Capítulo 5

1320 Words
Kate Depois de uma semana, consegui captar vários detalhes sobre Christopher, como o fato de que ele, muito provavelmente, não se relaciona bem com a família. Também notei que ele é comilão e tem um senso de humor doce, e às vezes um pouco autodepressiativo. Mas era tranquilo, organizado. Diferente do que eu imaginava ao morar com um homem, mesmo que só como amiga. Era engraçado, mas de fato estava vendo-o como amigo. Lanço um breve olhar sobre o ombro, notando como seus olhos verdes estão concentrados na tela do computador, uma mecha loira caindo sobre a testa. A camisa branca que ele usa está com os dois primeiros botões abertos, mostrando o início do peito, e... Viro para a frente, mexendo na panela de novo, respirando fundo. Amigo. Quem é que eu estava tentando enganar? Como se eu não tivesse ficado horas acordada numa das últimas noites, depois de sem querer vê-lo só com uma toalha na cintura. Ou que coisas pequenas como a forma que ele passa a língua pela boca quando esta comendo não me fizesse imaginar... Droga. Afasto esses pensamentos, me concentrando na comida. E daí que eu vinha me esmerando em tudo que eu preparava? f**a-se, não significava absolutamente nada! Christopher Ergo os olhos, que estavam fixos na tela do computador, quando uma nuvem particularmente cheirosa me atinge, fazendo meu estômago roncar alto. Em resposta, Kate ri enquanto continua mexendo nas panelas. Essa mulher cozinha. Que Deus me ajude, vou acabar tendo que descer o prédio rolando para ir trabalhar. A fome, o cheiro, e olhar seu traseiro para lá e para cá, enquanto ela se move, preparando o jantar, roubam minha concentração, então encerro o trabalho do dia e fecho o notebook, me recostando melhor na cadeira. Faz mais de uma semana que Katherine veio para cá, mas nossa rotina tem sido tão tranquila, que parece que moramos juntos há muito mais tempo. É confortável, muito melhor do que eu jamais teria suspeitado. — Posso te fazer uma pergunta? — Falo, para me distrair. Ela lança um breve olhar sobre o ombro, respondendo um 'claro' despreocupado. — Por que não riu quando eu fiz aquela cena de por a mão no coração e dar a palavra e tudo mais? Era uma bobagem, mas fiquei pensando nisso, talvez por causa de uma experiência passada, que me deixou um pouco amargo sobre o assunto. Kate demora um pouco a responder, finalizando o que quer que estivesse preparando. Ela então se vira, apoiada contra a bancada. Vejo como parece pensar antes de falar, e essa é outra característica que captei de sua personalidade: ela sempre parecia querer ter certeza do que falava, pensando e escolhendo as palavras com cuidado. — Eu não encarei como piada. Eu fui criada acreditando em coisas como honra e palavra dada, então, mesmo sabendo que você disse aquilo para me divertir, foi reconfortante, porque acho que, sendo engraçado ou não, você foi sincero. — Suas palavras têm um tom de simplicidade, uma maneira natural que me deixam impressionado. — Como foi ser criada com valores como esse? — Não consigo deixar de perguntar. — Ótimo e difícil. Ótimo porque me fez sentir segura. Se meu avô me prometesse algo, ou se minha avó me desse sua palavra, eu podia ter toda certeza do mundo de que eles não falhariam. Mas a cobrança era muito maior. Eu precisava pensar antes de falar e agir, e ter certeza de que minhas ações coincidiriam com minhas palavras, para que eu nunca voltasse atrás em meus assuntos e perdesse minha credibilidade. — Kate pausa, mordendo de leve o labio, e seus olhos estão um pouco distantes. — Isso me fez amadurecer cedo, me tornou mais responsável que as outras meninas da minha idade. E ser diferente do resto das pessoas nunca é muito fácil, mas, na maioria das vezes, gratificante. Meu peito incha de orgulho por sua óbvia sabedoria. Eu já sabia que ela era inteligente, mas sabedoria era diferente. A encaro com admiração, e sua expressao muda, parecendo um pouco constrangida. De fato seu rosto fica um pouco mais rosado, e Katherine se vira de novo, voltando a mexer nas panelas. — Minha vez de fazer uma pergunta. — Anuncia, e ergo uma sobrancelha. — Vá em frente. — Autorizo, porque estou curioso sobre o que ela pode querer saber sobre mim. — Por que esperava que eu risse de algo assim? Uh-oh. Respiro fundo, pensando em como falar sobre o que aconteceu. Era uma história longa, mas ela estava sendo franca, e havia algo que me fazia querer contar a verdade. — Uma vez eu fiz esse mesmo teatrinho para uma ex namorada minha, e ela chorou de tanto rir, e depois perguntou se eu era gay. — Faço uma pequena careta ao lembrar da cena toda. Kate fica um tempo sem dizer nada, e traz uma enorme travessa para a mesa. Macarrão em camadas com molho de queijo e brócolis. Minha boca enche d'água só de olhar. — E você é? — Ela pergunta. — O quê? — Retruco, distraído. — Gay…? Ergo os olhos da comida e encontro com os dela, me encarando. Parecem ver por dentro da minha mente, e por um instante esqueço de como responder. O que dizer? Opto pela verdade novamente. — Mais ou menos. — Respondo, sem dar mais detalhes. Surpesa atravessa seu rosto, e ela pega os pratos e talheres, começando a nos servir. — Como assim 'mais ou menos'? Pego o prato com a porção, remexo um pouco com o garfo. Fazia muito tempo que eu não pensava em como descobri que gostava tanto de garotas quanto de rapazes, e a última vez que contei para alguém, resultou na minha saída de casa e na rachadura nos laços familiares que eu tinha com meu pai e meus irmãos. Suspiro antes de responder. — No meu primeiro ano na universidade eu ainda estava envolvido com jogos de baseball e alguns colegas do ensino médio jogavam no time oficial, então eu sempre estava nas festas de irmandade. Meu melhor amigo na época havia acabado de terminar com a namorada, então não estava muito no clima pra comemorações. Numa das festas, roubamos bebida e escapamos para um lugar mais calmo, apenas para beber em paz e conversar. Mas conforme a noite ia passando, fomos nos aproximando mais, e acabamos dando uns amassos. Fazia quase dez anos que isso havia acontecido. Lembro de Henry por um momento, e um pequeno sorriso aparece em meu rosto. — Alguns dias depois nos encontramos sóbrios e falamos sobre o que aconteceu. E foi assim que começamos a sair. Ficamos juntos por quase seis meses, até que a relação se desgastou e preferimos continuar como amigos. É claro que de tempos em tempos acabávamos tendo uma 'noite de recaída', e isso durou até uns quatro anos atrás. — E o que aconteceu para isso acabar? — Kate pergunta suavemente. Mais uma vez encaro seus olhos, e sua expressão esta relaxada, sem um pingo de condenação. Como se percebesse que era isso que eu procurava em seu rosto, ela sorri em encorajamento. — Ele conheceu alguém. Hoje é casado e tem uma filhinha linda. Fui convidado para o casamento e o batizado. — Sorrio ao pensar em Henry. — Estou feliz por ele. Amanda é uma ótima pessoa, eles têm uma vida feliz. Kate parece perceber a sinceridade nas minhas palavras, pois seu sorriso cresce, e há um calor em seu olhar que me aquece todo por dentro. Sua mão esta sobre a mesa, e estico a minha e a tomo, e depois de um momento ela retribui o gesto, entrelaçando nossos dedos. — Katie… — Digo baixinho, me aproximando mais. Mas nesse momento uma batida na porta nos sobressalta, e soltamos as mãos e nos afastamos como se tivéssemos sido pegos no flagra. Nós dois conseguimos ouvir um som de chave sendo girada na fechadura, e um péssimo pressentimento me invade. E quando sons de salto alto soam na sala, levanto rápido. — Benzinho? Surpresa! — A voz feminina afetadamente doce confirma meus piores temores.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD