Sayuri
Eu acordo todo dia com o barulho da caminhonete blindada dele ligando lá embaixo às cinco e meia da manhã. O ronco do motor atravessa o morro inteiro, parece um trovão. É o sinal que o dia começou. Ele desce pro “escritório” (que na verdade é uma casa de três andares no meio de um dos becos onde fica o comando), resolve o que tem que resolver, e às seis e quarenta e cinco a caminhonete já tá parada na porta esperando eu descer.
Eu desço de uniforme, cabelo preso, mochila nas costas. Ele nunca buzina. Só fica lá, braço tatuado pra fora da janela, olhando pro nada. Quando eu entro no carro, ele nem fala bom dia.
Só engata a marcha e desce o morro em silêncio. Às vezes toca um pagode antigo, às vezes só o barulho do motor. Eu fico olhando pro perfil dele: o maxilar quadrado, a cicatriz fina que corta a sobrancelha esquerda, o jeito que ele segura o volante com uma mão só. Eu conto os segundos até ele olhar pro retrovisor e me pegar no flagra. Quando pega, só levanta uma sobrancelha. Eu viro o rosto pra janela rapidinho, sentindo o rosto esquentar.
Na porta do colégio ele para, abre a porta pra mim e fala sempre a mesma coisa:
— Qualquer coisa, liga pro Vassoura.
Eu faço que sim com a cabeça. Todo mundo no portão já sabe: aquela é a menina do Jogador. Ninguém mexe. Ninguém chega perto. Nem os playboyzinhos ousam encostar. Uma vez um cara do 2º ano tentou me chamar pra sair. No dia seguinte ele apareceu com o braço engessado e cara de quem viu o d***o. Nunca mais olhou na minha cara.
Aos quinze eu já sabia que o nome dele nas minhas costas era escudo mais forte que qualquer colete à prova de bala.
Com o tempo a rotina virou lei.
Aos 15 anos...
Eu cheguei em casa com o boletim na mão, toda orgulhosa: média 9,8. Primeiro lugar da turma. Entrei na sala dançando, mostrei pra ele que tava sentado no sofá limpando uma pistola em cima da mesa de centro.
— Olha aqui, pai! Primeiro lugar!
Ele pegou o papel, leu devagar, ergueu a sobrancelha (só isso) e devolveu.
— Tá bom. Continua assim.
Eu fiquei esperando um “parabéns”, um abraço, qualquer coisa. Não veio. Mas quando eu virei pra subir, ele falou baixinho, quase sem querer:
— Boa, menina.
Eu subi as escadas sorrindo feito boba. Aquela frase seca valeu mais que mil abraços.
Aos 16 anos...
Eu tava na laje com umas amigas da escola tomando sol de biquíni (coisa rara, porque ele odiava quando eu ficava “exposta”). De repente ouvi um zum-zum-zum lá embaixo. Era uma mulher da boca, toda siliconada, falando alto pro pessoal:
— Aquela j*****a metida acha que é dona do morro só porque mora com o chefe. Pensa que é filha dele mesmo, né?
As minhas amigas congelaram. Eu senti o sangue subir pro rosto. Antes que eu abrisse a boca, o Vassoura apareceu do nada, segurou o braço da mulher e falou no ouvido dela, bem baixo, mas eu ouvi:
— Fala mais uma vez da menina do Jogador e tu vai engolir esses dentes de acrílico aí. Tá ligada?
A mulher ficou branca, pediu desculpa pra mim na hora. Eu nem precisei abrir a boca. Depois soube que o próprio Jogador tinha mandado o recado: quem falar m*l da minha cria leva advertência. E advertência no morro não é conversa.
Aos 17 anos...
Eu tava no quarto fazendo prova online quando ouvi ele subindo as escadas. Bateu duas vezes na porta (coisa que ele nunca fazia) e entrou. Tava só de short de malha, peito suado, acabou de malhar.
— Tá estudando?
— Tô.
Ele ficou parado na porta, olhando pro meu caderno aberto, pras canetas coloridas, pro meu cabelo bagunçado com lápis enfiado pra segurar o coque.
— Eu tava pensando. Tu quer... fazer faculdade?
Eu pisquei, surpresa. Nunca ninguém tinha me perguntado isso.
— Quero… medicina, quem sabe.
Ele fez que sim com a cabeça, como se tivesse anotando mentalmente.
— Beleza. Quando chegar a hora eu pago. Mas tem que ser a melhor nota, hein.
Ele saiu. Eu fiquei parada olhando pra porta fechada, sentindo um troço quente subir no peito. Ele nunca falava de futuro comigo. Aquilo ali foi quase um carinho.
E tinha os dias que eu odiava.
Tipo quando eu tentava sair pra festa na laje da minha amiga e ele aparecia na porta, braços cruzados:
— Vai pra onde vestida assim?
— Só na casa da Ju, pai…
— Volta antes das onze.
— Mas é aniversário!
— Dez e meia. Ponto.
Eu batia o pé, subia pro quarto p**a da vida. Mas no fundo eu sabia: se eu chegasse onze e cinco, ele tava lá na porta me esperando, de cara fechada, mas esperando. E isso me fazia sentir… importante.
Aos 17 anos e meio eu já reparava em outras coisas.
No jeito que ele ficava mais tempo na cozinha quando eu tava fazendo café, só pra me fazer companhia. No jeito que ele travava o maxilar quando eu falava de algum menino da escola (mesmo que fosse só amigo). No jeito que ele me entregava dinheiro pra roupa, pra livro, pra tudo, sem eu pedir.
Eu já não era mais a menininha assustada de 11 anos. Meu corpo tinha mudado. Peito, b***a, cintura fina. O cabelo preto liso batendo na b***a. Os olhos puxadinhos que todo mundo falava que eram “de boneca”. Eu via os caras me olhando na rua. Via os seguranças dele olhando também.
Mas quando eu passava perto dele, eu sentia o ar mudar. Ele ficava tenso. Eu ficava tensa. E nenhum dos dois falava nada.
Eu comecei a provocar sem perceber.
Eu sabia que era errado. Sabia que ele era o homem que me criou. Que me protegeu. Que era o mais próximo de pai que eu tinha. Mas eu não conseguia parar de sentir aquele calor quando ele tava perto. Aquele formigamento na barriga. Aquela vontade louca de chegar mais perto, de encostar, de ver até onde ia.
E ele… ele lutava. Eu via.
Eu já tinha 17 anos e meio e sabia de uma coisa com certeza absoluta:
Ele não me tratava como tratava mais ninguém no morro.
Nem as mulheres que ele levava pro QG de vez em quando (porque ele levava, sim, eu ouvia tudo pela parede fina quando precisava ir lá buscar dinheiro).
Com elas ele era seco, mandava embora assim que acabava de fazer... aquelas coisas, nem nome lembrava.
Comigo… comigo ele lembrava até o tipo de chocolate que eu gostava. Comigo ele guardava a última fatia de pizza. Comigo ele perguntava se eu tinha feito lição, se tinha comido, se tava com frio.
Comigo ele era diferente.
E eu comecei a querer mais dessa diferença.
Quando eu estava prestes a fazer dezoito, tudo na minha vida mudou. Inclusive… a forma como ele olhava pra mim.
Porque aí não era mais só proteção.
Era desejo.
E eu via.
Eu via e queria que ele perdesse o controle de uma vez.
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