CAPÍTULO 26 (MARIA NARRANDO) O cheiro do morro me abraçou antes mesmo que eu pudesse respirar de verdade. Não era só cheiro de terra, de mato, de comida de rua. Era cheiro de adrenalina disfarçada de normalidade. Por dois meses, eu tinha tentado substituí-lo pelo sal do mar de Fortaleza e pelo silêncio da casa dos meus pais. Mas o morro é teimoso, e o meu passado estava nele. Desci do carro na entrada da comunidade e senti o peso diminuir. Não o peso físico, mas o peso da ansiedade. Há sessenta dias, eu era uma mulher em fuga. Uma sombra emocional, presa a um ciclo de dependência que me sufocava. Eu tinha pavor de ficar sozinha, pavor de perder a migalha de atenção que MT, o braço direito do chefe, me dava, e pavor de descobrir que o resultado do teste de farmácia seria positivo. Aquel

