Os dias passaram tão rápido. Elisa me ligava todos os dias, até Fabrício que é mais calado e ausente, me mandou algumas mensagens. Ver a empolgação dos meus filhos em recepcionar o pai depois de tantos meses distante, estava me contagiando. Preparar o jantar para a chegada do Léo estava ocupando meu tempo e isso até que foi bem vindo. A escolha do cardápio, ir ao mercado com a Jô, os telefonemas e mensagens dos meus filhos, compras no shopping e todo o resto que envolvia essa recepção.
Faria como minha filha sugeriu, iria ao salão cuidar da pele, dos cabelos e das unhas, aproveitar e colocar a depilação em dia, se tudo desse certo nossa noite seria maravilhosa, e eu queria estar maravilhosa para meu marido.
Raquel, minha cabeleireira, já estava finalizando meus cachos dourados quando meu telefone tocou e o rosto de Lisa brilhou na tela.
— Oi, meu amor, como está? – Disse atendendo o telefone. Raquel resmungou algo como “até parece que tem três anos”, mas não me importei. Nem com a frase, nem com a risada abafada.
— Bem, mãe. Onde a senhora está? Eu e Binho já chegamos.
— Ah, que bom que já chegaram. – Fiquei aliviada, sempre que meus filhos pegavam a estrada eu ficava com medo de que algo acontecesse. – Raquel já está terminando, daqui a pouco estou em casa.
— Tá bom, não demora. Beijo!
— Deixa eu falar com o Fabrício. Não ouço a vós do meu filho há tanto tempo. – Ouvi a risada dela e logo a voz do meu mais velho encheu meus ouvidos. Que sensação maravilhosa.
— Mãe!
— Filho! Tanta saudade de você. Por que não liga pra mamãe? – Raquel riu outra vez.
— Ah mãe, desculpa, vai. É que tem coisa pra c*****o da faculdade...
— Fabrício! – O repreendi.
— Foi m*l, mãe. São muitos trabalhos e também os caras, sabe como é.
— Sei quem são “os caras”, aí esquece da sua mãe. Filho, tem que lembrar mais da sua mãe. Cinco minutinhos uma vez por semana não vai te atrasar na faculdade e nem com “os caras”. – E Raquel continuava sua diversão de rir da minha cara.
— Tá bom, mãe. Eu vou melhorar.
— Tudo pronto, Rebeca! – Raquel se lembrou de como completar palavras, porque há segundos só existia o “ri-ri-ri”.
— Espero que sim, Binho. Agora vou desligar que a Raquel já terminou meu cabelo.
— Tá bom, mãe. – Quando eu ia mandar um beijinho o outro já tinha desligado. Raquel ficou rindo da minha cara, acho que esse tinha se tornado o hobby favorito da minha antiga cabeleireira.
— Sabe, Rebeca, seus filhos cresceram, você precisa entender isso.
— É claro que entendo isso, Raquel, deixa de bobagem. – Abri minha carteira tirando o cartão.
— Acho que não. Você fala com eles como se tivessem cinco e três anos, e não como um rapaz de vinte e quatro e uma moça de vinte e dois. – Ela pegou o cartão e o colocou na máquina.
— São meus bebês, acho que você entende isso.
— É claro que entendo. – Ela me entregou a máquina para colocar a senha. – Mas você precisa trata-los como adultos, principalmente o garoto, ele vai continuar fugindo de você. – Torci o nariz diante das palavras dela, Raquel não era uma amiga, mas a conhecia há muitos anos, desde que meus filhos eram pequenos. Ela poderia estar certa.
— Odeio dizer, mas acho que está certa. – Peguei o cartão que ela me entregava e guardei em minha carteira.
— É claro que tenho. – Ela sorriu amigável. – Agora vá logo e arrase com o maridão.
— Obrigada, Raquel. – Beijei seu rosto e saí do salão. Já estava escurecendo.
Não demorou dez minutos e cheguei em casa, o salão ficava muito próximo e com o trânsito tranquilo do bairro, o percurso é bem rápido. Saí do carro me sentindo poderosa com os cabelos feitos e as unhas cuidadosamente pintadas. A pele estava muito sedosa, resultado da hidratação.
Lisa abriu a porta para me receber.
— Mãe, está linda!
— Filha! Que saudade! – A abracei fortemente. Era muito r**m estar longe de meus filhos.
— Já está pronta, mãe? – Ela entrou me puxando pela mão.
— Quase. E o Binho? – Perguntei olhando ao redor à procura do meu filho mais velho.
— Ele foi buscar o pai.
— Mas já?
— Já está na hora, mãe. Até Fabrício chegar no aeroporto...
— Verdade. Vamos subir então. Podemos nos arrumar juntas. – Falei empolgada como uma adolescente.
— Sim! Vamos. – Ela deu pulinhos e correu escada acima, me proporcionando uma pequena lembrança de quando era apenas uma menina. – Anda, mãe! – Ela chamou ansiosa.
— Estou indo!
***
Foi um momento único com minha filha: O banho, a maquiagem, as fofocas... vi os olhinhos de Lisa brilharem ao falar de um “amigo” da faculdade e já sabia que em breve teria um genro.
Uma hora depois estávamos lindas. Elisa em seu vestido azul claro, e eu em meu vestido branco com estampa floral delicada. Analisamos uma última vez frente ao espelho como se posássemos para uma foto, e satisfeitas com o resultado final, descemos as escadas.
Jô já havia posto a mesa do jantar, que parecia tão lindo quanto delicioso. Fabrício ainda não havia chegado com o pai, mas depois de alguns minutos sentadas no sofá, a espera terminou.
O som do carro se aproximando pela pequena estrada de pedras que levava até o portão de nossa casa, nos fez parar a conversa e um sorriso se espalhou pelo rosto de minha menina. Dava para ver a saudade do pai estampada em seus olhos luminosos, e isso trouxe novamente em minha memória momentos de sua infância. Elisa sempre sentia falta do pai, e sempre o perdoava por ter demorado tanto, se distraía com facilidade. Fabrício agia diferente: Ficava dias emburrado com o pai por algo que perdera, por não ter estado com ele quando ele o queria por perto, e apenas depois de alguns dias, muitas promessas, que na maioria das vezes não eram cumpridas, e muitos pedidos de desculpas, ele se rendia a Leonardo. E pelo visto hoje não seria diferente, mesmo que as crianças não fossem mais crianças.
Assim que Leonardo atravessou a porta da sala, Elisa se jogou em seus braços com um estrondoso “PAI”. O beijou milhares de vezes e ele sorriu aquele sorriso encantador e lhe deu um beijo na testa assim como fazia quando ela tinha dois anos de idade. Já Fabrício apareceu logo atrás puxando uma mala de rodinhas, e o rosto avermelhado. Passou ao lado do pai, depositou a mala próximo ao sofá e me olhou com seus lindos olhos azuis. Meu filho era lindo. Abriu um sorriso ao me ver e veio me abraçar.
— Tanta saudade, filho! – O abracei com vontade.
— Também, mãe. A senhora está linda.
— Obrigada. Você está ainda mais bonito. – Disse com meu sorriso orgulhoso de quem diz: “Fui eu quem fiz.” – Como foi com seu pai? Seu rosto não me pareceu muito feliz. – Ele suspirou e podia jurar que vinha bomba.
— Sabe como ele é, mãe... – Ele começou, mas teve que parar quando ouvi a voz de meu marido me chamar.
— Rebeca, meu amor, não está com saudades de seu marido? – Ele se aproximava e eu dei passos em sua direção, o abraçando e o beijando.
— Eu estava com tanta saudade! – Falei. Mergulhei meu rosto no vão de seu pescoço para sentir seu perfume.
— Também, meu bem, não sabe o quanto.
O beijei mais uma vez e o puxei pela mão em direção à mesa de jantar.
— Preparamos uma pequena recepção. – Disse sorridente.
— Que cheiro maravilhoso. – Ele disse sorrindo. Tão lindo, meu marido. Lindo e tão distante. Adoraria tê-lo por perto mais vezes. Ele se virou para mim e pareceu perceber minha tristeza. – Ah, meu amor, não fique assim. – Ele veio me abraçar novamente. – Você está tão linda! – Ele pegou em dos meu cachos e aproximou do nariz. – E cheirosa. – Tenho um presente para você, mas darei depois do jantar, estou com muita fome.
O jantar foi agradável. Eu o admirava o tempo todo: seu porte elegante, os cabelos castanhos claros, seus olhos verdes... ele era lindo e maravilhoso, mas há muito tempo que não o sentia como meu marido. Ele se ausentava tanto, que me habituava a seu sumiço.
Fabrício continuou emburrado, o rosto ficava vermelho sempre que ele falava de trabalho. O olhava de lado em vários momentos e eu imaginei que tivesse um pouco mais do que a irritação de sempre. Elisa, no entanto, sempre sorrindo e conversando à vontade com o pai.
— Bem, agora é a hora dos presentes. – Ele se levantou da cadeira, terminando de retirar a gravata que já havia afrouxado.
— Eu vou nessa. – Binho se levantou, me beijou e se dirigiu para as escadas que levavam para o andar de cima. – Boa noite, Pai. – Disse sem o olhar.
— Fabrício! – O chamei, mas ele continuou andando.
— Deixa ele. – Disse meu marido. – Ele sempre foi assim, deveria estar acostumada.
Léo foi até a mala de viagem, a abriu e retirou dois pacotes de presente. Sorrindo, ele entregou um a mim e outro a minha filha. Elisa sorriu como criança e correu para se sentar e abrir o presente. O meu nem precisava abrir pra saber o que era.
— Não vai abrir?
— Já sei o que tem aqui. – Respondi meio triste.
— Querida, por favor, acabei de chegar. Já são tantos anos, deveria ter se acostumado. – Ele se aproximou, passou para as minhas costas, segurou meus cachos e os levantou. – Abra a caixa!
Abri como ele pediu ou mandou, era difícil ter certeza com o tom que ele usou. Um lindo colar dourado com um pingente em formato de coração que sustentava um rubi, surgiu em minha frente. Eu tinha tantos rubis em meu cofre. Assim como safiras, esmeraldas, diamantes, pérolas...
Sabia que ele esperava que eu aproximasse a caixa para que ele pudesse pegá-la.
— Segure, meu amor. – Ele trouxe meus cachos para o lado, e eu os segurei.
Ele pegou o colar e o colocou em meu pescoço. Retirou meus cabelos de minhas mãos e os soltou novamente. Então ele veio até minha frente com o par de brincos, que eram como o pingente. Os peguei de suas mãos e os coloquei, substituindo os que usava anteriormente.
— Linda! A mulher mais linda! – Ele me elogiou me admirando. Era bom ser admirada pelo homem que ama, mas tudo o que eu queria era ele, só ele. Mas tudo o que eu ganhava, sempre eram joias.