Parte I - Capítulo 2

1439 Words
Tentei andar como se tudo estivesse na maior normalidade possível, mas não estava, nem um pouco. Tentar ignorar a presença daquele homem era impossível, e as risadas das garotas só pioravam a situação para mim. — Amiga, você está vermelha e não é do Sol, não deu tempo. – Maria disse, rindo da minha cara. — Acho que sua situação está realmente r**m. – Alice acompanhou as risadas da outra e eu não sabia onde enfiar a cara. — Melhor dar um mergulho para refrescar os ânimos! – Maria falou arrancando a canga enrolada em sua cintura e mergulhou na piscina, parecia uma sereia. Mergulhou fundo e surgiu do outro lado da piscina. Cretina. – Vem, a água está uma delícia! – Ela gritou dando ênfase a palavra. A cachorra tinha ido parar bem ao lado de onde o professor dava aula. Essa não tinha jeito mesmo. — Maria! – Falei a repreendendo, mas a mulher só sabia rir. Alice se acabava de rir acomodando-se na cadeira de praia. — Vai lá, Beca! Tá esperando o quê?  Mas eram duas ardilosas mesmo. — E você, Alice, está esperando o que? – Tinha que alfinetar a galinha, ela não sabe nadar e morre de medo de água. Ela me mostrou o dedo do meio e na maior pose de modelo que ela tinha, acomodou-se na cadeira para assistir ao “show”. Mergulhei o melhor que conseguia, com certeza não era a “sereia” que Maria era na piscina, nem tem como competir com uma ex-nadadora olímpica, mas fiz meu melhor e cheguei até a metade da piscina em meu mergulho. Terminei de me aproximar, já a cumprimentando com um beliscão na b***a. A s****a se afastou rindo. — Vai me agradecer, amiga. – Ela falou e do nada soltou uma gargalhada altíssima como se eu tivesse contado a maior piada do mundo. Olhei para o lado e éramos o centro das atenções, inclusive do professor gato. Ele levantou os óculos e nos olhou com diversão. p**a m***a, esse homem não existe, até seus olhos eram lindos. O cara tinha os olhos verdes mais lindos que já vi, e ainda piscou para a minha cara que deveria estar um tomate. Eu ia m***r a Maria. Ela me abraçou fingindo cessar sua crise de riso. Os olhares começaram a se desviar, mas o olhar dele sobre mim permaneceu por mais alguns segundos, que pareceram horas para mim. Senti meu corpo queimar sob o seu olhar, realmente as coisas não estavam boas para o meu lado, se eu me derretia toda por um cara estranho qualquer. Ele recolocou os óculos e o encanto acabou, acordei do transe. — Agora o show vai começar! – Exclamou minha amiga que estava com seus dias de vida contados. Da posição que estávamos na piscina, realmente tínhamos uma visão privilegiada do professor gostoso. A música animada tocava e os idosos se agitavam no ritmo da música com seus bastões, pesinhos e elásticos. E conduzindo-os, o professor abaixava, se inclinava, demonstrava os movimentos que os idosos deveriam fazer e isso fazia seus músculos saltarem. Não tinha como negar, era um show. Que durou cerca de quarenta minutos e acabou. — Acabou o show, Maria. – Disse me movendo para começar a sair da piscina, mas Maria me segurou. — Acabou não, querida. Ela acabou de falar e o homem veio correndo, se jogando na piscina como uma criança, espalhando água para todos os lados. Ao invés de subir, ele permaneceu no fundo e nadou submerso até nós. Surpreendeu-me ao surgir na minha frente e se apresentar. — Marcos. Prazer em te conhecer. – Ele estendeu a mão e eu a apertei. — Rebeca. O prazer é meu. – Ele beijou minha mão e educadamente apertou a mão da minha amiga que também se apresentou. Ele mergulhou novamente e nadou até a outra extremidade da piscina e saiu. Que homem lindo, e que olhar intenso, que boca... — Isso foi novidade! – Disse minha amiga. — Achei que ele sempre mergulhasse no final da aula, você parecia saber que ele faria aquilo. — Mergulhar, sim. Cumprimentar, não. Ele nunca fez isso, não comigo aqui. Acho que ele gostou de você. Ela disse com seu sorriso malicioso. — Sou casada, Maria. Sou casada. – Afirmei e me virei para a borda, saindo da piscina. Eu era casada, e por mais que ele fosse lindo, eu tinha que me lembrar disso. Quando cheguei em casa já passava das 17h. Confesso que minha filha tinha razão, conversar com as duas peruas e dar risadas foi maravilhoso, mas chegar em casa e me ver novamente sozinha naquela casa enorme, trouxe toda a melancolia de volta. Fui até o banheiro e tirei meu maiô para um banho rápido. Enquanto esfregava os cabelos para tirar o cloro da piscina, me lembrei de como era bom ter meus filhos em casa. Quando eram pequenos eu não podia nem mesmo tomar um banho, e eu me sentia cansada e irritada com isso, mas agora eu sinto tanta falta. Sinto a casa tão vazia. Sinto que minha vida perdeu o propósito. Quando eu dançava me sentia livre, as horas voavam durante os exercícios e os ensaios e até mesmo do nervosismo da apresentação senti falta quando tudo foi tirado de mim. O que restou para mim nos dias atuais? Nada. Absolutamente, nada! Nem o balé, nem meus filhos, muito menos meu marido que parece ter se esquecido que tem uma esposa. Senti uma lágrima escorrer, e lá se foi a animação do dia. Encerrei meu banho, que deveria ter sido mais rápido, me envolvi no roupão branco e felpudo e saí do banheiro. Fui direto para a cozinha comer algo. Não tinha motivos para me aprontar, faria isso para quem? Jô, minha ajudante, colocou um prato com um sanduíche e um copo de suco de frutas que ela tinha preparado enquanto estava no banho. — Tudo bem com a senhora? – Jô perguntou. — Tudo bem sim, obrigada por se preocupar. – Comecei a devorar o lanche, estava cheia de fome. — É que sei que está sendo difícil para a senhora encarar a casa vazia, acredite, eu também sinto falta deles. – Seus olhos escuros pareciam saudosos. Jô trabalhava na casa desde sempre, ela acompanhou o crescimento dos meus filhos. — Está sendo difícil sim, Jô. – Suspirei, sentindo-me cansada. Ouvi meu telefone tocar na bolsa. – Pode pegar meu telefone na bolsa, Jô, por favor? Ela fez o que lhe pedi. Quando o peguei vi duas chamadas perdidas de Elisa. Imediatamente liguei de volta. — Aconteceu alguma coisa? – Perguntei assim que ela atendeu. — Eu que pergunto. Demorou tanto pra atender, não me diz que estava dormindo outra vez. — Não, filha. Fui ao clube, me diverti e voltei pra casa, agora estou na cozinha lanchando. — Ah, que bom. Como foi no clube? — Bem. Conversei bastante, coloquei as fofocas em dia, você nem vai acreditar no que Maria disse, mas deixa pra quando você vier para casa. – É claro que não falaria do homem maravilhoso que vi. — Agora fiquei curiosa, ainda bem que vou pra casa quinta-feira. — Quinta? Não tem aula na sexta? — Bem mamãe, eu te liguei pra te contar a novidade, e é por causa dela que vou m***r a aula de sexta. Papai me mandou um e-mail avisando que chega quinta-feira à noite. Então Dona Rebeca, prepare um jantar que teremos o papai de volta. Era para ser maravilhoso receber meu marido em casa depois de uma longa viagem, mas já estávamos tão distantes que já não tinha o mesmo sabor, a mesma empolgação. Mas um pequeno detalhe me chamou a atenção. — E-mail? Seu pai mandou um e-mail pra avisar que está voltando? — Ah mamãe, sabe como ele é. Provavelmente estava mandando e-mails para os assessores, fornecedores, ou advogados, sei lá, e se lembrou e resolveu mandar e-mail para nós também. — Como se fôssemos a mesma coisa. – Resmungo. — Não começa, mamãe. Você sempre reclama que ele não está em casa, que some por meses, aproveita que velho vai estar de volta. Sai pra jantar... arruma um programinha a dois. — Pode ser, filha, e Fabrício, já falou com ele? — Já. Ele vai também, vou ganhar carona, então não precisa se preocupar em me buscar. Aproveite o dia pra cuidar da pele, essas coisas que a senhora ama, e ficar ainda mais linda. A empolgação da Elisa estava me contagiando, e comecei a sorrir conforme ela falava. Talvez dessa vez fosse diferente, talvez ele ficasse mais tempo comigo.
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