O movimento naquela manhã estava melhor do que Elisa esperava, melhor que ontem. Três mulheres já aguardavam sentadas na mureta da varanda, conversando entre si, rindo, enquanto ela terminava de pintar as unhas da Dona Cida com cuidado, a mão firme pra não borrar o vermelho. João estava sentado no chão de cimento, cercado por esmaltes vazios que Rosa lavou e deu pra ele, e fingia que eram carrinhos, fazendo “vrum vrum” e batendo um no outro.
— Essa cor é linda, menina — disse Dona Cida, observando as próprias unhas recém-feitas, movendo os dedos na luz — Ficou chique.
— Combina com sua pele — respondeu Elisa com um sorriso leve, sincero, soprando de leve pra secar.
— Vermelho é poder.
Ela começava a se sentir mais confortável ali, naquela varanda, naquela rotina. Ainda tinha medo, acordava de madrugada com qualquer barulho. Ainda se sentia deslocada às vezes, com o sotaque, com as histórias. Mas o trabalho ajudava. Ocupava a cabeça. Ocupava as mãos. Impedia ela de pensar no carro preto, na Bianca, no “coleira” que não saía da cabeça.
Até que o burburinho da rua diminuiu.
Não foi algo brusco, um corte seco. Foi gradual. Como se as vozes fossem ficando mais baixas, uma a uma. Como se alguém tivesse abaixado o volume do morro. Como se o ar mudasse de densidade, ficasse pesado.
Elisa percebeu. A espinha formigou.
Ergueu o olhar da unha que pintava, do vidrinho de esmalte.
Henrique estava parado na entrada da viela, no começo da subida pra casa da Rosa.
Sem camisa, como sempre, o corpo coberto por tatuagens que desciam pelo peito e pelos braços. Boné preto baixo, escondendo os olhos, mas não escondia a postura. Calça cargo, coturno. A arma cromada na cintura refletia a luz forte do sol das dez da manhã, brilhando. A presença dele preenchia o espaço de forma quase imediata, sugando tudo. Os sons, as conversas, até o vento pareceu parar.
As mulheres se calaram na mesma hora. Todas. A Dona Cida, a Suelen, a menina adolescente. Até João parou de bater os esmaltes, sentindo a mudança.
— Bom dia — ele disse, com a voz firme, grave. Não gritou. Não precisou.
— Bom dia… — responderam, algumas sem disfarçar o interesse, o r**o de olho. A Suelen ajeitou o cabelo. A adolescente prendeu a respiração.
Elisa sentiu o coração acelerar, bater contra o peito como ontem, nos tiros. Não esperava vê-lo ali. Não de dia. Não na frente de todo mundo. Limpou as mãos rapidamente no papel toalha, nervosa, sem saber onde enfiar.
— Tá tudo certo? — ele perguntou, olhando direto para ela. Ignorando as outras. O boné não escondia que o foco era ela.
— Tá… sim — respondeu Elisa, a voz saindo mais baixa do que queria, limpando uma mancha de esmalte que não existia na mesa — Tá tudo bem.
Ele deu dois passos pra dentro da varanda, só dois. E o espaço, que já era pequeno, ficou minúsculo. Observou a mesa improvisada, os esmaltes organizados por cor, a latinha com o dinheiro, as clientes. Observou tudo.
— Movimento bom — comentou, a voz neutra, mas tinha algo ali. Aprovação?
— Tá começando agora — Elisa disse, sem saber pra onde olhar. Pro rosto dele? Pras unhas? Pro chão? — Hoje tá melhor que ontem.
Ele assentiu, devagar. Enfiou as mãos no bolso da calça.
João, que tava quieto no chão, levantou os olhos do carrinho. Assim que viu Henrique, o rostinho inteiro iluminou. Abriu um sorriso largo, de orelha a orelha, mostrando os quatro dentinhos.
— Ão! — chamou, batendo as mãozinhas gordinhas no chão, animado — Ão!
Um pequeno sorriso, mínimo, surgiu no canto da boca de Henrique. Quase invisível. Mas tava lá. Elisa viu. As outras viram.
— Fala, campeão — ele respondeu, tirando uma mão do bolso e apontando pro menino — Tá de carrão novo hoje?
João tentou se levantar do chão, se apoiando na mesa, querendo ir até ele. Animado. Reconhecendo.
— Fica aí, João — Elisa falou rápido, segurando ele pela camisetinha, o coração na boca — Chão tá sujo, filho.
Henrique olhou para a cena, pro jeito que ela protegeu o menino, pro cuidado. Depois voltou a encarar Elisa. Demorou. O olhar pesou. Procurou alguma coisa no rosto dela.
— Só passei pra ver se tava tranquila — disse, por fim — Se os meninos tão fazendo o trabalho direito lá em cima. Se ninguém tá enchendo.
Ela assentiu, engolindo seco. A garganta seca.
— Tá… tá tudo bem — repetiu — Obrigada. De novo.
Ele permaneceu alguns segundos em silêncio, parado ali. O sol batendo nas tatuagens, na cicatriz da sobrancelha. Parecia que ia dizer algo a mais. A boca abriu um pouco. Mas não disse. Fechou. Apenas virou o corpo e saiu, descendo a viela do mesmo jeito que veio, sem pressa, com as mãos no bolso. Como se fosse dono do chão que pisava. E era.
Assim que ele se afastou, dobrando a esquina, sumindo de vista, as mulheres começaram. Todas de uma vez. Como se tivessem prendendo a respiração.
— Menina… — Dona Cida foi a primeira, se abanando com a mão — Ele veio só te ver…
— Nunca vi ele parar aqui na varanda de ninguém — Suelen completou, os olhos brilhando de fofoca — Ele passa direto. No máximo fala com a Rosa de longe. Hoje ele entrou.
— O menino gosta dele… — a adolescente apontou pra João, que ainda olhava pra rua, procurando o “Ão” — Chamou e tudo. Parece que conhece.
— E ele respondeu — Marlene chegou do nada, aparecendo no portão — Eu tava lá de cima e vi. O Lobão riu. Riu, gente. Quando foi a última vez que vocês viram o Lobão rir?
Elisa tentou manter a calma, voltou a focar na unha de Dona Cida, mas a mão tremia agora. Sentia o rosto esquentar, o sangue subir. Queimar. Não era vergonha. Era exposição.
— Gente, para — tentou, rindo sem graça — Ele só veio ver se tava tudo seguro. Por causa de ontem. Dos tiros.
— Seguro? — Suelen rebateu, cruzando os braços — Minha filha, tem segurança dele em toda esquina. Ele não precisa descer pra ver. Ele manda. Se ele desceu… é porque queria te ver. Você.
— É… — Marlene concordou, sentando na mureta — E o João… o João reconheceu ele. Criança não mente. Criança sente. Se o menino gostou, é porque ele trata bem.
— Ai, que fofo — a adolescente suspirou — Imagina o Lobão trocando fralda.
Todas riram. Menos Elisa. E menos a Rosa, que apareceu na porta da sala com a cara fechada.
— Já chega de falatório — Rosa cortou, brava — Deixa a menina trabalhar. Vão cuidar da vida de vocês, que a dela já tá difícil.
As mulheres se calaram, mas os olhares continuaram. Os sorrisos maliciosos. Os cutucões.
Elisa terminou a unha de Dona Cida em silêncio, com a cabeça longe. Pagou, agradeceu, e foi embora. As outras foram saindo aos poucos também, mas a fofoca ia junto. Desceu a viela com elas.
Quando ficou sozinha na varanda com a tia, Rosa se aproximou.
— Viu só? — disse, baixinho — Eu falei. Não deu dez minutos que ele saiu e o morro inteiro já tá sabendo. Já tá aumentando.
Elisa passou a mão no rosto, cansada. Exausta.
— Eu não fiz nada, tia — sussurrou — Eu só… trabalhei. Ele que apareceu.
— Eu sei, minha filha — Rosa sentou do lado — Mas não precisa fazer. Basta ele olhar. No mundo dele, olhar já é decreto. E ele olhou pra você. Na frente de todo mundo.
João veio engatinhando e subiu na perna de Elisa, pedindo colo. Ela pegou, abraçou forte, enterrando o rosto no cabelinho dele, sentindo o cheirinho.
Algo estava mudando. De vez. Não era mais só tiro. Não era só medo do ex. Não era só Bianca.
Era ela. O nome dela. Na boca do morro. Ligado ao nome dele.
E todos estavam percebendo. Todos estavam comentando. Todos estavam esperando o próximo capítulo.
E no morro, quando todos esperam, alguém age. Pra bem. Ou pra m*l.