Maya já estava do lado de fora quando Julian finalmente conseguiu sair do estúdio.
O ar da noite estava mais frio do que ele esperava. Ou talvez fosse apenas o corpo ainda quente demais para perceber a temperatura real.
Ela caminhava pela calçada, distraída, mexendo no celular, como se nada tivesse acontecido. Como se aquele quase beijo não tivesse deixado marcas invisíveis nos dois.
Julian a chamou antes que pudesse pensar melhor.
— Maya.
Ela virou devagar.
— O que foi?
Ele apontou para o carro estacionado a poucos metros.
— Posso te dar uma carona.
Ela hesitou. Não por educação. Por instinto.
— Eu ia chamar um aplicativo.
— Eu sei — respondeu ele. — Mas está tarde. E eu estou indo para o mesmo lado.
Maya cruzou os braços.
— Isso não é uma continuação do ensaio, é?
— Não — disse Julian, com honestidade desconfortável. — Isso é uma continuação do que não aconteceu.
Ela sustentou o olhar por alguns segundos longos demais.
— Você não desiste fácil, né?
— Não quando algo fica inacabado.
Maya suspirou, como se estivesse avaliando riscos internos que não queria nomear.
— Só até a esquina — disse por fim. — Se você tentar transformar isso em qualquer outra coisa, eu desço.
— Combinado.
Ela entrou no carro.
E imediatamente o espaço mudou.
Não era mais o estúdio. Não havia equipe, luzes, câmeras, ninguém observando. Apenas os dois, fechados dentro de um ambiente pequeno demais para tanta tensão acumulada.
Julian ligou o motor, mas demorou a arrancar.
O silêncio era diferente agora. Mais íntimo. Mais físico. O tipo de silêncio que faz cada movimento parecer alto demais: o som do cinto de segurança, a respiração de Maya, o próprio coração dele batendo forte demais para ser ignorado.
— Você sempre fica assim quando entra no carro de alguém? — perguntou ele, tentando soar casual.
— Assim como?
— Em alerta.
Maya olhou pela janela.
— Eu fico assim quando sinto que estou entrando em território que não controlei totalmente.
Julian engoliu em seco.
— E por que entrou?
Ela virou o rosto lentamente para ele.
— Porque uma parte de mim quer ver até onde você vai.
A frase ficou entre eles, pesada, elétrica.
Julian arrancou com o carro.
A cidade passava pelas janelas como um borrão de luzes, mas ele m*l percebia. Estava consciente demais da presença de Maya ao lado. Do cheiro dela. Da perna dela tão próxima da dele. Do fato de que, se estendesse a mão alguns centímetros, poderia tocá-la de novo.
— Você está diferente hoje — disse ela.
— Diferente como?
— Menos calculado.
Ele soltou um meio sorriso.
— Talvez eu esteja cansado de calcular.
— Isso é perigoso para alguém como você.
— Eu sei — respondeu. — Mas também é libertador.
O semáforo fechou.
O carro parou.
O mundo, de novo, pareceu reduzir-se apenas ao interior daquele espaço.
Julian virou levemente o rosto para ela. Maya já estava olhando.
Não houve aviso. Não houve frase intermediária. Apenas um reconhecimento silencioso de que os dois estavam pensando exatamente na mesma coisa.
— Julian… — murmurou ela.
— Eu sei.
Ele não a beijou.
Mas aproximou-se o suficiente para que as testas quase se tocassem. O suficiente para que a respiração de um invadisse o espaço do outro. O suficiente para que o corpo inteiro reagisse sem pedir autorização.
— Isso não é uma boa ideia — disse Maya, mas não se afastou.
— Eu não estou tentando ter boas ideias — respondeu ele. — Estou tentando ser honesto.
O polegar dele tocou de leve a mão dela, que estava apoiada no próprio colo. Um toque mínimo. Quase acidental. Mas que fez Maya prender a respiração.
— Você percebe que está cruzando um limite, né? — ela disse, em voz baixa.
— Percebo.
— E mesmo assim…
— Mesmo assim eu preciso saber — interrompeu ele. — Se isso é só tensão… ou se é algo real.
Maya fechou os olhos por um segundo.
Julian se aproximou mais.
Os lábios ficaram novamente a milímetros de distância.
Dessa vez, não havia parede. Não havia equipe. Não havia fuga lateral.
Só o carro.
A noite.
E o espaço exato onde o controle começava a falhar.
O nariz dele roçou de leve no dela.
Maya sentiu o arrepio subir pela espinha.
— Você está me testando — sussurrou.
— Não — respondeu Julian. — Estou me testando.
Ele inclinou a cabeça.
Maya não virou o rosto.
Os lábios se tocaram.
Não foi um beijo intenso.
Não foi profundo.
Não foi longo.
Foi um toque lento, contido, quase inseguro — como se os dois estivessem mais interessados em sentir do que em avançar.
Mas foi suficiente.
Suficiente para Julian sentir o gosto dela.
Suficiente para Maya sentir o corpo inteiro reagir.
Ela foi a primeira a se afastar.
— d***a… — murmurou, passando a mão pelo próprio rosto.
Julian ficou imóvel, respirando fundo, como se tivesse acabado de atravessar algo sem saber exatamente o quê.
— Eu disse que só até a esquina.
— Eu sei — respondeu ele. — E eu disse que precisava sentir.
Ela abriu a porta.
Antes de sair, virou-se para ele.
— Você conseguiu o que queria?
Julian sustentou o olhar.
— Não.
— Então por que parece tão satisfeito?
Ele sorriu de forma lenta, intensa, quase perigosa.
— Porque agora eu sei que não estou imaginando.
Maya saiu do carro.
E pela primeira vez desde que o conhecera, não caminhou imediatamente.
Ficou parada na calçada por alguns segundos, respirando fundo, tentando reorganizar o próprio corpo.
Dentro do carro, Julian permaneceu imóvel, sentindo ainda o gosto dela nos lábios.
Não era um beijo.
Mas era o começo de algo que ele já não sabia se conseguiria controlar.