Quando cheguei em casa me vi em meio a uma grande sala. Sozinha. Todos os móveis arrumados e limpos, nada fora do lugar. Respirei fundo e me sentei no sofá espaçoso demais e liguei a TV. Nada me agradava. Um jornal daqueles sensacionalistas estava passando. Não gosto.
No próximo canal, um programa de cozinha. Não sei cozinhar, e nunca quis aprender também. Pulei para o próximo.
Uma novela com um casal perfeito e invejosos ao redor, não consegui assistir dez minutos, mas dessa vez eu não pulei, desliguei mesmo.
Levantei-me do sofá e segui para as escadas de mármore impecável que levavam ao segundo andar da casa. Mais uma vez o silêncio imperava. Olhei as portas pareadas, fechadas. Uma delas já estava fechada há mais de um ano, e a outra faria companhia a ela.
Não me permiti pensar naquilo mais do que já vinha pensando e segui para meu quarto.
A grande cama arrumada e Lu deitada sobre ela. Pelo menos eu tinha a companhia da gata, que ao ouvir o som de meus passos, levantou levemente a cabeça e me direcionou os olhos sonolentos. Sentei-me ao lado da gata acariciando seu pelo branco macio.
— Seremos só nós agora. – Eu disse a ela, que ronronou com a carícia.
Ao menos eu não estaria totalmente sozinha. Tomei um remédio para me ajudar a relaxar e deite-me para descansar, só um pouquinho.
Um som que levaria qualquer um a loucura me tirava do sono. A cabeça latejava, eu deveria ter tomado remédio demais. Como uma adolescente não querendo levantar para a escola, eu coloquei o travesseiro sobre meu rosto, o que não funcionou muito.
O barulho cessou e pensei que voltaria a dormir, quando o barulho infernal voltou a soar.
Joguei o travesseiro com fúria na parede e já me preparava para fazer o mesmo com o responsável pelo som, quando vi que era a quarta chamada de minha filha. Seu rosto bonito brilhava na tela. Eu jamais ignoraria uma ligação de meus filhos.
Milhares de coisas começaram a passar em minha cabeça. Todas as possibilidades ruins que poderiam acontecer: Acidente, doença, amigas ruins, coração partido, carro quebrado, acidente... ai meu Deus, um acidente. Atendi o telefone.
— Filha, o que aconteceu?
— Calma mãe. Nada pegando fogo, eu estou bem, não estou doente e nem sofri acidente. – Respirei aliviada.
— O que aconteceu? – Perguntei.
— Nada demais, mãe, não posso me preocupar com você? Tomou calmantes, não foi?
— Não, claro que não. – Me levantei olhando para o relógio na parede. d***a, já eram uma hora da tarde.
— Ah, mãe. Conta outra, vai. A essa hora da tarde e ainda dormindo? Mesmo que as horas dirigindo de volta fossem exaustivas, não seria o suficiente para te derrubar por tanto tempo. Confessa!
Não tinha como esconder nada daquela menina, ela me conhece. Recomendou-me um milhão de vezes que eu não tomasse um calmante, mas ela mesma sabia que eu tomaria assim que desistisse de fazer qualquer outra coisa.
— A senhora precisa ocupar seu tempo, sabe. – Ela falou. – Por que não procura uma academia? Frequente mais o clube.
Apoiei o telefone entre o rosto e o ombro e fui procurar algo na gaveta para vestir.
— Academia? Ah... acho que não tenho pique para essas coisas.
— Mãe, sei que fazia balé quando era jovem, por que não tenta uma aula de dança?
— Vou ver.
— Mas vai mesmo tá, eu vou cobrar.
— Sim senhora. – Respondi.
Ela riu, e aquele som me trouxe lembranças. Quando a casa tinha crianças correndo e gritando e rindo e chorando... eu achava que ia ficar louca, mas não sabia que o silêncio era pior. Muito pior.
Talvez a sugestão de minha filha fosse algo bom.
— Mãe? Tá aí ainda? – Vaguei tanto em minhas memórias que esqueci de minha filha na linha.
— Estou sim, filha. Pode falar.
— Quer que eu volte?
— Não filha! Não vai parar a sua vida por causa de uma velha chata como eu.
— Você não é velha e não é chata. Preciso ir. Vai ficar bem?
— Vou sim querida, só preciso me acostumar.
— Tudo bem então, se precisar grita!
— Obrigada por se preocupar, meu amor.
— Vai fazer alguma coisa para ocupar seu tempo, vai.
— Eu vou.
— Tchau mãe! – Ela mandou um beijo estalado pelo telefone e desligou.
Olhei para a roupa que tinha pegado. Um vestido de algodão branco, perfeito para ficar de preguiça em casa o dia todo. Mas resolvi ouvir os conselhos da minha filha. Olha só como as coisas são: agora quem dá conselhos é ela! Ri com meu pensamento e guardei o vestido.
Procurei por um maiô, eu ia aproveitar o Sol lindo que brilhava lá fora.
Já vestida, peguei minha bolsa com meus pertences e desci.
— Senhora Rebeca, o almoço está pronto. – Minha ajudante falou.
— Obrigada Jô, mas vou almoçar mais tarde.
— Sim senhora. – Ela voltou para a cozinha e eu saí de casa.
Peguei meu carro e dirigi até o clube. Era muito perto, nem dez minutos dirigindo.
As peruas que ocupavam o cargo de amigas estavam lá. A gargalhada da Maria era tão alta que da entrada podia ser ouvida.
— Olha quem resolveu sair da toca. – Ela disse assim que me viu.
— Boa tarde pra você também, sua m*l educada. – Respondi.
— Deita aí, vem queimar esse lombo branco.
— Você está bem, Beca? Está com uma cara meio abatida. – Disse Alice, que estava deitada ao lado de Maria.
— Estou. – Coloquei minhas coisas na cadeira ao lado dela e comecei a me despir.
— Não parece.
— Acabei de deixar minha filha na faculdade, não estou lidando bem com a casa vazia.
— Pense no lado bom: quando o maridão chegar de viagem, terão a casa só pra vocês dois. – Disse Alice. Me deitei na cadeira, coloquei os óculos escuros e levantei meus cabelos loiros para não grudarem na pele com o suor.
— Esse é o problema, Alice, meu marido não chega de viagem já tem seis meses e da última vez que isso aconteceu, m*l nos tocamos. Ficou somente uma semana antes de sumir outra vez, e todos os dias estava cansado.
—Xiii amiga... – A escandalosa da Maria falou. – Tá dando bobeira, faz igual a mim: se seu marido não faz o trabalho dele, arrume quem faça. – E gargalhou até chamar a tenção de qualquer um que estivesse a pelo menos cem metros de distância.
Acabei rindo das suas loucuras, mas eu não era como ela. Ela era uma mulher linda, toda sexy, inteligente e sorridente. Enquanto eu era uma magrela com a barriga flácida.
— Não sou como você, Maria, eu simplesmente não consigo.
— E você acha que ele está todo esse tempo sem s**o, como você? – Ela se inclinou na cadeira para me olhar, e seus olhos negros me fuzilaram. – Você sabe a resposta, nem precisa dizer. Faça o mesmo, mulher. Jonas não viaja, mas sai cedo e chega tarde todos os dias... – Ela voltou a se deitar confortavelmente, arrumando seus cabelos cacheados. – Sempre dizia que estava cansado, então passei a função dele para o motorista. Simples! – Solucionou tranquilamente.
— O motorista? – Falei chocada. Ela riu. – Acho que prefiro me separar, se for o caso. Não conseguiria sustentar uma relação assim.
— E deixar tudo pra outra, bobinha? Nunca!
Alice que só assistia as loucuras da nossa amiga, ria a todo momento, até que finalmente falou:
— Acho que a aula da terceira idade já começou. Vamos? – Ela disse olhando o relógio e já se levantando e pegando a bolsa.
— Vocês fazem aula de terceira idade? – Agora foi a minha vez de gargalhar.
— Amiga, quando ver a aula você vai entender. – Maria disse.
As segui complemente incrédula, até a beira da piscina, onde era dada a aula para terceira idade no clube. Mas quando chegamos entendi completamente. O interessante não era a aula, mas sim quem a conduzia.
O professor parecia ter saído de um filme, ou uma revista de homens gostosos. Era musculoso na medida certa, alto, cabelo escuro curto, usava um óculos escuro que o deixava muito sexy com aquele sorriso de propaganda de pasta de dente, e pra acabar comigo de vez, ele estava usando apenas uma sunga preta.
Travei no lugar, as garotas começaram a rir.
— Eu vou embora. – Disse baixinho.
— Mas por que, amiga, nem viu o show ainda. – Disse Maria.
— Tem ideia do tempo que eu estou sem .... – Nem precisei terminar a frase. Elas agarraram a minha mão, me incentivando a avançar. Era hoje que eu morreria do coração.