. — Isso é uma continuação do que não aconteceu. Ela sustentou o olhar por alguns segundos longos demais. — Você não desiste fácil, né? — Não quando algo fica inacabado. Maya suspirou, como se estivesse avaliando riscos internos que não queria nomear. — Só até a esquina — disse por fim. — Se você tentar transformar isso em qualquer outra coisa, eu desço. — Combinado. Ela entrou no carro. E imediatamente o espaço mudou. Não era mais o estúdio. Não havia equipe, luzes, câmeras, ninguém observando. Apenas os dois, fechados dentro de um ambiente pequeno demais para tanta tensão acumulada. Julian ligou o motor, mas demorou a arrancar. O silêncio era diferente agora. Mais íntimo. Mais físico. O tipo de silêncio que faz cada movimento parecer alto demais: o som do cinto de segurança, a respiração de Maya, o próprio coração dele batendo forte demais para ser ignorado. — Você sempre fica assim quando entra no carro de alguém? — perguntou ele, tentando soar casual. — Assim como? — Em alerta. Maya olhou pela janela. — Eu fico assim quando sinto que estou entrando em território que não controlei totalmente. Julian engoliu em seco. — E por que entrou? Ela virou o rosto lentamente para ele. — Porque uma parte de mim quer ver até onde você vai. A frase ficou entre eles, pesada, elétrica. Julian arrancou com o carro. A cidade passava pelas janelas como um borrão de luzes, mas ele m*l percebia. Estava consciente demais da presença de Maya ao lado. Do cheiro dela. Da perna dela tão próxima da dele. Do fato de que, se estendesse a mão alguns centímetros, poderia tocá-la de novo. — Você está diferente hoje — disse ela. — Diferente como? — Menos calculado. Ele soltou um meio sorriso. — Talvez eu esteja cansado de calcular. — Isso é perigoso para alguém como você. — Eu sei — respondeu. — Mas também é libertador. O semáforo fechou. O carro parou. O mundo, de novo, pareceu reduzir-se apenas ao interior daquele espaço. Julian virou levemente o rosto para ela. Maya já estava olhando. Não houve aviso. Não houve frase intermediária. Apenas um reconhecimento silencioso de que os dois estavam pensando exatamente na mesma coisa. — Julian… — murmurou ela. — Eu sei. Ele não a beijou. Mas aproximou-se o suficiente para que as testas quase se tocassem. O suficiente para que a respiração de um invadisse o espaço do outro. O suficiente para que o corpo inteiro reagisse sem pedir autorização. — Isso não é uma boa ideia — disse Maya, mas não se afastou. — Eu não estou tentando ter boas ideias — respondeu ele. — Estou tentando ser honesto. O polegar dele tocou de leve a mão dela, que estava apoiada no próprio colo. Um toque mínimo. Quase acidental. Mas que fez Maya prender a respiração. — Você percebe que está cruzando um limite, né? — ela disse, em voz baixa. — Percebo. — E mesmo assim… — Mesmo assim eu preciso saber — interrompeu ele. — Se isso é só tensão… ou se é algo real. Maya fechou os olhos por um segundo. Julian se aproximou mais. Os lábios ficaram novamente a milímetros de distância. Dessa vez, não havia parede. Não havia equipe. Não havia fuga lateral. Só o carro. A noite. E o espaço exato onde o controle começava a falhar. O nariz dele roçou de leve no dela. Maya sentiu o arrepio subir pela espinha. — Você está me testando — sussurrou. — Não — respondeu Julian. — Estou me testando. Ele inclinou a cabeça. Maya não virou o rosto. Os lábios se tocaram. Não foi um beijo intenso. Não foi profundo. Não foi longo. Foi um toque lento, contido, quase inseguro — como se os dois estivessem mais interessados em sentir do que em avançar. Mas foi suficiente. Suficiente para Julian sentir o gosto dela. Suficiente para Maya sentir o corpo inteiro reagir. Ela foi a primeira a se afastar. — d***a… — murmurou, passando a mão pelo próprio rosto. Julian ficou imóvel, respirando fundo, como se tivesse acabado de atravessar algo sem saber exatamente o quê. — Eu disse que só até a esquina. — Eu sei — respondeu ele. — E eu disse que precisava sentir. Ela abriu a porta. Antes de sair, virou-se para ele. — Você conseguiu o que queria? Julian sustentou o olhar. — Não. — Então por que parece tão satisfeito? Ele sorriu de forma lenta, intensa, quase perigosa. — Porque agora eu sei que não estou imaginando. Maya saiu do carro. E pela primeira vez desde que o conhecera, não caminhou imediatamente. Ficou parada na calçada por alguns segundos, respirando fundo, tentando reorganizar o próprio corpo. Dentro do carro, Julian permaneceu imóvel, sentindo ainda o gosto dela nos lábios. Não era um beijo. Mas era o começo de algo que ele já não sabia se conseguiria controlar.
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