Bianca estava encostada na parede de chapisco, alguns metros acima da viela, na sombra da laje. O cigarro entre os dedos longos queimava sozinho. Ela tinha visto tudo.
Desde o momento em que João saiu correndo da varanda da Rosa com os passinhos tortos… até Henrique parando no meio da conversa com o Dudu e pegando o menino no colo como se fosse a coisa mais natural do mundo. O sorriso discreto dele, quase invisível. A forma como ele conversou com Elisa, abaixado, sem pressa. O jeito tranquilo, quase humano, completamente diferente do homem frio que o morro inteiro conhecia. Do Lobão que mandava e não perguntava.
Ela cruzou os braços, o maxilar tenso, a unha de gel postiça tamborilando no próprio cotovelo. O batom vermelho repuxado numa linha dura.
— Tá de brincadeira… — murmurou, mais pra si mesma que pra alguém ouvir.
Uma amiga ao lado, a Jéssica, observava também, com o mesmo olhar de choque. O mesmo veneno começando a subir.
— Ele nunca para pra ninguém assim — Jéssica disse, baixo, sem tirar o olho da cena lá embaixo — Nem pra falar com a mãe dele ele para desse jeito. E ele pegou o moleque… no colo. Viu isso?
— Ele não tá fazendo nada — Bianca respondeu, cortando, mas o tom não convencia nem ela. A voz saiu trincada — Só não quer barraco na porta da Rosa. Só isso.
Ela continuou olhando, obrigando-se a engolir cada segundo. Viu quando Henrique entregou o menino de volta pra Elisa, com cuidado. Viu o olhar trocado entre eles, demorado demais. Viu Elisa parada na varanda depois, observando ele se afastar, com a mão no peito, como se segurasse o coração. Viu tudo.
Aquilo incomodou mais do que ela queria admitir. Mais do que podia demonstrar ali, na frente da Jéssica, na frente do morro. Porque admitir era perder. E Bianca não perdia.
Bianca conhecia Henrique. Conhecia há anos. Antes do boné, antes da chefia, antes do respeito que fazia os outros baixarem a cabeça. Sabia que ele não era homem de atenção gratuita, de carinho de graça. Ele podia até se envolver, podia até chamar ela de madrugada, mas não costumava demonstrar cuidado. Não em público. Muito menos com criança. Com filho de outra.
— Isso não vai dar certo… — disse, decidida, jogando o cigarro no chão e pisando em cima com o salto — Não mesmo.
Ela se virou e desceu a viela com passos firmes, batendo o salto na pedra. Jéssica foi atrás, calada, com um sorrisinho de lado. Sabia que vinha barraco.
Algum tempo depois, Elisa já havia voltado ao trabalho. Tentava se concentrar na unha de Marlene, na francesinha que tremia se ela respirasse errado, mas sua mente insistia em voltar para o momento anterior. Pro peso do João no braço dele. Pro “fica esperto com ele”. Pro olhar.
João agora estava sentado no tapete fino da varanda, de volta pro seu lugar, brincando com um pote vazio de creme que fazia de tambor, batendo com a colherzinha de plástico.
— Seu filho é danado… — comentou Marlene, rindo — Não para quieto. Igualzinho o…
Ela se cortou na hora, mas Elisa entendeu. Igualzinho o Lobão. Não parava.
— É… — Elisa sorriu, sem graça, sem completar — Tem energia.
Foi então que a sombra apareceu na porta da varanda. Alta. Parou ali, tampando o sol da tarde.
Bianca.
Ela não entrou imediatamente. Não pediu licença, nunca pedia. Apenas observou o pequeno espaço, analisando cada detalhe como se tivesse num leilão. Os esmaltes na mesa, a latinha de dinheiro, o tapete gasto, o João no chão, a Elisa de roupa simples. Mediu o valor de tudo. Depois, deu dois passos para dentro, o salto estalando no cimento. O perfume forte, enjoativo, invadiu antes dela.
— Tá cheio hoje… — comentou, olhando em volta, pro nada — Bombando.
— Tá começando… — Elisa respondeu, sem levantar os olhos da unha, a mão firme na força — Devagar.
Bianca aproximou-se da mesa, devagar, rebolando. Parou do outro lado. Os olhos desceram por João, que nem percebeu, batendo no pote. Depois voltaram para Elisa, subindo devagar, pesados, julgando.
— Ele gosta de criança agora? — perguntou, a voz era mel, mas por baixo era lâmina — O Lobão?
Elisa entendeu imediatamente de quem ela falava. Não precisava de nome. No morro só tinha um “ele”.
Parou de pintar. Largou o pincel. Levantou os olhos.
— João é simpático… — respondeu com calma, medindo cada palavra — Faz amizade fácil.
Bianca inclinou levemente a cabeça, o cabelo liso caindo pro lado. O sorriso não era sorriso.
— Ou talvez ele tenha gostado da mãe — disse, direta, sem rodeio — Acontece. Homem é bicho b***a. Vê uma novidade, fica doido.
O silêncio ficou pesado na varanda. Denso. Cortante. Marlene parou de respirar. Suelen, que chegava na hora, congelou no portão. Algumas mulheres fingiram não ouvir, olhando pro celular, mas estavam atentas. Ouvido de morro escuta até pensamento.
— Quer fazer a unha? — Elisa perguntou, mantendo a voz firme, neutra. Profissional. Não ia cair no jogo — Tenho vaga agora.
— Não — Bianca riu, um riso curto, sem humor — Não vim pra isso. Unha eu faço no salão lá de baixo, com produto bom. Só vim te dar um conselho. De mulher pra mulher.
Elisa levantou os olhos de vez. Encarou. Não desviou.
— Qual?
Bianca cruzou os braços em cima do peito, empinando. A pose de dona.
— O Lobão não é homem de se envolver — falou, pausada, como quem ensina — Ele gosta de novidade. De carne nova. Usa, prova, depois… cansa. Enjoa. Joga fora. Sempre foi assim.
Elisa respirou fundo, sentindo o ar queimar. Sentiu o sangue subir, mas não deixou mostrar. Não ia dar esse gostinho.
— Eu não tô procurando nada — respondeu, a voz baixa, mas clara — Nem envolvimento, nem novidade. Tô trabalhando. Criando meu filho. Só isso.
Bianca deu um pequeno sorriso, de canto. Vitorioso.
— Melhor assim — disse — Porque seria f**o pra você. Pra ele. Pro morro.
Ela se virou, como se fosse embora, o cabelo balançando. Mas parou no meio do caminho, na saída da varanda. Olhou por cima do ombro.
— Só não confunde p******o com outra coisa, tá, loira? — falou, o veneno pingando de cada sílaba — p******o é obrigação dele. É ponto. Agora, achar que é amor… que é carinho… aí cê vai se machucar. E homem igual ele não pega na mão pra levantar depois que derruba.
Bianca saiu. Rebolando. Sem pressa. Desceu a viela como se fosse dona da rua.
O ambiente demorou alguns segundos para voltar ao normal. Para o ar entrar de novo. Ninguém falou nada por um tempo. Só o barulho do João batendo no pote.
Uma das mulheres, a mais velha, murmurou baixinho pra Marlene:
— Ela tá com ciúmes… tá na cara. Tá doida.
Rosa, que havia chegado nesse momento vindo da venda, com uma sacola na mão, ouviu. Entendeu tudo só pelo clima. Lançou um olhar repreendendo pra Marlene, pra calar a boca, mas era tarde.
Elisa fingiu se concentrar nas unhas da Marlene, voltando a pegar o pincel. A mão não tremia. Não ia tremer. Mas por dentro, era um terremoto.
Porque a verdade era que as palavras haviam ficado. Gravadas. Queimando.
Proteção, ciúmes, confusão, coleira.
Ela não queria pensar nisso. Não podia. Tinha um filho pra criar, uma vida pra recomeçar, um ex pra esquecer. Não tinha espaço pra homem, pra chefe, pra disputa.
Mas algo dentro dela já sabia… algo que o corpo entendeu antes da cabeça.
O morro não era só refúgio. Não era só a Rosa abrindo a porta. Não era só o trabalho.
Era também disputa. Era território. Era olhar. Era posse.
E ela, sem pedir, sem querer, tinha virado o prêmio. O prêmio que duas mulheres queriam, e que um homem marcou como dele sem perguntar.
Naquela noite, depois que fechou a varanda, que guardou os esmaltes, que João dormiu, Elisa ficou sentada na beira do colchão, no escuro.
Lá fora, na laje da frente, os dois homens continuavam. Vigiando. A ordem dele.
Pegou o celular velho. Nenhuma mensagem. E mesmo assim, ela sentiu. Sentiu ele. Em algum lugar, acordado, olhando.
"Só não confunde p******o com outra coisa"
A frase da Bianca ecoava.
Mas e se não fosse confusão? E se fosse as duas coisas? E se p******o fosse só o começo?
Elisa deitou e puxou o lençol até o queixo. Com medo da resposta. Com medo de querer a resposta.
Porque no morro, quando o Lobão protege, ele cobra. E a cobrança, ela desconfiava, não ia ser em dinheiro.