O movimento no cantinho de manicure continuava firme. O cheiro forte de acetona misturava-se ao perfume doce de lavanda de uma das clientes, enquanto Elisa terminava de pintar as unhas de Dona Cida com cuidado, a mão firme apesar do calor. João brincava no chão da varanda, agora com dois carrinhos, um azul e um vermelho, conversando sozinho em sua linguagem infantil, fazendo “vrum vrum” e dando risada.
Apesar da conversa fiada das mulheres, dos elogios, do dinheiro na latinha, Elisa ainda pensava na mulher que havia acabado de sair, meia hora atrás.
Jéssica.
A forma como ela havia olhado… não era curiosidade. Era medição. Como se estivesse marcando território, contando cada centímetro que Elisa ocupava no morro. Como se dissesse “sei que você tá aqui”. Elisa tentou afastar o pensamento, balançando a cabeça enquanto passava a última camada de extra-brilho. Não tinha direito algum de se incomodar. m*l conhecia o Lobão. Não era nada dele. Não era ninguém.
— Tá ficando linda, menina — disse Dona Cida, admirando as unhas vermelhas, recém-feitas — Você tem mão de anjo.
— Pronto… — Elisa sorriu, fechando o vidrinho — Seca só com a boca, não assopra.
De repente, um som seco ecoou ao longe, vindo lá de cima. Cortando a risada das mulheres.
Um estalo. Seco. Estalado.
Elisa parou, com o pincel no ar. A espinha gelou.
As mulheres se entreolharam na mesma hora, o sorriso sumindo do rosto de todas. Silêncio.
Outro som.
Mais alto. Mais perto.
Dessa vez não havia dúvida. Não era rojão. Não era escapamento de moto.
Tiros.
João se assustou no chão e começou a chorar na mesma hora, o rostinho franzindo, assustado com o barulho e com a tensão que tomou o ar. Elisa largou tudo na mesa e o pegou rapidamente no colo, o coração disparando, socando as costelas.
— Tia…? — sua voz saiu trêmula, fina, procurando Rosa.
Rosa apareceu na porta da cozinha em dois segundos, já com o rosto mais tenso, mais duro. Limpou a mão no avental.
— Entra todo mundo pra dentro — ordenou, sem gritar, mas a voz não deixava espaço — Agora. Deixa a varanda.
O barulho aumentou. Pessoas correndo na viela lá fora, passos apressados no paralelepípedo. Portas sendo fechadas com força, batendo. Gritos abafados. O som de motos acelerando, subindo o morro com tudo. O morro acordou.
Elisa nunca tinha ouvido aquilo tão perto. Nos filmes, na TV, parecia longe. Aqui era na cara. Seu corpo reagiu imediatamente, como se soubesse o que fazer antes dela. As mãos começaram a suar frio, o coração batia forte demais, rápido demais, doendo. João chorava agarrado ao pescoço dela, os bracinhos apertando, sentindo tudo.
— Calma, meu amor… calma… — ela murmurava no ouvido dele, andando de um lado pro outro na sala, mas a própria voz tremia, falhava — A mamãe tá aqui… xiu…
Uma das clientes, a mais nova, correu e fechou a janela da sala rapidamente, trancando o ferrolho com a mão tremendo.
— É lá em cima… no alto — disse ela, espiando pela fresta — No campo.
— Meu Deus… — outra disse, se benzendo, sentando no sofá — Protege nós.
Elisa não conseguia pensar direito. Só apertava João contra o peito, tentando protegê-lo com o corpo, com os braços, como se isso fosse suficiente contra bala. Como se pele segurasse tiro.
Um barulho mais forte ecoou, mais grave. Pareceu tremer a parede. Ela se abaixou instintivamente, protegendo a cabeça de João com a mão, agachando no chão da sala.
— Não, Elisa — Rosa disse, vindo até ela e puxando pelo braço pra levantar — Aqui é mais protegido. Essa parede é grossa. Fica calma. Respira. Eles não desce aqui.
Mas como ficar? Como respirar? O mundo dela parecia girar, o ar sumir. Nunca tinha vivido algo assim. Não sabia o que fazer, para onde correr, como agir, o que falar pro filho. Só sabia o medo.
Então, passos rápidos, pesados, se aproximaram da casa. Subindo a escada da laje. Diferentes dos de antes.
Um homem apareceu na porta da sala, empurrando sem bater. Era o Dudu. Sem camisa, suado, com a pistola na mão, na cintura.
— A mando do Lobão — disse, ofegante, olhando em volta rápido — É pra levar ela pra dentro. Agora.
Os olhos dele foram direto para Elisa, agachada no chão com João.
— Eu…? — ela perguntou, a voz sumindo.
— Isso. Vem — ele estendeu a mão, chamando — Depressa. Antes que feche tudo.
Rosa assentiu, com o rosto pálido, mas decidido.
— Vai, filha — disse, pegando a bolsa de João do canto e enfiando na mão dela — É melhor. Lá é blindado. Vai com ele.
Elisa segurou João, a bolsa, e seguiu o homem, ainda tremendo, as pernas bambas. O barulho dos tiros continuava, agora mais distante, mais espaçado, mas ainda ali. Eles saíram pela porta dos fundos, cortando por um beco estreito que ela não conhecia, subindo. Dois outros homens que ela já tinha visto com Lobão aguardavam no caminho, com a mão na cintura, os rostos fechados, fazendo a escolta. O clima era de guerra iminente, todos atentos a qualquer barulho, a qualquer sombra.
Elisa caminhava no meio deles, com João no colo chorando baixinho, tentando ao máximo não demonstrar o pânico que fazia suas pernas tremerem, que fazia o estômago revirar. Subiram mais duas vielas, rápido. Quando passaram pelo beco de cima, ela não viu o carro preto. Só ouviu mais motos.
Chegaram no portão de ferro alto. O mesmo de ontem.
Ao entrar, assim que o portão bateu e trancou atrás deles com aquele barulho pesado, metálico, ela parou. O som da rua sumiu completamente. Abafado pelo muro. Agora ela estava, oficialmente, dentro da casa do dono do morro. De novo.
Henrique estava lá, no meio da sala grande.
De pé, falando no rádio comunicador, com a voz baixa e dura. Ainda sem camisa, só de bermuda. O corpo todo tenso, marcado, cada músculo definido. O olhar atento, varrendo tudo. Suado.
Quando viu Elisa entrar com João, ele desligou o rádio na mesma hora e jogou em cima do sofá.
Os olhos dele passaram por João chorando, rosto vermelho… depois por ela, claramente assustada, pálida, com o cabelo grudado na testa de suor. Desmontada.
— Calma… — disse com voz firme, mas não era ordem. Era diferente — Chega.
Ele se aproximou devagar, diminuindo a distância, mas parando a um metro. Não tocou.
— Já tá acabando — falou, olhando pra fora, como se ouvisse algo que ela não ouvia — Foi só invasão. Já contiveram.
Elisa não respondeu. Só segurava o filho com força, o corpo todo tremendo, em choque. Não conseguia falar. Henrique pegou uma cadeira de madeira que tava no canto e puxou pra perto dela.
— Senta — disse. Não mandou. Pediu.
Ela obedeceu, as pernas cedendo, sentando com João no colo. O menino chorava, soluçando, assustado, e Henrique, sem jeito, enfiou a mão no bolso da bermuda e tirou outro pirulito, igual ao da outra vez. Estendeu para o menino.
— Toma aí, campeão — disse, a voz menos dura — Acabou o barulho. Acabou.
João, ainda soluçando, entre lágrimas, pegou o pirulito com a mãozinha suja. Enfiou na boca. O choro foi diminuindo, virando soluço.
O silêncio se instalou na sala. Lá fora, o barulho de tiro tinha parado de vez. Só ficava a sirene longe, na pista. Henrique olhou novamente para Elisa. Reparou no tremor da mão dela, no jeito que ela respirava fundo pra não desabar.
— Aqui dentro tá seguro — disse ele, por fim — Essa casa é blindada. Parede, janela, tudo. Pode cair o mundo lá fora que aqui não entra.
As palavras eram simples, diretas, mas o tom transmitia algo forte. Algo que não era só sobre bala. Era promessa.
Proteção.
E, mesmo assustada, mesmo com o corpo ainda em alerta, mesmo sem querer, Elisa sentiu que, naquele momento… estava. Pela primeira vez desde que o carro preto apareceu na viela, ela respirou.
Não era paz. Mas era um intervalo. E o intervalo tinha o rosto dele.