Capítulo 14

1657 Words
Eu sempre adorei o caos da delegacia, mesmo quando bêbados resolviam brigar em suas celas e terminavam sujando tudo de vômito eu ainda conseguia considerar aquele lugar como meu centro de paz, talvez o fato de que eu adore ser policial e essa seja a única coisa boa em minha vida atualmente contribua para que eu pense assim, mas algo naquela manhã estava diferente e eu não fazia ideia do que era. - Jacobs! - virei-me ao ouvir meu sobrenome, avistando a morena alta de sorriso presunçoso na entrada da delegacia sorri para ela e me aproximei, algo em mim tinha a certeza de que ela não fazia ideia do meu nome já que sempre me chamava de Jacobs, mas eu não podia julgá-la afinal eu trabalhava ali há quatro meses e não fazia ideia de como ela se chamava. - Chegou agora? - Woods! - murmurei no mesmo tom animado que ela, observei o copo de café que ela estendeu para mim e prontamente aceitei com um sorriso. - Ainda não tive tempo de checar as coisas, você tem certeza que está tudo bem trabalhar? - perguntei cuidadosamente me lembrando que ela havia comentado na ligação de que estava no hospital com problemas familiares. Eu não a conhecia tão bem a ponto de saber se ela era casada ou tinha irmãos, seu jeito fechado não colaborava para que ninguém ali soubesse da sua vida e mesmo no seu pior estado de bêbada ela não era do tipo que tagarelava, infelizmente eu era o total oposto, tudo o que eu sabia sobre ela era que se eu não tomasse o devido cuidado poderia cair em uma de suas cantadas que me faziam sorrir mais do que tudo. Com um sorriso e um café qualquer pessoa arranca de mim as informações mais sórdidas da minha vida, sinceramente eu não sei como ainda não sofri algum tipo de golpe ou algo assim. - Se eu for parar de trabalhar cada vez que minha irmã mais nova arruma problemas eu não faria mais nada da vida. - ela resmungou em meio a goles de seu café, me empurrando com o ombro ela me fez caminhar ao seu lado pelo corredor. Havia outra Woods, e pelo visto ela era mais problemática que a minha parceira de trabalho, o que eu considerava difícil imaginar alguém por que aquela morena era bastante complicada por si só. - Preciso checar uma coisa... ou esganar até que não respire mais. - não estava certa de que deveria ouvir a última parte visto que ela murmurou tão baixo. - Posso te encontrar no escritório em alguns minutos para que fofoque sobre sua vida, isso edificaria muito a minha manhã. - apertei os lábios comprimindo um sorriso ao escutar aquilo. - Você soou como se estivesse com um problema. - Eu não diria que é um grande problema... - cocei a nuca tentando colocar minha situação em palavras de fácil entendimento enquanto a seguia até as celas. Eu esperava tudo, de prostituta pega em flagrante até bêbado sujo mas quem estava ali sentado no chão da cela completamente sujo e machucado me surpreendeu. - Ok, é um grande problema. - pronunciei encarando o Kevin que ainda estava de cabeça baixa então não notou minha presença, engoli a seco me perguntando como eu diria que o cara preso era meu quase namorado a Woods sem fazê-la surtar por minha má escolha de homens mas ao notar sua cara ela já estava brava. - Kevin! - o chamamos estranhamente ao mesmo tempo. Ele ergueu a cabeça ainda meio sonolento mas ao notar quem estava a sua frente se levantou desesperado parecendo que havia se dado conta do quão encrencado estava. - E eu achando que ser preso era a pior coisa que podia me acontecer. - o ouvi dizer enquanto agarrava as grades da cela, só então notei que ele estava fedendo a urina. Olhei de soslaio para a Woods que tinha seu maxilar travado e punhos cerrados, respirei fundo e abaixando minha cabeça envergonhada tentei me explicar do melhor modo possível sem nem ao menos considerar que assumir nosso relacionamento publicamente poderia ser algo que ele não queria ainda. - Ele é meu namorado... ou algo do tipo. - o choque em seu olhar já era esperado. - Eu juro que não sei o que deu nele para vir parar aqui, mas o Kevin é um bom homem. - S-Seu namorado? - ela questionou encarando ele de modo furioso o que me deixou um pouco confusa. - Você está namorando com ele Kevin? - Por favor. - ele suplicou tentando se aproximar dela. - Eu cometi um erro. - Você cometeu mais que um erro. - Woods murmurou se afastando bruscamente. - Que merda está fazendo aqui? - questionei bravo segurando a gola de sua camisa o puxando violentamente contra a grade. - O que você fez para estar nessa situação deplorável? - Eu bati num i****a. - provavelmente ele não estava tão valente quanto na noite passada pois abaixou o seu olhar envergonhado. - Desde quando você a conhece? - ele apontou para a direção em que a Woods havia ido. - O que ela disse a você sobre mim? - Ela é detetive do departamento, as vezes eu trabalho em seus casos. - expliquei não entendendo o sentido da pergunta. - Eu não sabia que vocês se conheciam. - ele sorriu sem graça se desvencilhando da minha mão para ajeitar suas roupas. - Ok... - ele murmurou parecendo aliviado. - Meu amor eu cometi um erro bobo de bater naquele gay i****a mas eu juro que estava apenas me defendendo dele. - franzi a testa não gostando nem um pouco de sua frase. - Algum problema o cara ser gay? - questionei calmamente vendo sua óbvia expressão de nojo, ele sequer precisava responder para que eu soubesse que estava diante de um preconceituoso com mente pequena. Me admirava que ele pudesse ser tão maduro e tranquilo, mas agora era notável que ele tinha vergonha daquela parte de sua vida e pior ainda, era preconceituoso com seus semelhantes. - O i****a gay está num hospital! - Woods pronunciou furiosa abrindo a cela, havia outro policial consigo que apesar de grande parecia inofensivo perante a morena. - Vamos fazer sua ficha criminal. Aquilo soava um pouco drástico já que uma ficha criminal suja sua imagem para sempre, a empresa do Kevin poderia não gostar de ter alguém com antecedentes trabalhando lá. - Woods, eu acho que... - m*l consegui terminar a frase pois ela adentrou a sala e saiu arrastando o Kevin pela roupa, assim que estavam fora ela agarrou seu braço o torcendo em suas costas de maneira tão bruta que eu tinha certeza que estava doendo. - Woods. - Afaste-se Jacobs, ele vai ser tratado como todo criminoso não me importo se é seu namorado. - ela falou autoritária me fazendo dar um passo para trás. - Você vai se arrepender de ter feito essa merda. Eu não entendia o por que ela estava tão furiosa mas decidi acatá-la e deixar que tomasse as rédeas, apesar de gostar dele eu entendia o quanto ele estava errado e apenas piorou a situação expondo seu preconceito. Como eu tinha muitos relatórios a fazer pensei que enquanto a Woods fazia a ficha do Kevin eu poderia iniciar meu trabalho mas antes que eu pudesse dar as costas para aquela cena caótica fui segurado pelo braço pela morena. - Você vai fazer a ficha dele, e o Dave vai levar esse porco para tirarmos uma linda foto que ficará marcada para posterioridade. - assenti com a cabeça ignorando o pedido de socorro que o Kevin estava fazendo com o olhar. Sentei-me a mesa e ligando o computador acessei o banco de dados da delegacia, uma chata dor de cabeça começou a me incomodar mas ignorei acreditando ser devido ao estresse que o Kevin me causou, digitando os dados no sistema me dei conta que eu estava prestes a violar toda a privacidade do cara com quem eu nem tinha um compromisso firmado ainda, mas ele não poderia me culpar depois já que fez por merecer e aquele era apenas o meu trabalho. Kevin Lawrence Miller. Só assim para descobrir seu nome do meio, fui adicionando as informações necessárias mas notei que precisava do relatório do policial que o prendeu para ter certeza do que houve e transcrever os fatos corretamente, então me levantei e fui até a mesa do Dave supondo que era ele quem estava no plantão da noite, peguei o arquivo que tinha o nome do Kevin e retornei a minha cadeira sentando novamente. Li por alto as informações até chegar na descrição da agressão. "A polícia foi acionada pelo namorado da vítima que alegou que ambos estavam vendo um filme quando o acusado - Kevin Lawrence Miller - chegou a casa procurando por sua esposa, como não a encontrou agrediu a vítima - Justin - que a princípio se defendeu mas teve seu braço quebrado durante a luta e uma costela fraturada, quando a viatura chegou ao local o acusado tentou fugir e alegou estar bêbado..." Apesar de tudo naquele relatório ser um ato absurdo e covarde a parte em que meus olhos congelaram foi quando disse que ele estava procurando a esposa. Se o Kevin tinha uma esposa, o que eu era seu? Engoli a seco sentindo meu coração errar uma batida. Eu era um amante? Terminei o relatório o mais rápido que pude e antes que a Woods retornasse sai da delegacia, eu precisava urgentemente respirar um pouco de ar e mesmo do lado de fora eu ainda estava sentindo a agonizante sensação de que estava sufocando. Eu não sei por que mas quando me dei conta estava recorrendo a única pessoa que eu achei que poderia me ouvir naquele momento. "Luke: Melissa, será que podemos nos encontrar? Preciso muito de uma amiga nesse momento."
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