Capítulo 2
Camila narrando
Dois dias atrás a minha vida havia mudado de forma inesperada. Depois da cirurgia de Gabriel, o chamado “chefe”, a rotina tranquila da clínica particular transformara-se num turbilhão de responsabilidades e olhares curiosos. Não eram jornalistas que batiam à porta, mas sim administradores da clínica, diretores preocupados com a reputação do espaço e até pacientes regulares que cochichavam nos corredores. A presença dele ali parecia ter iluminado cada canto do prédio, mas não de um jeito confortável. Era como se todos andassem pisando em ovos, tentando entender quem exatamente estava internado e por que tanta gente importante demonstrava interesse.
Mesmo assim, mesmo com toda aquela tensão invisível pairando no ar, eu tentava continuar trabalhando como sempre. Ou pelo menos fingia que conseguia. As conversas paralelas me seguiam de um corredor ao outro, e meu nome já não parecia um simples nome: virara assunto, virara uma ligação direta à internação de Gabriel. Era como se tudo o que eu fizesse ou deixasse de fazer tivesse um peso absurdo. Só que ninguém sabia da metade.
Eu mesma não conseguia explicar o que acontecia comigo desde que o vi naquela cama, completamente desacordado, preso a máquinas, fios e um silêncio que parecia gritar. É estranho como às vezes alguém que você não conhece consegue, de alguma forma, mexer com você. Não por romance, não por fantasia, mas por presença. Gabriel tinha uma daquelas energias que enchia um espaço — mesmo dormindo, mesmo desligado do mundo. Meu corpo permanecia em alerta, meus sentidos atentos. Era como se eu esperasse algo sem saber o quê.
E, claro, isso só complicava tudo.
Na manhã seguinte à cirurgia, cheguei mais cedo do que deveria. Não porque pediram. Não porque era minha obrigação. Mas porque eu precisava saber como ele estava — e porque algo dentro de mim não queria que outra pessoa assumisse aquele turno antes de eu ver com os meus próprios olhos que ele continuava ali. Bobo, talvez. Irracional, com certeza. Porém real.
Ao empurrar a porta do quarto, notei que a luz ambiente estava mais suave do que no dia anterior. As máquinas marcavam ritmos constantes. O cheiro de hospital, frio e limpo, parecia até mais leve. Aproximar-me da cama dele tornara-se quase um ritual. Olhei para o curativo no abdômen, para os drenos, para o soro pendurado na haste metálica. Cada detalhe me lembrava de que ele era mais do que um nome que circulava pelos corredores: era um homem lutando para se recuperar.
E, por alguma razão, eu me sentia responsável por aquela luta.
Fiquei ali por alguns segundos, só observando, até que a porta se abriu sem nenhum aviso. Romeu entrou, trazendo uma prancheta e o olhar preocupado de sempre.
— Dormiu bem? — ele perguntou, mas na verdade queria dizer outra coisa. Era aquele tipo de pergunta que espera uma resposta sobre o trabalho, não sobre descanso.
— Mais ou menos — respondi, sabendo que não adiantava mentir. — Alguma atualização?
Romeu balançou a cabeça.
— Nenhuma crítica por enquanto. Os médicos estão satisfeitos com a evolução inicial. Só pediram atenção aos sinais vitais. Ele parece estável.
“Estável.” Uma palavra que sempre aliviava, mas que nunca garantia nada.
Olhei novamente para Gabriel e me peguei ajeitando o lençol, puxando um pouco para cima, como se aquilo fosse fazer diferença. Irritante. Não era para eu ter esse tipo de impulso — não com um paciente como ele, não com alguém que eu deveria tratar com a frieza profissional que jurava ter.
Romeu percebeu.
— Você está muito envolvida com esse caso — comentou, porém não em tom de julgamento. Era mais constatação do que crítica.
— Não estou — menti na maior cara de p*u.
Ele só arqueou uma sobrancelha, como quem diz “claro que está”.
Decidi ignorar.
Passei o restante do turno correndo de um lado ao outro, atendendo outros pacientes, checando medicações, ouvindo reclamações, distribuindo orientações. Mas, de tempos em tempos, meus passos me levavam de volta ao quarto dele. Como se algo me puxasse. Como se eu precisasse confirmar que nada havia mudado.
Me incomodava um pouco admitir isso até para mim mesma.
À tarde, quando finalmente me sentei para tomar um café — frio, evidentemente — ouvi sussurros das recepcionistas logo atrás de mim. Nada explícito, nada agressivo, mas percebi perfeitamente quando mencionaram “a enfermeira dele” e “por isso ela está assim”.
Meu sangue esquentou, mas não dei satisfação. Não tinha tempo, nem paciência.
À noite, o clima pesou ainda mais. Diretores surgiam um atrás do outro, perguntando sobre o estado do paciente “importante”, querendo relatório, querendo acesso restringido, querendo garantir que tudo fosse abafado. A clínica inteira girava em torno dele — e eu, no meio desse redemoinho, tentava apenas fazer meu trabalho direito.
Quando meu turno acabou, caminhei até o estacionamento sentindo o corpo pesado, mas a mente acelerada. O céu estava escuro, o vento frio. Respirei fundo, tentando me convencer de que deveria ir para casa e desligar a cabeça. Mas eu sabia que não ia conseguir.
Dormir naquela noite foi quase impossível. Cada vez que fechava os olhos, eu o via. Não como homem. Não como alguém atraente. Mas como um paciente que parecia exigir de mim algo além da rotina. Uma presença forte demais para ser ignorada.
No dia seguinte, voltei cedo outra vez. Um hábito que estava se instalando sem pedir permissão.
Ao entrar no quarto, percebi que ele estava mais corado, a respiração um pouco mais leve. A melhora era mínima, mas estava lá. Um progresso. Passei a mão por cima da prancheta, revisando anotações, ajustando soro, conferindo medicação. Tudo exatamente como deveria estar.
Foi quando notei um movimento.
Um leve franzir de testa.
Depois, os dedos.
Ele estava despertando.
Meu coração parou por um segundo, e a adrenalina percorreu meu corpo como se alguém tivesse ligado um interruptor dentro de mim.
— Gabriel? — chamei, minha voz baixa, cautelosa. — Está me ouvindo?
Seus olhos mexeram por baixo das pálpebras, tentando emergir de um sono pesado, profundo. Senti o ar preso nos meus pulmões. Aproximei-me mais, quase inclinando-me sobre ele.
Então, finalmente, devagar, ele abriu os olhos.
E por um instante, tudo — absolutamente tudo — pareceu parar.
Eles eram intensos, escuros, fundos. Olhos de alguém que não costumava abaixar a guarda. Mesmo fraco, mesmo dopado, mesmo recém-acordado de uma cirurgia séria, ele tinha aquele olhar que parecia atravessar qualquer pessoa.
Inclusive eu.
Meu coração deu um solavanco, mas mantive a postura profissional.
— Bem-vindo de volta.
Ele piscou algumas vezes, confuso, tentando entender o ambiente. Eu segurei sua mão para impedi-lo de arrancar algum cabo, e ele olhou imediatamente para o ponto de contato entre nossos dedos. Não sei explicar por que, mas senti um arrepio subir pelo meu braço.
— Você está na clínica… teve uma cirurgia… — comecei, com calma. — Está tudo bem. Eu sou a Camila, enfermeira responsável pelo seu caso.
Seus lábios se moveram, mas nenhum som saiu. Depois, tentou falar de novo.
— Água — ele sussurrou, rouco.
Peguei o copo, aproximei o canudo e o ajudei a beber. Seus olhos não saíram dos meus nem por um segundo. Era como se ele estivesse me analisando, me decifrando, tentando entender quem eu era além da função.
E aquilo me deixou desconcertada.
Quando terminou, recostei o copo e toquei seu ombro com delicadeza.
— Vai melhorar aos poucos. Não tente se mexer muito.
Ele continuou me olhando como se quisesse dizer algo, mas não conseguisse. E, pela primeira vez desde que ele chegara ali, senti que aquele silêncio não era pesado nem ameaçador. Era… curioso. Atento.
Talvez eu estivesse imaginando demais. Talvez fosse só efeito da medicação. Talvez fosse apenas cansaço meu. Mas havia algo ali — algo que eu não sabia nomear.
E, ainda assim, não conseguia ignorar.
Saí do quarto minutos depois, respirando fundo, tentando reorganizar minha mente. A clínica ainda estava agitada, ainda estava inquieta, mas agora meu coração batia mais rápido por outro motivo.
Ele tinha acordado.
E nada seria igual depois disso.