Maya entrou em casa com o corpo ainda em estado de alerta.
Jogou a bolsa sobre o sofá, tirou os sapatos sem se sentar, caminhou até a janela e a abriu, como se precisasse de ar novo para diluir algo que estava denso demais dentro dela.
O beijo.
Se é que aquilo podia ser chamado assim.
Não tinha sido intenso, não tinha sido profundo, não tinha sido explícito. Mas era exatamente isso que tornava tudo mais perturbador. Não fora um beijo de desejo descarado.
Fora um beijo de reconhecimento.
Julian não a beijara como homem faminto.
Beijara como alguém que precisava confirmar uma hipótese.
E Maya, pela primeira vez em muito tempo, tinha sido parte da hipótese de alguém.
Ela passou a mão pelos próprios lábios, quase sem perceber.
Ainda sentia.
Não o gosto, mas a memória física do contato. A forma como o corpo reagira antes da mente conseguir intervir.
— i****a… — murmurou para si mesma.
Não sobre ele.
Sobre si.
Do outro lado da cidade, Julian estava parado no estacionamento havia quase quinze minutos sem desligar o carro.
O motor ainda ligado. As mãos apoiadas no volante. O olhar perdido no vazio à frente.
O beijo continuava se repetindo em loop na mente dele, mas não como cena sensual. Como um evento crítico.
Algo tinha mudado.
Antes, Maya era um enigma.
Agora, era uma resposta parcial.
E isso era muito mais perigoso.
Ele finalmente desligou o carro e saiu, subindo para o apartamento em silêncio. Não ligou música. Não pegou o celular. Não abriu redes sociais.
Foi direto para o quarto, sentou-se na cama e ficou ali, imóvel, como se estivesse esperando o próprio corpo entender o que tinha acabado de acontecer.
Julian percebeu algo com clareza incômoda:
Ele não queria mais impressionar Maya.
Não queria seduzi-la.
Não queria conquistá-la.
Queria continuar acessando aquela versão dela que só existia quando ela estava perto demais para fingir.
No dia seguinte, Maya acordou com uma mensagem.
Dele.
“Não vou te procurar hoje. Mas precisava que você soubesse que ontem não foi um erro para mim.”
Ela ficou olhando para a tela por vários segundos.
Não respondeu.
Não porque não quisesse.
Mas porque qualquer resposta parecia perigosa demais.
Julian passou o dia inquieto.
Fotografou outra modelo. Outro ensaio. Outro cenário. Tudo tecnicamente perfeito e absolutamente vazio.
Ele percebeu isso na terceira foto.
A modelo era linda. Expressiva. Profissional. Tudo que qualquer fotógrafo desejaria.
Mas ele não sentia nada.
Nenhuma curiosidade.
Nenhuma tensão.
Nenhuma vontade de ultrapassar o enquadramento.
Era só imagem.
Maya tinha deixado de ser imagem.
E agora ele não conseguia mais voltar atrás.
À noite, Maya finalmente respondeu.
“Também não foi um erro para mim. Mas isso não significa que foi uma boa decisão.”
Julian leu a mensagem três vezes.
Digitou. Apagou. Digitou de novo.
“Desde quando você se envolve só com boas decisões?”
Ela respondeu rápido demais.
“Desde que comecei a pagar caro pelas impulsivas.”
Julian sentiu um leve aperto no peito.
“E eu pareço impulsivo ou caro?”
Alguns minutos de silêncio.
“Os dois.”
Ele sorriu.
Mas não era um sorriso leve. Era um sorriso de quem estava entrando conscientemente em território instável.
“Você tem medo de mim?” — ele escreveu.
A resposta demorou.
Muito mais do que antes.
“Não. E esse é exatamente o problema.”
Julian ficou olhando para a tela, sentindo algo se organizar dentro dele com clareza perturbadora.
Ela não estava fugindo.
Não estava se entregando.
Estava permanecendo na borda.
E ele percebia que, pela primeira vez, não queria empurrá-la para dentro. Queria que ela escolhesse cair.
Isso exigia algo que ele nunca tinha exercitado de verdade:
Paciência.
Mas a obsessão já estava instalada.
Não como desejo s****l simples.
Não como carência.
Mas como necessidade de continuidade.
Ele não precisava apenas beijá-la de novo.
Precisava entender:
Por que, entre todas as pessoas que já tinha tocado, era justamente aquela que tinha ido embora primeiro que agora ocupava todos os espaços da mente dele?
E Maya, deitada na própria cama, com o celular ainda na mão, encarando o teto no escuro, pensava exatamente o oposto:
Por que, entre todos os homens que já tinham tentado se aproximar, era justamente aquele que não tentava convencê-la de nada que estava começando a desmontar suas defesas?
Nenhum dos dois dormiu direito naquela noite.
E nenhum dos dois estava mais interessado em voltar ao ponto em que tudo ainda parecia simples.