A Outra Versão Dela

1787 Words
Julian não soube exatamente por que aceitou o convite. Não era um evento importante. Não era uma oportunidade decisiva. Não era algo que ele normalmente priorizaria numa semana cheia de trabalho. Mas, quando leu o nome de Maya na lista de participantes do projeto, sentiu um impulso automático de ir. Não porque queria encontrá-la. Mas porque queria saber como ela existia fora dele. O evento acontecia num espaço cultural no centro da cidade, um daqueles lugares que misturam galeria, café, estúdio e networking disfarçado de arte. Gente demais, música baixa, luz amarelada, conversas cruzadas. Julian entrou com a sensação de estar invadindo um território que não era seu. Ele não avisou que iria. E isso, por si só, já era um sinal de algo errado. Maya estava perto de uma das paredes, observando uma série de fotografias expostas. Usava um vestido simples, elegante sem esforço, e ria de algo que um homem ao seu lado acabara de dizer. Julian não conhecia o homem. Não era fotógrafo. Parecia alguém da curadoria, talvez. O problema não era quem ele era. Era como ela estava. Solta. Natural. À vontade. Julian parou a alguns metros de distância, fingindo observar as obras. Mas seu olhar voltava sempre para o mesmo ponto. Maya gesticulava levemente ao falar, tocava o braço do homem em alguns momentos, inclinava a cabeça para escutar melhor. Nada íntimo. Nada impróprio. Nada que justificasse o que ele estava sentindo. E, ainda assim, algo dentro dele se deslocou. Não era raiva. Não era medo. Era uma sensação estranha de desencaixe. Como se estivesse vendo uma versão dela que não lhe pertencia — e percebesse, pela primeira vez, que nunca pertenceu. Maya não o tinha visto ainda. Julian percebeu isso e, por um segundo, pensou em ir embora. Mas ficou. Queria saber até onde aquela sensação iria. O homem ao lado dela disse algo que a fez rir mais alto. Um riso aberto, fácil, o mesmo que ela raramente mostrava no estúdio. Julian sentiu algo se apertar no peito. Não era exatamente dor. Era comparação. Ele começou a se perguntar: Ela ri assim comigo? Ou comigo ela pensa mais do que sente? Maya virou o rosto de leve e, então, o viu. O sorriso dela diminuiu por um segundo. Não sumiu. Mas mudou. Ela se despediu do homem com um gesto educado e caminhou até Julian. — Eu não sabia que você vinha. — Eu também não sabia — ele respondeu, sincero. Ela sorriu de leve. — Está tudo bem? — Está. Eu só… vi seu nome na lista. Maya assentiu. — Esse projeto é novo pra mim. Quis conhecer o pessoal. Julian olhou ao redor. — Parece interessante. Ela percebeu algo no tom dele. Uma contenção sutil. — Você chegou agora? — Faz alguns minutos. Ela o observou com mais atenção. — Você parece… distante. Julian pensou por um segundo antes de responder. — Eu acho que estou observando. — O quê? Ele sorriu de canto. — Você. Maya sentiu um leve desconforto. Não pelo olhar dele. Mas pela forma como ele dizia aquilo. — Eu estava conversando com um curador — ela explicou, sem que ele tivesse perguntado. Julian assentiu. — Eu vi. Silêncio. Pequeno demais para ser constrangedor. Grande demais para ser ignorado. — Você ficou incomodado? — ela perguntou, diretamente. Julian hesitou. Ele não queria mentir. Mas também não queria admitir algo que ainda estava tentando entender. — Não — disse. — Só foi estranho te ver aqui sem… mim. Maya franziu a testa de leve. — Estranho como? — Como se eu estivesse vendo uma parte sua que não conheço. Ela sorriu. — Você conhece só uma parte de mim, Julian. — Eu sei. — Então por que isso te incomoda? Ele respirou fundo. — Porque eu percebi que, mesmo conhecendo pouco, eu já tinha criado uma versão inteira. Maya sentiu o peso da frase. — E essa versão não inclui outras pessoas? — Inclui. Mas não dessa forma. — Qual forma? Julian pensou por alguns segundos. — Leve. Ela sorriu, mas havia algo sério ali. — Você queria que eu fosse diferente aqui? — Não. Eu só… não estou acostumado a te ver assim. — Assim como? — Inteira. Maya cruzou os braços, num gesto mais de p******o do que de defesa. — Eu também sou inteira quando estou com você. — É diferente. — Por quê? Ele não respondeu de imediato. Porque a resposta era simples demais e perigosa demais: Porque comigo você me envolve. E com eles você só existe. Mas ele não disse isso. Em vez disso, falou: — Porque comigo você pensa. Maya inclinou a cabeça. — E com eles eu sinto? — Talvez. Ela ficou em silêncio por alguns segundos. — Você acha que isso é r**m? Julian não sabia. E essa era a pior parte. Eles caminharam até uma área mais vazia da galeria. O barulho diminuía um pouco ali. — Você parece tenso — Maya comentou. — Eu estou… deslocado. — Por minha causa? — Não. Por causa do que eu senti ao te ver com outra pessoa. Ela respirou fundo. — O que você sentiu? Julian demorou a responder. — Que eu não sou o centro da sua vida. Maya sorriu com delicadeza. — Você nunca foi. — Eu sei. Mas eu acho que comecei a agir como se fosse. Ela sentiu algo se mover dentro dela. Não culpa. Não medo. Consciência. — Isso te incomoda? — Não exatamente. Me… alerta. — Alerta pra quê? — Pra o quanto eu estou me envolvendo mais do que imaginei. Maya ficou em silêncio. — Julian, eu não quero que você se sinta excluído do meu mundo. Mas eu também não quero que você construa um mundo só comigo dentro. Ele a olhou com atenção. — Você acha que eu estou fazendo isso? Ela pensou antes de responder. — Eu acho que você está começando a me olhar como referência. Ele não negou. — E isso é perigoso — ela completou. — Por quê? — Porque referências moldam expectativas. E expectativas criam frustrações. Julian respirou fundo. — Eu não quero te limitar. — Eu sei. — Mas também não quero fingir que não sinto nada quando te vejo com outra pessoa. Maya sorriu de leve. — Você sentiu ciúme? Ele riu baixo. — Eu senti… deslocamento. Como se meu lugar tivesse sido questionado. Ela o observou por alguns segundos. — Isso significa que você criou um lugar pra você sem me avisar. A frase não era dura. Era lúcida. Julian sentiu um arrepio. — Talvez eu tenha. Maya suspirou. — Julian, eu não quero ser alguém que ocupa demais o espaço de outra pessoa. — E eu não quero ser alguém que te coloca nesse lugar. — Mas já estamos, não estamos? Silêncio. — Um pouco — ele respondeu. — Então precisamos ser honestos. — Sobre o quê? — Sobre o fato de que eu não vou ser só sua. E você não vai ser só meu. Julian assentiu. — Eu sei. — Você aceita isso? Ele hesitou. Não porque não concordasse. Mas porque sentia algo diferente. — Eu aceito racionalmente. — E emocionalmente? Ele sorriu triste. — Emocionalmente eu ainda estou aprendendo. Maya tocou levemente o braço dele. O toque foi breve. Mas suficiente para acalmá-lo. — Eu gosto de você, Julian. Mas eu preciso continuar sendo muitas versões de mim. — Eu não quero te reduzir. — Então não tente me centralizar. Ele respirou fundo. — Eu não sabia que estava fazendo isso. — Agora sabe. Eles se olharam em silêncio. O evento continuava ao redor deles, mas parecia distante. — Eu posso te fazer uma pergunta difícil? — ele disse. — Pode. — Você se sente diferente comigo do que com eles? Maya pensou por alguns segundos. — Sim. — Como? — Com você eu penso mais. Me observo mais. Me contenho mais. — Isso é bom? — Não sei ainda. — E com eles? — Com eles eu só sou. Julian sentiu algo se mover dentro dele. — E qual versão você prefere? Maya respirou fundo. — Eu não quero escolher. Silêncio. — Mas eu acho que, com você, eu me torno mais consciente. — E isso te aproxima ou te afasta? Ela sorriu, com uma leve melancolia. — Me aproxima de quem eu sou. Mas me afasta da leveza. Julian assentiu lentamente. — Então talvez eu seja o lugar onde você pensa demais. — E talvez você seja o lugar onde eu sinto demais. Eles riram baixo. — Isso parece equilibrado — ele disse. — Parece perigoso — ela respondeu. Julian olhou para ela com seriedade. — Eu não quero te perder. — Eu não estou indo embora. — Mas eu sinto que estou começando a te querer de um jeito diferente. Maya sentiu um aperto no peito. — Diferente como? — Menos como desejo. Mais como presença constante. Ela engoliu seco. — Isso muda tudo. — Eu sei. — Porque presença constante não é romance. É estrutura. — E estrutura pesa. — E sustenta. Silêncio. — Você quer que eu me afaste? — ele perguntou, pela primeira vez. Maya olhou para ele com atenção. — Eu quero que você não se perca. — E você? — Eu quero não ser o motivo disso. Eles ficaram ali por alguns segundos, apenas respirando o mesmo ar. — Talvez a gente precise se observar mais — Maya disse. — Não o outro. A si mesmo. Julian assentiu. — Eu acho que eu já comecei a fazer isso tarde demais. Ela sorriu. — Ou cedo o suficiente pra evitar algo pior. Ele a olhou com uma mistura de carinho e inquietação. — Você acha que isso vai nos afastar? Maya pensou. — Eu acho que isso vai nos transformar. Julian sentiu a verdade daquilo. Porque, naquele momento, percebeu algo que ainda não tinha nomeado: O ciúme que sentiu não era sobre perder Maya para outro homem. Era sobre perder a versão de si mesmo que só existia quando se sentia especial para ela. E isso não tinha nada a ver com ela. Tinha tudo a ver com ele. Maya, por sua vez, caminhava ao lado dele percebendo algo igualmente perturbador: Julian não era apenas alguém por quem sentia algo. Era alguém que despertava nela uma necessidade nova: a de não ser o centro emocional de ninguém. E essa consciência mudava tudo. Eles saíram do evento juntos, mas em silêncio. Não de desconforto. De reflexão. A outra versão dela tinha sido revelada. E a outra versão dele também. E ambos entenderam, sem dizer: A história deles não estava mais crescendo só por atração. Estava crescendo por reconfiguração interna. E isso é sempre o começo das relações que deixam marcas.
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