Sayuri
Hoje eu completo os meus dezoito anos.
Acordo com o sol já alto batendo na janela do meu quarto. Normalmente eu já estaria de pé há horas, mas hoje ele mandou o Vassoura avisar na escola que eu não ia.
“Dia de princesa”, foi o que o Vassoura falou rindo, e eu fiquei vermelha só de imaginar que aquilo tinha vindo dele.
Desço as escadas devagar, de pijaminha curto (aqueles de cetim rosa que eu comprei escondido porque sabia que ele ia reclamar), cabelo solto e bagunçado da noite. A casa tá quieta, só o barulho da piscina lá fora e um cheiro de pão caseiro saindo da cozinha. Quando chego na sala, ele tá lá.
Sentado no sofá, de regata preta colada no corpo, short tactel cinza, pernas abertas, celular na mão. Quando me vê, guarda o telefone no bolso e se levanta. É tão alto que eu sempre preciso inclinar a cabeça pra trás pra olhar direito.
— Parabéns, Sasa. — Ele diz olhando minha roupa, com certeza tá se perguntando em que momento eu comprei.
Ele me chama de Sasa desde que eu era pequena — não que eu tenha crescido tanto assim, sou baixinha. Ninguém mais no morro ousa me chamar de Sasa.
Só ele.
Eu sorrio sem querer, sentindo aquele calor bobo subir pelo peito.
— Obrigada, pai.
Ele faz um sinal com a cabeça pra eu chegar mais perto. Na mesa de centro tem uma caixa preta pequena, de veludo, e um embrulho maior ao lado. Eu paro na frente dele, curiosa pra c*****o.
— Abre, pequena.
Primeiro o embrulho grande. Dentro tem um celular novo, o mais top do momento, capa rosa já colocada, tudo configurado — ele sempre me dá celulares assim, pois ele já coloca rastreador e bloqueio de certas coisas que não são pra idade (controle dos pais). Tem até uma capinha extra com strass. Eu rio, surpresa.
— Pai, sério? Esse aqui é caro pra p***a!
Ele dá de ombros, como se fosse nada.
— Olha a boca Sasa. — Ele me repreende, cerrando os olhos. — Gatinha, tu merece. Agora abre o outro.
A caixinha de veludo.
Eu abro devagar.
Dentro tem uma corrente fina, ouro branco, com um pingente de coração pequeno cravejado de pedrinhas brilhantes. Eu pego com cuidado, virando contra a luz. As pedras soltam fogo. Fogo mesmo. Eu nunca vi diamante de perto, mas aquilo ali… parecia muito real.
Eu olho pra ele, desconfiada.
— São… de verdade?
Ele pega a corrente da minha mão, chega mais perto e manda eu virar. O cheiro dele me invade: perfume caro, um toque de cigarro. Ele passa a corrente no meu pescoço, os dedos grossos e calejados roçando minha nuca de leve. Eu arrepio inteira.
— São de verdade, Sasa — a voz dele sai mais baixa, quase doce, coisa rara. — Por isso evita sair do morro com eles. Não quero ter que matar alguém por causa de uma corrente.
Eu rio nervosa, mas o riso morre na garganta quando ele termina de fechar o fecho e me vira de frente pra ele. As mãos dele ainda estão nos meus ombros, segurando firme, mas sem apertar. Ele me olha de cima, olhos pretos percorrendo meu rosto, descendo pro colar, voltando pro meu olho.
— Ficou ainda mais bonito em você — ele fala, voz rouca. — Sem dúvidas é a sua cara. Delicado e precioso.
Eu sinto o coração bater tão forte que acho que ele consegue ouvir. Estamos perto demais. O calor do corpo dele chega em onda. Eu vejo o peito dele subir e descer devagar, vejo o jeito que o maxilar trava um pouquinho, como sempre acontece quando ele tá segurando alguma coisa. Eu abro a boca pra falar alguma coisa (qualquer coisa), mas aí…
BAM!
A porta da sala abre com tudo, batendo na parede. Eu dou um pulo. Ele solta meus ombros na hora e dá um passo pra trás.
Uma mulher entra como se fosse dona do lugar. Alta, morena, cabelo cacheado solto até a cintura, corpo malhado, vestido justo vermelho, salto alto. Carrega uma sacola grande de uma perfumaria chique.
— Meu Deus, como ela é bonita! Parabéns, Sayuri!
Ela vem direto pra cima de mim, me abraça forte, dá dois beijos barulhentos um de cada lado do meu rosto. O perfume dela é doce demais, me dá até dor de cabeça.
— Japonesa, magrinha, olha só esse cabelo! — ela pega uma mecha do meu cabelo e passa os dedos, coisa que eu ODEIO que façam. Eu travo o sorriso.
Depois empurra a sacola pra mim.
— Olha, gata, comprei pra você. Abre!
Eu pego a sacola meio sem jeito, olho dentro: um kit de perfume importado, creme, maquiagem cara. Bonito, mas… aleatório.
— Obrigada… mas quem é você?
Ela ri alto, vira pro Jogador e gruda nele como chiclete. Passa o braço pela cintura dele e planta um beijo na boca. Ele fica parado, sem retribuir direito, só deixa. Eu sinto algo apertar no peito.
— Sou a namorada dele, ué! Me chamo Ingrid. Muito prazer.
Ela estende a mão pra mim. Eu aperto, mas minha cabeça tá girando.
Namorada?
Namorada?
Ele nunca trouxe mulher pra casa. Nunca. Nem pra jantar, nem pra dormir, nada. E logo hoje?
Eu olho pra ele. Ele coça a nuca, claramente sem graça.
— É complicado — ele resmunga, e se afasta dela com jeitinho, indo até a porta da sala.
Ingrid ri de novo, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— Ai, gatinha, sabe como é, né? Eu tava no QG ontem vendo ele preparar essa festinha pra você, contratando buffet, bolo, tudo caprichado. Aí ele não me convidou, tá óbvio, né? Mas se eu não dou o passo, ele me enrola pra sempre. A gente tá saindo há um mês já, eu tava louca pra te conhecer e ele sempre negando, falando que você era “tímida”.
Enquanto ela fala sem parar, eu vejo ele na porta conversando com o vapô que fica na porta. O tom de voz dele tá baixo, mas eu conheço: tá dando bronca. O cara tá com a cabeça baixa, pedindo desculpa. Provavelmente levou esporro por ter deixado essa doida entrar sem avisar.
Ingrid continua tagarelando:
— Mas olha, eu super entendo ele ser protetor, você é uma graça mesmo, parece até mais nova que dezoito, toda delicadinha, pequena…
Eu forço um sorriso, mas por dentro tô fervendo. Sinto uma coisa estranha no peito, uma queimação que nunca senti antes.
Ciúme.
Ciúme puro, cru, doentio.
Ele volta pra sala.
Ingrid imediatamente gruda nele de novo. Passa a mão nas costas dele, a outra pousa no peito por cima da regata preta, unhas vermelhas contrastando com a pele escura. Ela fala alguma coisa sobre a festa, sobre o bolo, sobre não sei o quê.
Eu não ouço mais.
Eu só fuzilo ele com os olhos.
Ele percebe. Claro que percebe.
Os olhos dele encontram os meus por um segundo e eu vejo: ele fica tenso. O maxilar trava de novo, os ombros endurecem. Ele tira a mão dela do peito dele com jeitinho, mas ela nem liga, continua falando.
Eu cruzo os braços, sentindo o colar pesar no pescoço. O coração que era delicado e precioso agora parece uma faca cravada.
Ingrid se inclina e beija ele de novo. Dessa vez na boca, demorado, fazendo barulhinho. Ele deixa, mas não retribui como ela quer. Mesmo assim… ela beijou ele na minha frente.
E eu senti meu estômago queimar.
Queimar como se alguém tivesse jogado ácido dentro. Como se o mundo tivesse ficado pequeno demais pra nós três. Eu queria gritar, queria mandar ela embora, queria perguntar pra ele o que c*****o era aquilo. Mas eu só fiquei ali, parada, olhando, sentindo aquele ciúme crescer e virar uma coisa maior, mais escura, mais perigosa.
Porque agora eu tinha dezoito anos.
E agora eu sabia exatamente o que eu queria.
E não era dividir.
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