O barulho dos tiros já havia diminuído, virado só sirene longe lá na pista, mas o corpo de Elisa ainda tremia. Sentada na cadeira de madeira na sala do Lobão, João continuava agarrado a ela, chupando o pirulito que ele deu enquanto fungava baixinho, o soluço ainda preso no peito pequeno.
Henrique observava em silêncio, encostado na mesa de centro. Não andava de um lado pro outro. Não falava no rádio. Só olhava.
Ele não parecia nervoso. Não parecia abalado. Não tinha suor frio, não tinha mão tremendo. Era como se aquilo fosse apenas parte da rotina, como chuva. Tiro, correria, invasão. E isso, de alguma forma, deixava Elisa ainda mais consciente de que aquele mundo era muito diferente do dela. De que ela não pertencia.
— Já passou — ele disse, com a voz calma, baixa. Não era pergunta. Era fato.
Elisa assentiu, engolindo seco, mas suas mãos continuavam frias, geladas no braço de João.
— Você não tá acostumada com isso, né? — ele perguntou, os olhos escuros fixos nela, lendo cada reação.
Ela negou com a cabeça, rápido. Não confiava na voz.
— Nunca… nunca ouvi tão perto — conseguiu dizer, e a voz saiu mais fina do que queria — Nem em filme.
Henrique apoiou o rádio preto na mesa de vidro, o barulho seco ecoando na sala grande. Cruzou os braços no peito nu.
— Aqui acontece — falou, dando de ombros — Problema de território. Já foi resolvido. Mas ninguém mexe contigo. Nem com ele.
Mais uma vez aquela frase. Aquela promessa.
Proteção.
João, já mais calmo com o doce, olhou para Henrique com curiosidade, a cabeça virando de lado. Os olhos grandes, de criança, encarando o homem tatuado, cicatrizado, armado. O menino inclinou o corpo para frente no colo de Elisa, esticando os bracinhos pequenos, gordos, na direção dele. Como se conhecesse.
Elisa se surpreendeu. Travou.
— João… — murmurou, sem entender — Fica quieto, filho.
Henrique arqueou levemente a sobrancelha. A única reação no rosto de pedra.
— Ele quer vir — disse Rosa, que tinha entrado na casa junto com eles e estava ali perto, na porta da cozinha, observando tudo com o olhar esperto — Criança sente.
Por um segundo, um segundo inteiro, Henrique hesitou. O corpo inteiro ficou rígido. Ele olhou pro menino, depois pra Elisa, como se pedisse permissão, como se não soubesse o que fazer. Depois estendeu os braços, grandes, e pegou o menino com um cuidado que não combinava com o tamanho da mão dele, com os calos. Com receio de machucar, de quebrar.
João se acomodou contra o peito tatuado dele na mesma hora, como se fosse lugar conhecido. Suspirou e segurou a corrente grossa de ouro que pendia no pescoço de Henrique, brincando com o pingente.
O contraste era grande demais. Surreal.
Um homem temido no morro inteiro. Um homem que mandava m***r. Com uma criança tranquila em seus braços, brincando com a corrente dele como se fosse brinquedo.
Elisa observava, sem conseguir disfarçar a surpresa, a boca entreaberta. O coração, que tava disparado de medo, agora batia de outro jeito. Confuso.
Henrique olhou para o menino, e por um segundo, só um segundo, a expressão dele suavizou. Quase imperceptível.
— Pesado, hein, campeão — disse, a voz saindo mais grossa, mais baixa — Comeu bem hoje.
João riu, um risinho de bebê, e bateu a mãozinha aberta no peito dele, fazendo barulho. Bateu de novo.
Foi nesse momento que uma voz surgiu na entrada da sala, vindo do corredor.
— Tá tudo bem aí? — a voz era feminina. Aveludada. Dona.
Bianca.
Ela parou no meio da sala, do nada. Como se fosse de casa. O salto alto, a calça de couro justa, o top que mostrava a barriga chapada. O cabelo escovado. O perfume forte invadiu o ambiente antes dela.
Os olhos dela foram direto para João no colo de Henrique. Pararam ali um segundo. Depois subiram para Elisa, sentada na cadeira, desarrumada, de cabelo preso de qualquer jeito. O olhar dela endureceu. Gelou. Mediu.
— Tá — Henrique respondeu, simples, sem tirar João do colo — Resolvido.
Bianca entrou mais alguns passos na sala, o salto estalando no porcelanato. Cruzou os braços, se apoiando na cintura fina.
— Fiquei sabendo que teve correria — disse, mas não tava olhando pra ele — Que subiu carro estranho. Que você mandou buscar gente.
— Já resolveu — ele repetiu, mais seco — Não foi nada.
Ela assentiu devagar, com a cabeça, mas não desviou os olhos de Elisa nem por um segundo. Era um exame. Uma análise.
— Então é ela… — disse, por fim, com um leve tom provocativo, o canto da boca repuxando — A loira da Rosa. A que tá dando trabalho.
Elisa sentiu o clima mudar novamente na sala. O ar ficou pesado. Se antes tava tensão de tiro, agora era tensão de mulher. Pior.
Henrique não respondeu a provocação. Não entrou no jogo. Apenas olhou pra ela, pra Bianca, e depois entregou João de volta para Elisa, com o mesmo cuidado de antes.
— Leva ela em casa — ele disse, virando o rosto pro Dudu que tava parado na porta — Devagar. Pela de trás. Sem passar na pista.
Bianca soltou uma risada curta, sem humor nenhum. Seca. Cortante.
— Tá protegendo agora? — perguntou, inclinando a cabeça, o veneno na voz — Tá de babá, Lobão?
Henrique lançou um olhar firme para ela. Um só. Não gritou. Não precisou. O olhar bastou pra temperatura cair dez graus.
— Tô mandando — disse, a voz baixa, mas cada sílaba era uma ordem — E não repete pergunta.
O silêncio caiu. Pesado. Dudu até prendeu a respiração.
Elisa se levantou na mesma hora, segurando João, que reclamou de sair do colo quente. O homem já aguardava na porta pra acompanhar ela, pra fazer a escolta. Ela olhou para Henrique antes de sair. Não pra Bianca.
— Obrigada… — disse, sincera, a voz quase sumindo — Pelo João. Por… tudo.
Ele apenas assentiu com a cabeça. Um movimento mínimo. Não falou.
Enquanto saía, escoltada por Dudu, Elisa sentia o olhar de Bianca queimando em suas costas. Queimando a nuca. Queimando a pele. Não precisava virar pra saber. Era ódio. Era posse.
E soube. Naquele segundo, atravessando a sala.
Aquilo estava só começando. O tiroteio foi o de menos. A guerra de verdade não usava bala. Usava olhar. E ela tinha acabado de entrar nela, sem querer.
Lá fora, já na viela, descendo com Dudu na frente, Rosa veio atrás e segurou no braço dela.
— Não esquenta a cabeça com essa daí não, menina — sussurrou Rosa, olhando pra trás pra ver se tavam longe — Cobra criada. Venenosa.
— Quem é ela, tia? — Elisa perguntou, baixo, sem parar de andar.
Rosa suspirou.
— É a Bianca. Era… é… sei lá o que é do Lobão — disse, dando de ombros — Fica se achando a dona do morro porque esquenta a cama dele de vez em quando. Mas ele nunca assumiu nada. Nunca.
Elisa engoliu seco. Então era isso. O “boa sorte” da Jéssica mais cedo não era nada perto disso.
— Esquece — Rosa completou — Foco no teu trabalho. No teu menino. O resto… o resto se resolve.
Elisa assentiu. Mas sabia que não ia esquecer. Não tinha como. Porque quando chegou em casa, colocou João pra dormir, e deitou no colchão, a imagem não saía da cabeça: João no colo dele. Rindo. E a cara da Bianca quando viu.
Pela primeira vez, o medo que ela sentia não era só de tiro. Não era só do ex. Era de gente viva. De gente com ciúme. E ciúme, no morro, matava mais que bala.