Capítulo 2

1240 Words
Kate Praguejando mentalmente, saio da sala antes que qualquer um dos dois perceba exatamente o quanto estou perturbada. Aquele infeliz fez de propósito! Ele sabe que a essa hora eu estou trabalhando, e mandou a mensagem só para me atrapalhar. Para me expôr. Para me amedrontar. Não lanço mais que um breve olhar a Rafaela antes de ir direto para a sala de café. Na tela do celular tem uma foto minha, que eu preferia morrer do que alguém ver, com a legenda: 'estou aqui relembrando nossa deliciosa noite. Talvez eu queira repetir a dose.' Meu estômago embrulha ao sequer pensar nisso, minha pele ficando arrepiada, tanta a repulsa que sinto por ele. Elliot Sanders era uma praga. Um verme nojento, e não havia nada na vida que eu quisesse mais do que me ver livre dele, para poder seguir em frente, apagando o que aconteceu entre nós. Sento no pequeno sofá e começo a digitar, os xingamentos fluindo com facilidade. Estou tão frustrada! Queria poder mandá-lo para o inferno, mas não posso, e isso esta acabando comigo. Mas antes que eu possa enviar a resposta, a porta se abre e Christopher esta ali. Merda! Merdamerdamerdamerda. Christopher Do lado de fora da sala não vejo nem sinal de Kate. Vou até a mesa de Rafaela, que parece entender na hora que estou procurando a outra jovem, porque aponta para uma porta que dá para uma sala de café com vista para a cidade. Abro a porta e vejo que Katherine esta sentada no sofá, digitando furiosamente no celular. Ela se sobressalta ao me ver, escondendo a tela do aparelho contra o peito por reflexo. Respiro fundo, escolhendo que abordagem seguir, e então me aproximo dela devagar, deixando os ombros e as mãos relaxadas. Seus olhos estão ligeiramente arregalados enquanto observa como me sento ao seu lado. Espero alguns instante antes de começar a falar. — Não precisa se preocupar. Não vou fazer nada, só quero que me diga o que esta acontecendo. — Minha voz é calma e suave, e tento ao máximo lhe passar segurança. — Eu não sei do que você esta falando. — Ela responde. Sua voz falha, e Kate franze a teste, pigarreando de leve. — Estou com um problema na família, precisava responder a mensagem. Só isso. Nós nos encaramos, eu sabendo que ela esta mentindo, e ela sabendo que eu percebi a mentira. Mas Katherine aperta os lábios, me encarando com teimosia. A expressão é tão adorável que, apesar de minha preocupação, sorrio de leve. Ergo minha mão e toco na sua com as pontas dos dedos, apenas um leve roçar. Sua pele é macia, mas esta fria, e eu quero envolvê-la, aquecê-la, mas sei que não posso. — Por favor, Kate. Eu quero te ajudar. É ele, não é? — Pergunto, e a forma como engole em seco responde mais que qualquer palavra, então continuo falando. — Seja lá o que ele estiver fazendo, eu posso te ajudar, eu juro. Sua expressão se torna frágil, como se ela pudesse começar a chorar a qualquer momento, e isso faz meu peito apertar. Ali, naquele exato momento, parecendo tão pequena e vulnerável, nunca a achei mais tentadora; mais desejável. — Eu não posso. — Ela sussurra, abaixando a cabeça. — Por favor, não insista. Eu não posso contar. Há medo verdadeiro em suas palavras, e minha preocupação cresce. Considero insistir, mas já vi aquela teimosia estampada em seus olhos antes, e sei que não vai adiantar nada, então envolvo seus dedos e aperto ligeiramente. — Hey. Tudo bem. — Também sussurro, e Kate ergue os olhos para os meus. — Eu vou deixar um cartão com você, e se mudar de ideia, a qualquer hora, qualquer uma mesmo, pode me ligar. — Pego o pequeno quadrado no bolso e lhe entrego. Ela fica olhando as letras rebuscadas, e aproveito para me levantar e ir até a mesa que fica num dos lados da sala, recostada contra a parede. Lhe sirvo um copo d'água e trago de volta. Katherine bebe de uma vez, e percebo que, mesmo com as minhas tentativas, ela ainda esta muito abalada. Voltamos para a sala de reunião, e com mais um pedido de desculpa para Melanie, Kate parece recobrar a compostura. Mas ainda assim, de tempos em tempos, lanço olhares disfarçados para ela, tentando ver se mais alguma emoção escapa a sua fachada. Depois de me despedir de Mel e garantir que daria um jeito de resolver aquela situação o mais rápido possível, vou direto para casa. *** Meu apartamento não fica muito longe, e depois de guardar o carro no estacionamento, subo direto para meu andar. Assim que entro, tenho a sensação de tirar um peso das costas. Estar no meu espaço, num lugar que é só meu, sempre me faz bem. Deixo a maleta no sofá e vou para meu quarto, com o intuito de tomar um longo banho, a cabeça ainda girando com o que aconteceu hoje na Calidge Corp. Imagens de Katherine trêmula e assustada me pedindo que não a pressionasse deixam um gosto amargo em minha boca, e ter que esperar e torcer para que ela resolva pedir ajuda me faz querer quebrar alguma coisa. Eu não entendia direito o porquê, mas desde a primeira vez que coloquei os olhos nela, há quase quatro meses, algo mexeu comigo. Não era só por ela ser linda, ou por obviamente ser inteligente e muito competente. Apoio as mãos na parede e deixo a água quente bater em minhas costas. Respiro fundo, tentando entender o motivo de eu estar tão incomodado, tão preocupado. E sim, tão contrariado por ela não ter me contato. Eu queria que Katherine confiasse em mim. Queria que ela tivesse vindo me contar e pedir ajuda. Queria… queria coisas que simplesmente não podia querer. Desligo o chuveiro e enrolo uma toalha na cintura, voltando para o quarto. Sem sequer me dar ao trabalho de pôr uma roupa, sento na cama e ligo meu computador pessoal, o que eu deixo ali para assuntos que não tenham nada a ver com trabalho. Digito um e-mail para um amigo, pedindo que entre em contato comigo. Jonathan é uma figurinha difícil, que mexia apenas com invasão de sistemas e coisa pior. Mas na época da universidade eu o ajudei a se livrar de uma acusação por invadir o site da escola e mudar as notas de alguns alunos, então ficamos amigos. Eu não iria contar pra ninguém, é claro, mas mais de uma vez os talentos dele me ajudaram a resolver alguns casos complicados. Nem cinco minutos depois meu celular toca, exibindo 'número restrito' na tela. — Hey, Jonny, foi rápido dessa vez. — Comento, e ele ri do outro lado da linha. — Eu sempre sou rápido. O que eu posso fazer por você? — Ele responde, a voz bem humorada. Em poucas palavras explico a situação com Sanders, fazendo-o assobiar. — Eu quero qualquer coisa que mostre que ele esta fora da lei. Mesmo que eu não possa usar com o júri, eu quero material pra cavar por conta própria. — Concluo. Jon pensa um pouco, até que com um simples 'certo', encerra a ligação na minha cara. Balanço a cabeça, enquanto olho o celular. — Tchau pra você também. — Murmuro. Escolho uma roupa confortável para ficar em casa o resto do dia, e me acomodo na mesa da cozinha com um bule de café e uma pilha de papéis. A tarde passa rápido, e só quando minhas costas começam a reclamar encerro meu expediente.
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