O dia estava quente, daqueles que o cimento da viela queimava os pés descalços e o ar parado pesava nos ombros. Mesmo assim, o movimento no cantinho de manicure seguia tranquilo, melhor que a semana passada. Elisa terminava de organizar os esmaltes por cor na mesa de fórmica, a toalha branca já manchada de vermelho e rosa, enquanto João brincava perto da porta da varanda, empurrando um carrinho imaginário pela calçada quente, fazendo curva no ar.
Ela já começava a se acostumar com a rotina. Com o barulho de moto subindo, com as vozes altas, com o cheiro de feijão cozinhando na casa da vizinha. As mulheres chegavam, sentavam na mureta, conversavam, perguntavam sobre o sul, sobre o frio, sobre o filho, sobre sua vida. Algumas apenas queriam observar, medir ela de cima a baixo. Outras já marcavam horário, traziam as amigas.
Era um começo. Pequeno, suado, mas dela.
— Elisa, depois você faz minha unha? — perguntou a Marlene, parada no portão, abanando o rosto com a mão — Quero esse rosa choque aí.
— Faço sim, Dona Marlene — respondeu, sem tirar o olho da cutícula da cliente atual — Só terminar essa da Suelen aqui. Mais dez minutinhos.
João começou a bater o carrinho imaginário no chão, rindo sozinho, falando “bibi” pros esmaltes vazios. Elisa o observava com o canto do olho, com carinho, mas mantinha atenção no trabalho. A mão tinha que ficar firme. Cliente não pagava por borrão.
Foi então que percebeu o menino levantando do chão. Apoiou nas perninhas grossas, cambaleou.
— João… — chamou, distraída, achando que ele ia pra Rosa — Fica aqui, filho.
Mas ele já havia saído, com os passinhos ainda inseguros, desengonçados, indo em direção à viela. Em direção à rua.
Elisa sentiu o coração disparar na hora. Um segundo de distração.
— João! — gritou, largando o alicate na mesa.
Ela se levantou rapidamente, quase derrubando o vidro de esmalte vermelho no chão. Saiu pra fora da varanda, descalça, e o viu caminhando direto, decidido, para alguém que subia a rua conversando.
Henrique.
Ele vinha no meio da viela com o Dudu do lado, falando baixo, com a cara fechada de sempre. Boné, sem camisa, a corrente no pescoço. Mas parou assim que viu o menino de um ano se aproximando, sozinho, com os bracinhos estendidos pra ele, balançando.
— Ão! — João chamou, sorrindo, mostrando os dentinhos — Ão!
Henrique parou de andar na hora. Dudu também. Os dois olharam pro menino. Depois Henrique olhou em volta, procurando a mãe. Um pequeno sorriso, raro, quebrou a dureza do rosto dele por um segundo.
— Tá folgado, hein, campeão — murmurou, e se abaixou.
Pegou o menino com facilidade, como se fizesse aquilo todo dia, apoiando-o no braço forte, tatuado. João imediatamente puxou o boné dele com as duas mãos, rindo, achando graça.
Elisa chegou, um pouco sem fôlego, com a mão no peito. O susto e a corrida.
— Desculpa… — falou, tentando pegar João de volta — Ele saiu correndo. Eu me distraí um segundo e…
— Relaxa — Henrique cortou, ajeitando o boné na cabeça que João tentava roubar de novo — Ele é esperto.
João parecia completamente à vontade, como se aquele fosse o lugar dele. Batia a mãozinha aberta no peito tatuado dele, “tum tum”, e ria. Henrique segurou o boné com uma mão pra não cair, e com a outra segurou o menino firme, sem esforço. Natural.
— Ele gosta de você — Elisa disse, quase sem perceber, a frase escapando — Nunca faz isso com estranho.
— Criança não mente — ele respondeu, dando de ombros, mas o olhar dele ficou preso no dela — Sente quem é de verdade.
Os olhos deles se encontraram. De perto.
Por um instante, Elisa esqueceu o barulho ao redor. Esqueceu a Suelen na cadeira, a Marlene no portão, o Dudu parado atrás. O olhar dele era intenso, firme, escuro, mas sem a dureza habitual, sem a frieza de chefe. Havia algo diferente ali, no fundo. Algo que ela não sabia nomear. Cansaço? Curiosidade?
— Ele não estranha ninguém… — ela comentou, tentando quebrar o silêncio, tentando respirar — É muito dado.
— Melhor assim — Henrique disse, baixo — Mundo é cão. Quem estranha demais, sofre demais.
Henrique passou a mão grande, calejada, leve nas costas de João, num carinho desajeitado, mas real. O menino já brincava com a corrente grossa dele novamente, enfiando o dedo no meio dos elos, encantado com o brilho.
— Tá trabalhando bastante? — ele perguntou, sem tirar o olho do menino, mas falando com ela.
— Tô… devagar, mas tá indo — Elisa respondeu, ajeitando o cabelo atrás da orelha, sem graça — Hoje já fiz três. Se continuar assim…
— Qualquer coisa que precisar… — ele começou, e parou.
Não terminou a frase. Não precisou.
Mas Elisa entendeu. Entendeu tudo. O “qualquer coisa” não era sobre esmalte. Não era sobre dinheiro. Era sobre tudo. Sobre tiro. Sobre Bianca. Sobre o mundo.
— Obrigada — ela disse, só isso. A voz saiu um fio.
Henrique assentiu uma vez e entregou João de volta com cuidado, com o mesmo jeito que pegou. O menino fez um som de protesto, “ahhh”, esticando os bracinhos pra voltar, mas logo se acomodou no colo da mãe, cheirando o pescoço dela, cansado da aventura.
— Fica esperto com ele — Henrique disse, ajeitando o boné de vez — Rua não é lugar de criança sozinha.
— Vou ficar — Elisa prometeu, segurando João mais forte — Não solto mais.
Ele assentiu de novo, lançou um último olhar pra ela, rápido, e voltou a subir a rua com o Dudu, que não tinha dito uma palavra o tempo todo. Só observado.
Elisa ficou parada alguns segundos na entrada da varanda, observando-o se afastar, as costas largas sumindo entre as casas. O coração não desacelerava.
Atrás dela, a Suelen, que fingia mexer no celular o tempo todo, comentou baixinho, mas alto o suficiente pra Marlene ouvir:
— O menino já escolheu…
Elisa fingiu não ouvir. Voltou pra mesa, sentou, pegou o alicate de novo com a mão tremendo.
Mas seu coração estava acelerado demais para ignorar. E a cabeça também.
Porque não era só o João que tinha escolhido. Não era só criança que não mente.
Ela também. No segundo que viu ele com o filho no colo, que viu o jeito que segurou, que viu que o mundo inteiro parou e ele não ligou… alguma coisa dentro dela escolheu também. Alguma coisa perigosa. Alguma coisa que não tinha volta.
E o pior: o morro inteiro viu. De novo.
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No fim da tarde, quando já guardava os esmaltes na caixa de plástico, Rosa se aproximou com dois copos de suco.
— Toma, menina — entregou um pra ela — Cê tá branca que nem papel.
Elisa pegou, bebeu um gole. Tava doce demais.
— Foi só o susto — mentiu — Do João sair correndo.
Rosa sentou do lado, na mureta. Olhou pra ela de lado.
— Foi só o susto mesmo? — perguntou, baixinho — Ou foi ele?
Elisa não respondeu na hora. Olhou pro João, que dormia no colchão lá dentro, exausto do dia. Olhou pras mãos, manchadas de esmalte.
— Tia… — começou, a voz falhando — Que que eu tô fazendo?
— Vivendo — Rosa disse, simples — Do jeito que dá. Do jeito que o morro deixa.
— Mas ele… ele é… — Elisa não conseguiu terminar. Bandido. Chefe. Perigoso. Tudo.
— Ele é o que é — Rosa completou — E cê é o que é. Uma mãe. Sozinha. E ele tá olhando por vocês. O resto… o resto a gente vê depois. Um dia de cada vez.
Elisa assentiu, mas o nó na garganta não desatou.
Porque “um dia de cada vez” era mentira. No morro, um dia virava sentença. E a sentença dela já tava sendo escrita, linha por linha, na frente de todo mundo.
E ela nem sabia se queria apagar. Ou se queria deixar escrever até o fim.