O pequeno canto improvisado já estava pronto desde cedo.
Rosa havia conseguido uma mesa de fórmica simples, uma cadeira de plástico e um banquinho baixo. Elisa organizou seus esmaltes com cuidado na varanda da frente, alinhando cada cor por tom como se aquilo desse mais segurança ao novo começo, como se ordem nos vidros fosse ordem na vida. João estava sentado em um tapete fino no chão de cimento, brincando com um carrinho de plástico azul que a vizinha Marlene havia dado ontem, todo animado.
O movimento começou cedo, antes das oito.
— É aqui que tá fazendo unha? — perguntou a primeira mulher, encostando no portão baixo da varanda, sem entrar ainda. Tinha uns quarenta anos, cabelo preso.
— Sou eu… pode entrar — Elisa respondeu com um sorriso tímido, limpando as mãos no pano — Senta aí.
A mulher entrou observando tudo. Os olhos passaram pela mesa, pelos esmaltes organizados, pela toalha limpa… e depois voltaram para Elisa, subindo e descendo.
— Você que é a sobrinha da Rosa, né? — perguntou, sentando na cadeira — A que veio do sul?
— Sou — Elisa confirmou, pegando o algodão.
— Bonita você… — comentou a mulher, sem disfarçar a curiosidade, o exame — Bem clarinha. Cabelo de verdade?
Elisa apenas sorriu, sem graça, e começou a tirar o esmalte velho da cliente. Não demorou muito e outra apareceu na varanda. Depois mais uma, trazendo a filha adolescente. Em poucos minutos, três mulheres estavam ali, sentadas na mureta, olhando, cochichando entre si, avaliando. João batia o carrinho no chão, fazendo “vrum vrum”, completamente à vontade, alheio aos olhares.
— Quantos anos tem? — perguntou uma delas, a mais nova, apontando pro queixo — Você, não ele.
— Vinte e três — Elisa respondeu, concentrada na cutícula.
— E esse pequeno? — a mesma apontou pro João.
— Um ano. Se chama João — Elisa respondeu, e sem querer sorriu ao falar o nome dele.
— Lindo… puxou a mãe — disse a primeira, a de quarenta — Os olhos.
Elisa sentiu o rosto esquentar. Não tava acostumada com elogio, não assim.
Enquanto fazia a primeira unha, percebia os olhares. Não eram maldosos, não tinham julgamento. Mas eram curiosos. Famintos. Queriam saber tudo. Queriam a história. No morro, novidade era ouro.
— Você veio de onde mesmo? — perguntou a adolescente, mexendo no celular.
— Do sul — Elisa respondeu, curta.
— Sul? — outra repetiu, arregalando os olhos — Longe, hein. Cruzou o país.
— Muito — Elisa confirmou, sem dar detalhes.
— E o pai do menino? — a de quarenta foi direto ao ponto, sem rodeio — Não veio junto?
Elisa hesitou um segundo, a lixa parando no meio do movimento. O coração deu aquele salto de sempre.
— Não estamos juntos — respondeu, baixo.
O silêncio breve que se formou na varanda dizia muito. Dizia tudo. As mulheres trocaram olhares discretos entre si, daqueles que comunicam. Entendimento. Pena. Julgamento velado.
— Entendi… — murmurou a de quarenta, balançando a cabeça devagar — Homem é tudo igual, minha filha.
Nesse momento, uma nova presença surgiu na entrada da varanda, parada no sol.
O ambiente mudou. Na hora. O ar ficou diferente.
Ela era bonita. Muito. Morena, cabelo liso na cintura, corpo marcado por academia e por roupa justa que não escondia nada. Calça de couro fake, top cropped. O olhar firme, de quem manda, percorreu o pequeno espaço todo, ignorando as outras mulheres, até parar em Elisa. Depois desceu para João, no chão. Analisou o menino. Depois voltou pra Elisa, de cima a baixo. Um raio-x.
— Então é você — disse. Não era pergunta. Era constatação.
Elisa levantou os olhos da mão da cliente. Sentiu a garganta secar.
— Sou… — respondeu com calma, forçada — Quer fazer a unha?
A mulher entrou devagar, o salto fino batendo no cimento. Analisando cada detalhe da varanda, da mesa, dos esmaltes baratos, do carrinho de João. Como se tivesse calculando quanto valia tudo aquilo.
— Tão falando de você no morro inteiro — disse, a voz era aveludada, mas tinha uma lâmina embaixo — A loira da Rosa. A que o Lobão mandou botar segurança na porta.
Rosa apareceu na porta da cozinha nesse segundo, enxugando a mão no pano de prato, percebendo o clima. O rosto fechado.
— Essa é a Elisa, minha sobrinha — disse, com naturalidade forçada, se colocando do lado — Tá trabalhando pra ajudar em casa.
A mulher assentiu devagar, mas não desviou o olhar de Elisa nem por um segundo. Não piscava.
— Eu sei — disse — Todo mundo sabe.
Uma das clientes, a adolescente, cochichou baixo para a mãe ao lado, mas alto o suficiente pra Elisa ouvir:
— É a Jéssica…
Elisa ouviu. Guardou o nome. Jéssica.
— Quer fazer a unha? — Elisa repetiu, tentando manter a cordialidade, a postura profissional — Tenho horário agora.
Jéssica cruzou os braços sobre o peito farto. O gesto fez a corrente de ouro brilhar.
— Depois — disse — Vim só conhecer. Ver de perto a novidade.
Seus olhos deslizaram novamente por Elisa, demorando mais do que o necessário no rosto, no cabelo, na roupa simples. Depois, ela falou, com um meio sorriso que não chegava nos olhos:
— O Lobão que mandou montar isso aqui pra você? — perguntou, apontando pro canto com o queixo — A mesa, as coisas?
— Não… — Elisa respondeu, firme — Minha tia montou. Eu que pedi.
— Hum… — Jéssica fez, e a forma como ela reagiu, o som, deixava claro que não acreditou. Que estava avaliando algo, tirando conclusões — Sei.
Um leve incômodo cresceu no peito de Elisa. Uma queimação. Não era medo. Era outra coisa. Algo que ela não sentia há muito tempo.
João, como se sentisse, levantou do tapete e caminhou cambaleando até a mesa, segurando na perna de Elisa. Ela o pegou no colo na mesma hora, protegendo.
— Oi, pequeno… — disse Jéssica, olhando pra ele, mas não sorriu. Não fez a voz de neném — Bonitinho.
Ela deu mais um olhar para Elisa, longo, pesado, e se virou pra ir embora. Mas parou no meio do caminho, na saída da varanda.
— Boa sorte aí — disse, por cima do ombro — Com o salão. Vai precisar.
Saiu. Desceu a viela rebolando, sem olhar pra trás.
O ambiente pareceu respirar novamente assim que ela dobrou a esquina. O ar voltou.
Uma das mulheres, a de quarenta, soltou o ar que tava prendendo:
— Essa aí… — começou, e balançou a cabeça.
— O quê? — Elisa perguntou, fingindo desinteresse, voltando a lixar a unha da cliente, mas o coração tava na mão — Quem é ela?
— Vive grudada no Lobão — a mulher respondeu, baixando a voz, olhando pros lados — Desde sempre. Antes de virar chefe, já andava com ele. Diz que é a “primeira-dama” do morro.
Rosa lançou um olhar f**o pra mulher, um olhar pra silenciar, pra cortar o assunto. Mas a curiosidade já estava plantada. Já tinha criado raiz.
Elisa fingiu não reagir, continuou o trabalho com a mão firme, mas algo dentro dela se apertou. Uma pontada esquisita no estômago. Ciúme? Não. Não podia ser. Era… posse? Invasão?
Pela primeira vez desde que chegou… sentiu que não era a única mulher observando Henrique. E que a outra, pelo visto, observava há muito mais tempo. E não gostava de divisão.
O resto da manhã seguiu. Mais clientes, mais unhas, mais R$ 20 na latinha. Mas Elisa não tava mais 100% ali. Parte da cabeça dela ficou na imagem de Jéssica, no jeito que ela olhou pro João, no “boa sorte” que soou como ameaça.
No fim da tarde, quando o sol já batia fraco na varanda e ela guardava os esmaltes na caixa, contando o dinheiro — R$ 240, mais do que fazia em três dias no sul —, sentiu a presença.
Não precisou olhar. Sabia.
Lobão tava parado na entrada da viela, encostado no muro de frente, do mesmo jeito que ficou ontem. Braços cruzados. Observando. Não ela trabalhando. Observando a varanda. A rua. Quem passava. Quem olhava.
Ele não se aproximou. Não falou nada. Só ficou ali uns dez minutos, em silêncio, garantindo. Depois sumiu, subindo o morro.
E Elisa, contando o dinheiro suado, entendeu duas coisas naquele fim de tarde: primeiro, que trabalhar ia ser bom, ia dar a liberdade que ela queria. Segundo, que a liberdade ali tinha preço. E o preço era ele. Sempre ele.
E agora, tinha mais uma pessoa na conta. Uma que não ia gostar nada de ver ela ali, ganhando espaço, ganhando dinheiro, ganhando p******o.