O sol já começava a baixar atrás das lajes, pintando o céu de laranja sujo e fazendo o calor da tarde virar um mormaço pesado. O movimento no cantinho de manicure diminuiu junto com a luz. Elisa terminava a última cliente do dia, uma moça do alto do morro, enquanto João brincava sentado no chão de cimento, já cansado, esfregando os olhinhos com a mão suja de biscoito.
— Pronto… — disse Elisa, soprando levemente as unhas cor de vinho da mulher, com cuidado pra não borrar — Seca só com a boca, não assopra forte.
— Ficou linda, menina — a cliente admirou, mexendo os dedos na luz — Cê tem mão boa. Vou voltar. E vou mandar minhas primas.
— Obrigada — Elisa sorriu, sincera, guardando o dinheiro na latinha — Aparece.
Quando a cliente saiu, rebolando pela viela, Elisa soltou um suspiro longo. Desabou na cadeira. O dia havia sido bom. Melhor do que imaginava, melhor que ontem. Quase R$ 300 na latinha. Ela começou a organizar os esmaltes na caixa de plástico, guardando um por um, contando mentalmente. Base acabando. Precisava de lixa nova.
— João, vamos arrumar pra ir pra casa… — disse, esticando as costas doloridas — Já deu pra hoje, filho.
O menino balbuciou algo, “não”, e continuou brincando com a tampinha de esmalte, batendo no chão.
Foi então que passos se aproximaram. Passos pesados, de coturno. Não era cliente.
Elisa levantou os olhos e viu o Dudu, o mesmo que levou ela pra casa do Lobão no dia do tiro, carregando uma caixa média nas mãos, de papelão. Vinha sozinho.
— Elisa? — ele perguntou, parando na frente da mesa, sem entrar na varanda.
— Sou eu — respondeu, limpando a mão no pano, o coração dando um salto sem motivo.
Ele colocou a caixa sobre a mesa de fórmica, com cuidado. A caixa não era pequena.
— O Lobão mandou — falou, simples, direto — Falou que é pra te ajudar no trabalho.
O coração dela acelerou. Descompassou.
— Mandou…? — a voz saiu fraca — O quê?
— Tá aí dentro — Dudu deu de ombros — Falou pra não faltar nada.
Ele virou e foi embora antes que ela perguntasse mais, antes que ela respirasse. Desceu a viela com as mãos no bolso, como se tivesse entregado só um recado.
Elisa ficou parada, olhando a caixa. As mãos ficaram levemente trêmulas, suando frio. Rosa, que estava na porta da cozinha vendo tudo, se aproximou rápido, enxugando a mão no avental, curiosa.
— Abre, menina — disse, os olhos brilhando — Abre logo.
Com cuidado, como se fosse bomba, Elisa levantou a tampa da caixa. O papel de seda por cima.
Dentro havia esmaltes novos. Muitos. Fileiras inteiras. Vermelho, nude, preto, azul, rosa, com glitter, sem glitter. Lixas, dez pacotes. Alicates novos, de inox, brilhando. Base, top coat, óleo secante, removedor de duas marcas boas. Algodão. Palito. Tudo organizado, novo, cheiroso. Coisa de salão de verdade.
Elisa arregalou os olhos. A boca abriu. O ar faltou.
— Meu Deus… — sussurrou, sem acreditar — Isso aqui…
— Ele caprichou — Rosa disse, pegando um vidrinho de esmalte preto e olhando contra a luz — Isso aqui é caro, Elisa. É marca boa. Não é essas porcaria de R$ 5.
Elisa passou a mão pelos itens, devagar, como se fossem quebrar. Como se fosse sonho. Aquilo era muito mais do que ela tinha. Muito mais do que podia comprar naquele momento, naquele ano. Com R$ 300 por dia ia levar meses pra montar isso.
João se levantou do chão, curioso com a caixa, e tentou pegar um dos frascos de glitter, os olhos brilhando.
— Não, João… — ela sorriu, tirando da mão dele rápido, com medo de quebrar — Isso é da mamãe. Pra trabalhar.
Uma vizinha que passava pela rua, a Cida da venda, viu a caixa aberta em cima da mesa e parou no portão. O olho cresceu.
— Mas que chiqueza é essa, hein? — perguntou, já entrando sem ser chamada — Comprou onde?
Rosa respondeu antes, com orgulho na voz, com peito estufado.
— Foi o Lobão que mandou — disse, alto, pra rua inteira ouvir — Presente pra sobrinha trabalhar direito.
Em poucos minutos, como rastilho de pólvora, mais duas mulheres já estavam no portão, a Marlene e a Suelen. E comentavam. E apontavam. E cochichavam.
— Ele nunca fez isso… — Marlene falou, balançando a cabeça, descrente — Nem pra mãe dele ele deu caixa de esmalte.
— Tá ficando sério… — Suelen completou, com o sorrisinho — Primeiro leva pra casa, depois põe segurança, agora banca o negócio. Daqui a pouco tá morando junto.
Elisa sentiu o rosto esquentar. Queimar. O sangue subiu todo pra cabeça. Vergonha. Exposição.
— Ele só quer ajudar… — disse, quase para si mesma, arrumando os esmaltes de novo, sem olhar pra ninguém — Só isso. Foi por causa do tiro…
Mas nem ela acreditava totalmente nisso. Não mais. Não depois do “criança não mente”. Não depois do “qualquer coisa que precisar”.
Ela pegou um dos esmaltes, um nude clarinho, caro. Abriu. Cheirou. Era bonito. Novo. Cheiro de começo. Cheiro de vida que ela não tinha.
— Eu preciso agradecer… — murmurou, fechando o vidro, olhando pro fim da viela — Não tá certo ele gastar assim…
Rosa sorriu, de lado, experiente.
— Ele vai aparecer — disse, com certeza — Homem igual ele não manda presente e some. Ele vem cobrar o “obrigada”. Sempre vem.
Como se o destino tivesse ouvido, como se ele tivesse microfone na varanda, uma sombra surgiu no final da viela. Descendo.
Henrique.
Ele caminhava devagar, com o Dudu do lado, conversando baixo. Boné, sem camisa, a corrente, a postura de sempre. Mas hoje, tinha algo diferente no jeito de andar. Menos pressa. Quando se aproximou da varanda, os olhos dele foram direto para a mesa. Pra caixa aberta. Pros esmaltes novos brilhando no sol de fim de tarde.
— Chegou — ele disse. Não era pergunta. Era constatação.
Elisa assentiu, levantando da cadeira, nervosa. Limpou a mão no short.
— Chegou… obrigada — a voz saiu baixa — Cê não precisava… isso é muito…
— Pra trabalhar melhor — ele cortou, simples, dando de ombros como se R$ 2 mil em material fosse nada — Aí não falta. E cliente gosta de coisa boa.
Elisa sentiu o coração acelerar. A garganta secou.
— Não precisava mesmo… — repetiu, sem saber o que falar — Eu… eu ia comprar aos poucos…
— Precisava — ele repetiu, firme, e o olhar prendeu no dela — Aqui ninguém meu passa necessidade. Nem trabalha com porcaria.
O “meu” bateu. Bateu forte. Ecoou.
João, ao vê-lo, largou a tampinha no chão e levantou os braços novamente, animado, esquecendo a caixa.
— Ão! — gritou, sorrindo — Ão!
Henrique se abaixou na frente dele, sem frescura, e bagunçou levemente o cabelo do menino com a mão grande. O gesto foi automático.
— Tá virando rotina já, hein, campeão — disse, e tinha um quase-riso na voz — Todo dia cê me chama.
Elisa sorriu, sem perceber. Sem conseguir segurar. O sorriso veio sozinho.
Por alguns segundos, os três ficaram ali. Silenciosos. Ela de pé, ele abaixado, João entre os dois. O sol batendo. Os esmaltes novos na mesa. O morro em volta. Mas o clima era diferente. Mais próximo. Mais… íntimo. Perigoso.
Dudu tossiu de leve, desviando o olhar. Marlene prendeu a respiração. Suelen apertou o braço da Rosa.
Lá de cima da rua, encostada no muro da laje de cima, Bianca observava. Tinha chegado fazia cinco minutos. Tinha visto a caixa. Tinha visto ele chegar. Tinha visto o “meu”. Tinha visto o sorriso.
E o olhar dela não prometia nada bom. Não tinha ciúme ali. Tinha ódio. Tinha guerra declarada.
Ela tirou o celular do bolso. Tirou uma foto. Rápida. Deles três. Guardou.
Depois virou as costas e subiu. Mas o maxilar tava travado. E o plano, na cabeça, já tava feito.
Na varanda, Henrique se levantou. Colocou o boné direito.
— Qualquer coisa, cê manda avisar — disse pra Elisa, mas olhando pra Rosa também — Faltou algo, deu problema, alguém encheu o saco… cê manda chamar.
— Tá… — Elisa assentiu, ainda sem acreditar — Obrigada. De verdade.
Ele fez que ia embora, deu dois passos. Parou. Virou de novo.
— E Elisa — chamou.
— Oi?
— Não deixa ninguém mexer nas suas coisas — falou, apontando pra caixa — É seu. Cê trabalhou por isso.
Ela assentiu, o peito apertado.
Ele foi embora. Subiu a viela. Não olhou pra trás.
Só quando ele sumiu que o ar voltou na varanda. Que as mulheres respiraram.
— Menina… — Marlene foi a primeira a falar, passando a mão no peito — Ele te deu o morro na mão. Cê viu o jeito que ele falou? “É seu”.
— Cê tá feita — Suelen completou — Acabou a pobreza.
Elisa não respondeu. Só começou a guardar os esmaltes novos na caixa, com a mão tremendo. Cada vidro era um peso. Cada lixa era uma corrente.
"Não confunde p******o com outra coisa"
A frase da Bianca voltou. Mas agora, com R$ 2 mil em material na mesa, com o “meu” ecoando, confundir ficou muito mais fácil. E muito mais perigoso.
Porque presente de Lobão não era presente. Era marcação. Era coleira de ouro.
E a dona da coleira antiga tava lá em cima, tirando foto. Planejando como arrancar.