Capítulo 1
Capítulo 1
Camila Narrando
A clínica particular estava envolta em silêncio naquela noite. O relógio marcava dez horas, e até então tudo seguia em calma. O ambiente era diferente de um hospital público: corredores bem iluminados, paredes decoradas com quadros discretos, poltronas confortáveis na recepção e um aroma suave de lavanda espalhado pelo ar. As enfermeiras conversavam em voz baixa, organizando prontuários, enquanto Romeu, o enfermeiro chefe, revisava a escala de plantão com a tranquilidade de quem acreditava que seria mais uma noite sem grandes surpresas.
Eu, Camila, caminhava lentamente pelo corredor principal, observando os detalhes da clínica. Gostava de trabalhar ali. O espaço transmitia ordem e serenidade, e os pacientes que vinham geralmente buscavam consultas de rotina, exames especializados ou pequenas cirurgias eletivas. Nada que exigisse correria ou tensão.
Era o tipo de ambiente que me fazia esquecer, pelo menos por algumas horas, o caos da emergência de onde eu vinha. Aqui tudo era tão controlado que até a respiração parecia mais leve. Lembro-me de pensar que, se todas as minhas noites fossem assim, talvez eu finalmente conseguisse tirar alguns dias de folga que estava adiando há meses.
De repente, o som da porta principal se abriu com força. Dois seguranças particulares entraram, conduzindo um homem algemado. O ambiente mudou instantaneamente. Não havia tumulto de pacientes, mas a tensão tomou conta do ar. O contraste entre a calma anterior e a presença daquele homem era tão grande que até o relógio na parede parecia marcar o tempo de forma mais pesada.
Romeu foi o primeiro a reagir. Ele se aproximou rapidamente, segurando uma prancheta.
— Camila, chegou o caso especial — disse em tom firme. — Precisamos de você na sala de cirurgias.
Assenti sem hesitar. Passei pela recepção e senti os olhares das enfermeiras me acompanhando. Elas sabiam que aquele tipo de chegada nunca significava coisa boa. Caminhei até o corredor que levava ao bloco cirúrgico, enquanto os seguranças conduziam o paciente.
O homem foi colocado sobre a maca, e percebi imediatamente seu porte físico imponente: quase um metro e noventa, cabelo preto cortado baixo, cavanhaque bem-feito e bigode. Seu olhar era frio, calculista, como se estivesse acostumado a situações de risco. Não havia desespero ali, nem dor explícita — apenas uma sensação de que ele dominava o ambiente, mesmo sangrando.
Peguei o prontuário que Romeu me entregou. O nome estava registrado com letras firmes: Gabriel. As anotações eram claras e diretas:
“Paciente de risco — comportamento agressivo e manipulador — escolta necessária.”
A lesão próxima à costela exigia intervenção urgente. O sangue escorria devagar, mas a gravidade era evidente. A equipe se preparava para iniciar os procedimentos de anestesia quando Gabriel falou, com voz firme e pausada:
— Não quero anestesia geral.
Todos na sala se entreolharam, surpresos. O anestesista franziu a testa, Romeu suspirou, e eu permaneci em silêncio por alguns segundos, tentando compreender a lógica por trás daquela exigência. Não era incomum pacientes terem medo de anestesia, mas o olhar dele não era de medo. Era de controle. Como alguém que estava acostumado a dar ordens e tinha certeza de que seria obedecido.
— Impossível — respondi, mantendo a calma. — É um procedimento de risco.
— Estou vulnerável. Sem acompanhante, não faço — retrucou Gabriel, sem alterar o tom.
Romeu me olhou, esperando minha decisão. Respirei fundo. Ele sabia que eu tinha mais experiência do que qualquer um ali com casos difíceis, principalmente envolvendo gente perigosa. Eu já havia atendido membros de facções, traficantes e policiais feridos em confrontos. Mas Gabriel tinha algo diferente. Havia uma frieza nele que me deixou alerta.
— Gabriel, é vida ou morte. Não posso deixar você morrer por teimosia. Estou aqui para salvar, não para julgar.
Ele sorriu friamente, como se estivesse testando minha paciência.
— Sem acompanhante, sem cirurgia.
O anestesista se aproximou de mim, cochichando:
— Doutora, se não começarmos logo, ele não vai resistir.
Olhei para Gabriel novamente. Seu olhar não era de medo, mas de desconfiança. Talvez tivesse medo de ser apagado ali mesmo, longe da sua comunidade, sem testemunhas. Talvez achasse que os seguranças que o trouxeram não estavam do lado dele. E, de certa forma, eu entendia: pessoas como ele viviam sempre um passo atrás da morte.
— f**a-se, doutora — disse, tentando se levantar, mas as algemas o prenderam à maca. — Ou arrumam um acompanhante de confiança para mim, ou não faço essa cirurgia.
Romeu se aproximou, tentando intervir.
— Camila, não podemos perder tempo.
Eu sabia disso. Cada segundo contava. Mas também sabia que lidar com Gabriel exigia mais do que técnica médica; exigia estratégia. Ele não era um paciente comum. Era alguém acostumado a comandar, a impor sua vontade, e agora trazia esse comportamento para dentro da clínica.
Aproximei-me dele, mantendo a voz firme.
— Gabriel, você está perdendo muito sangue. Se não entrar na sala agora, não terá chance de discutir nada depois.
Ele me encarou, e por um instante percebi algo diferente em seus olhos: não era apenas teimosia, era desconfiança profunda. Uma paranoia silenciosa que fazia sentido considerando o tipo de vida que provavelmente levava.
— Quero alguém do meu lado — repetiu. — Alguém que eu conheça.
Romeu suspirou novamente.
— Não temos como trazer ninguém agora.
O silêncio tomou conta da sala. O monitor cardíaco apitava em intervalos regulares, lembrando-nos de que o tempo estava passando. Eu sabia que precisava tomar uma decisão. A vida dele dependia disso. E, ironicamente, a nossa também. Se algo acontecesse com Gabriel enquanto estivesse sob nossos cuidados, a clínica se tornaria alvo imediato.
Olhei para o anestesista e fiz um sinal discreto.
— Boa noite, Cinderela.
Ele entendeu imediatamente. Preparou a seringa e aplicou a medicação antes que Gabriel pudesse reagir. O corpo dele relaxou aos poucos, e finalmente pudemos iniciar o procedimento.
Enquanto a equipe se organizava, senti o peso da responsabilidade sobre meus ombros. Não era apenas uma cirurgia. Era um jogo de poder, travado dentro de uma clínica particular, longe dos olhos da comunidade e das ruas. Gabriel não era apenas um paciente; era um chefe, alguém que carregava consigo histórias de violência, medo e respeito.
Romeu permaneceu ao meu lado durante todo o processo.
— Você fez o que precisava — disse em voz baixa. — Se tivéssemos cedido, ele teria nos controlado até o fim.
Assenti, mas não respondi. Minha mente estava focada na cirurgia. Cada movimento precisava ser preciso. A bala havia se alojado próximo à costela, e qualquer erro poderia ser fatal.
O silêncio da sala era quebrado apenas pelo som dos instrumentos e pelo monitor cardíaco. As enfermeiras trabalhavam em sincronia, e o anestesista mantinha os olhos atentos nos sinais vitais. Eu conduzia a equipe com firmeza, consciente de que aquele momento definiria não apenas a vida de Gabriel, mas também a segurança de todos nós.
Durante o procedimento, percebi a força física dele — mesmo desacordado, seus músculos eram tensos, definidos, como alguém que vivia em alerta constante. Era impossível não imaginar o tipo de vida que levava, os motivos que o tinham levado até ali e o que aconteceria quando ele acordasse.
Horas se passaram até que finalmente conseguimos retirar o projétil e estabilizar o paciente. O alívio tomou conta da sala, mas não houve comemoração. Todos sabiam que aquele era apenas o começo. Gabriel sobrevivera, e isso significava que a clínica agora estava marcada.
Romeu me olhou novamente, com expressão séria.
— Camila, precisamos reforçar a segurança. Ele não é qualquer paciente.
Assenti.
— Eu sei. Mas enquanto estiver aqui, será tratado como qualquer outro.
No fundo, eu sabia que não era verdade. Gabriel não era qualquer outro. Sua presença mudava tudo. A clínica, antes tranquila, agora carregava o peso de um segredo perigoso.
Quando deixei a sala de cirurgias, caminhei pelo corredor silencioso. O aroma de lavanda ainda estava no ar, mas parecia diferente. O ambiente já não transmitia serenidade. Transmitia tensão.
Sentei-me por alguns minutos na sala de descanso, tentando recuperar o fôlego. Pensei em tudo o que havia acontecido. Em como uma noite comum se transformara em um capítulo decisivo da minha vida profissional.
Romeu entrou logo depois, trazendo uma xícara de café.
— Você foi incrível — disse. — Mas precisamos estar preparados.
Olhei para ele, cansada.
— Preparados para quê?
— Para o que vem depois.
Não respondi. Apenas segurei a xícara e deixei o silêncio preencher o espaço.
Naquele momento, percebi que a clínica particular nunca mais seria a mesma.