Kate
Não consigo deixar de suspirar aliviada quando por fim noto que já é hora de voltar para casa. Apesar de como começou, e da maldita mensagem, consegui relaxar lá pelo horário do almoço, e a tarde foi calma. Melanie acabou de sair da sala para ir falar com o marido, e enquanto isso vou juntando as minhas coisas.
Apesar de pouco tempo, este sem dúvida é o melhor emprego que já tive, e não apenas por ser algo estimulante e muito bem pago, mas porque faz eu me sentir realizada. Acolhida. Melanie Calidge era uma das mulheres mais impressionantes que eu já conheci, e poder conviver e aprender com ela tornava tudo ainda melhor.
No caminho para casa, faço uma parada rápida no mercado, mas depois sigo direto. Apesar de convites de algas conhecidas, eu raramente saio a noite pelo simples fato de que adoro minha casa. Cada economia, cada momento livre foi dedicado a decorá-la e deixá-la exatamente como eu queria. Era meu lar, minha pequena toca. O lugar em que eu podia abaixar a máscara firme e profissional que mantinha erguida na maior parte do tempo e ser... Eu. Apenas eu.
Então quando estaciono o carro e vejo que minha porta esta entreaberta, meu coração dispara e minhas mãos tremem. Eu sei, com toda certeza do mundo, que não era para a minha porta estar aberta.
Desço do carro correndo, sequer me importando quando bato a porta, e vou para minha entrada. Paro no batente, e a visão que tenho me rouba o fôlego, sumindo aos poucos enquanto as lágrimas vão se acumulando nos meus olhos.
Não aguento. Não consigo mais, eu simplesmente preciso que mais alguém saiba, que me ajude a carregar aquilo. Porque ver tudo que lutei para conseguir destruído, percebo que sozinha não vou conseguir.
E é quando a voz dele volta à minha mente 'a qualquer hora, qualquer momento'... Pego o cartão que Christopher me deu mais cedo, e esfregando as lágrimas para longe, olho o número mais uma vez. E sem me permitir pensar demais, pego meu celular e começo a discar.
Christopher
Estou terminando de comer um sanduíche quando meu celular toca de novo. Olho a tela e não reconheço o número, mas atendo mesmo assim.
— C… Christopher? Po…por favor. Eu n…não sei o que fazer — Congelo ao ouvir a voz de Kate, obviamente chorando.
— Diga aonde você esta, que vou buscá-la imediatamente. — Digo, não perdendo tempo com perguntas bobas.
Ela me dá um endereço, e já estou com a chave do carro na mão.
— Por favor, venha rápido. Estou com medo de ele voltar. — Ela sussurra.
— Tente achar um lugar para me esperar, eu chego aí em dez minutos. Estou indo, vai ficar tudo bem. — Falo com a voz tranquilizadora, enquanto o elevador chega ao estacionamento.
A ligação cai, e entro no carro, pisando fundo no acelerador.
Quando estaciono o carro em frente à casa, a primeira coisa que noto é a porta aberta, meio torta. Antes de descer do carro, pego o taco de baseball dos tempos de escola, e então vou para lá, preparado para derrubar aquele desgraçado, se ainda estivesse ali.
Mas assim que passo pela porta, a única que vem me encontrar é Kate. Seu rosto esta vermelho e lavado de lágrimas, e sequer presto atenção ao lugar quando passo meus braços ao seu redor. Ela se deixa recostar contra mim, e por cima de sua cabeça observo o ambiente.
Parece que um furacão passou por ali, e fico sem saber como reagir por um instante.
— E..ele destruiu tudo! — Katherine parece em desespero quando se afasta e também olha para sua casa. — Tudo que eu tinha! Minhas coisas, minhas roupas! — Outra cascata de lágrimas corre, e por reflexo as afasto.
Ela ergue os olhos para mim, e vejo o quanto ela esta abalada por ver seus pertences destruídos. Eu entendo seu sentimento, voltando a abraçá-la. Os sofás estavam cortados, os enfeites foram jogados no chão, a mesinha parecia ter sido atirada contra parede.
— Shhh. Eu sei. Vamos sair daqui, aí você me conta tudo. — Sussurro em seu ouvido.
Kate olha sua mobília em pedaços, e com expressão consternada concorda com a cabeça e me deixa guiá-la para fora. Deixo-a parada esperando ao lado do carro, enquanto endireito a porta o melhor que posso. O resto ainda esta trancado, e qualquer um que olhar vai ver a fachada de uma casa trancada para a noite.
Abro a porta do carro e ela entra, olhando com tristeza para sua casa, que ficou com a luz de fora apagada, e parece imersa em sombras em comparação com os outros prédios da rua.
Dou a partida e nos afastamos, mas não muito. Vejo um bistrô com mesas externas afastadas umas das outras, e me parece o lugar perfeito para eu levá-la: aberto e calmo, o oposto do caos que sua casa se tornou.
Peço dois cafés e nos sentamos. Dou-lhe tempo para se acalmar, observado como ela seca o rosto e tenta se recompor o melhor que pode. Mas sua expressão ainda esta entristecida, e quero lhe tocar, encontrar uma forma de reconfortá-la. Mas me contenho. A última coisa que Katherine precisa é de alguém invadindo seu espaço.
O garçom traz o pedido e se afasta, e com mãos trêmulas ela pega a xícara e toma um pequeno gole da bebida quente. Kate então ergue os olhos para mim, mas parece estar enxergando algo completamente diferente. Fico calado e espero, deixando que ela fale o quanto quiser, como quiser.
— Mais ou menos um mês depois que comecei a trabalhar na empresa, Elliot me chamou para sair. Antes disso apenas trocávamos alguns olhares, um flertezinho leve. — Seus olhos focam em mim por um momento ao dizer isso, e seu rosto cora. Eu sei que o motivo é porque eu e ela temos feito exatamente isso. Minha única reação é concordar com a cabeça, nenhuma expressão. — Eu aceitei. Na primeira vez foram só alguns drinks. Ele foi um cavalheiro comigo, nós conversamos e rimos. Eu contei para uma amiga e ela disse que eu estava sob o encanto da Calidge Corp. e que agora era minha vez de encontrar um empresário lindo e atencioso. — Ela balança a cabeça, como se risse de si mesma, e uno as mãos no colo, sob a mesa, para não tocá-la. — Ele me levou para jantar, e por fim fomos a uma boate. E então eu bebi. Sob sua influência e incentivo eu bebi muito mais do que já havia bebido antes. Se você me perguntar, até hoje ainda não me lembrei totalmente de tudo que aconteceu depois.
Kate pausa, tomando mais de seu café. Sua voz assumiu a cadência de quem conta uma história, e isso deixa claro o quanto ela já deve ter remoído tudo aquilo. E tenho uma péssima suspeita sobre o que ela vai me contar a seguir.
— Elliot me levou para seu apartamento, e transou comigo. — Katherine fala, engolindo em seco. — Eu não fazia ideia do que estava acontecendo, e foi ele quem 'guiou' o ato. — Seu rosto assume um tom brilhante de vermelho, e a vergonha parece emanar de seus poros. — Eu nunca havia feito nada assim antes, eu… — Ela continua, e há um certo tom de súplica em sua voz.
Balanço a cabeca em negativa e a impeço de continuar.
— Mesmo se tivesse feito, não haveria nada de errado. Você é uma mulher livre, jovem e linda, e não é nenhum crime querer aproveitar sua independência. — Falo com franqueza.
A raiva que sinto nada tem a ver com ela ter saído com ele. E mesmo que uma parte minha esteja decepcionada por não ter sido eu a ganhar essa chance, sei que é uma opção dela, e jamais a condenaria por isso.
Ah, não. A minha raiva vem do quanto ele foi canalha ao se aproveitar de sua vulnerabilidade. Se ele não tivesse feito mais nada, só por isso eu o faria pagar.
Observo Kate, me dando conta de que, enquanto me distraía jurando vingança em pensamentos, ela me estudava com atenção, e agora parecia mais tranquila. O que isso significava? Que ela achava que eu iria julgá-la de alguma forma?
Ela se importava com a minha opinião?
— Na manha seguinte eu me sentia horrível. Nós não saímos de novo, porque eu definitivamente não queria repetir a dose. — Kate volta a falar, seus olhos se afastando de mim. — No começo ele pareceu aceitar bem meu afastamento, e se limitou a ser cordial quando nos esbarrávamos. O tempo passou e eu deixei isso de lado, escolhi afastar a memória r**m.
Depois de mais uma pausa, em que ela passa os braços ao redor de si mesma, sua expressão ficando infeliz, Katherine então fala.
— Uma semana antes de ele ser pego, Elliot me ligou depois do expediente, dizendo que queria me ver, para conversarmos sobre algo muito sério. Eu recusei, mas ele disse que era algo do meu interesse… e também dos meus avós. — Ela engole em seco ao dizer isso. — Na mesma hora concordei. Fomos até um bar, e então ele me explicou que recebeu uma proposta de uma empresa concorrente para passar informações sigilosas. O valor era absurdo. Elliot disse que, se eu o ajudasse passando dados sobre os negócios da Sra. Calidge, ele dividiria o dinheiro comigo.
Cruzo os braços, minha vontade de quebrar alguma coisa voltando com força total. Porque no fundo eu já sabia o que ela iria dizer, conseguia antever sem dificuldades o que estava realmente acontecendo.
— Eu me recusei, é claro. Simplesmente agarrei minha bolsa e estava pronta para largá-lo lá falando sozinho, mas ele me disse para esperar. Pegou o celular e virou a tela para mim. Havia uma foto minha, nua e amarrada na cama, de bruços, e ele montado nas minhas coxas, puxando meus cabelos. — Katherine diz, numa voz baixa e inexpressiva, que mostrava uma agonia e raiva muito maiores do que se ela tivesse gritado aquelas palavras. — Foi como se o chão fosse tirado de sob meus pés. Eu só me lembro de sentar de novo na cadeira e fitá-lo, apavorada, sem conseguir responder enquanto ele explicava como tinha várias fotos como aquela, e algumas gravações também, e que começaria espalhando para meus conhecidos aqui da cidade, e então enviaria tudo para meus avós, caso eu não colaborasse.
E como se não conseguisse aguentar mais, seus olhos se enchem de lágrimas, que começam a correr por seu rosto silenciosamente. E eu também não consigo me aguentar mais e as afasto com as pontas dos dedos.
— Esta tudo bem. Já deduzi o resto. — Falo baixinho, e Kate concorda com a cabeça. — Nós vamos dar um jeito nisso, não se preocupe.
— Como? — Ela pergunta, desesperada. — Eu não me importo com a opinião da maioria das pessoas, mas não posso dar um desgosto como esse para meus avós, eles são tudo que eu tenho.
— Eu garanto que eles não vão receber nenhuma dessas imagens. E antes que Sanders sequer se dê conta, vai estar na cadeia, onde não poderá mais lhe fazer nenhum m*l. — Minhas palavras são tão acertivas, que lhe chamam a atenção.
Nos encaramos por algum tempo, até que Katherine suspira, os ombros descendo, quase num gesto de rendição.
— E como vamos fazer isso? — Pergunta resignadamente.
— A primeira coisa é te deixar em segurança. Você vai ficar comigo no meu apartamento por um tempo, onde posso garantir que ele não faça nenhum novo ataque.
E simples assim, como se eu tivesse acabado de proferir uma grande ofensa ou blasfêmia, ela fecha a expressão, seu corpo de enrijecendo. E sei o que ela vai dizer antes mesmo de pronunciar a palavra.
— Não.