Me recostando na madeira fria deixei meus ombros caírem e suspirei sentindo a culpa me dominar novamente, o Luke era perfeito, e estaria tudo bem se eu não me sentisse tão m*l por ter sido trocada justamente quando eu estava dando o meu melhor a aquele casamento falido.
Respirando fundo caminhei até a cozinha e passei a remover o jantar da geladeira para poder esquentar.
- Emily? - olhei para trás me deparando com o Kevin, ele se aproximou e deixou um beijo em minha bochecha, forcei um sorriso e caminhei até um dos armários simplesmente para me manter longe dele.
Eu conseguia disfarçar qualquer coisa mas nojo era muito difícil.
- Encontrei o Justin pelo caminho, ele me deu o dedo do meio. - Kevin sorriu parecendo confuso, eu não me surpreendia, na verdade sutileza nunca foi o forte do meu melhor amigo.
- Sabe como ele é. - murmurei optando por me ocupar em servir seu jantar e pegar o restante do vinho na geladeira. - Como foi no trabalho?
- Foi cansativo. - o ouvi dizer enquanto puxava a cadeira para sentar-se, me sentei a sua frente empurrando suavemente o prato em sua direção para que ele começasse a comer.
Quando estava forçando minha mente a pensar num assunto trivial para falar e não manter aquele silêncio horroroso meu celular tocou sobre a mesa, estendi minha mão para pegar mas o Kevin foi mais rápido.
Vi seu semblante mudar completamente, quando seu maxilar travou engoli a seco sentindo o medo dominar todo o meu corpo.
- Por que seu celular está lhe notificando o meu paradeiro? - o ouvi perguntar enquanto virava meu aparelho para que eu pudesse ver.
Empurrei a cadeira para trás me levantando rapidamente ao mesmo tempo que ele, dei alguns passos para trás vendo-o se aproximar assim como um predador fazia, e quando minhas costas tocaram a geladeira eu me senti exatamente como uma presa.
- Você está me vigiando, Emily? - ele apertou meu celular em suas mãos furiosamente. - Colocou um aplicativo para me rastrear? - respirei fundo o ouvindo perguntar entredentes. - O que você pensa que está fazen...
- Você me traiu, Kevin. - tudo bem que não era assim que eu queria fazer as coisas mas já que estava diante dele decidi erguer a cabeça não me permitindo ser acuada, eu finalmente o enfrentaria. - Não adianta negar.
Eu esperava que ele mentisse, que ficasse apavorado, ou que me pedisse perdão e tentasse se explicar, mas a sua reação foi completamente inusitada.
- E daí? - Kevin perguntou após soltar um sorriso debochado. - Está me rastreando por conta disso?
Levei alguns instantes para absorver que ele não dava a mínima para aquilo.
- Há quanto tempo? - perguntei me esforçando para manter minha voz firme.
O vi se aproximar a passos lentos até que estivesse a centímetros do meu rosto, não lhe daria o prazer de abaixar minha cabeça e aceitar sua intimidação então permaneci o encarando.
- Não interessa quem é ou há quanto tempo, eu trago comida para esta casa e faço todos os seus caprichos, com quem eu durmo não faz parte do seu papel como esposa. - espalmei minhas mãos em seu peito o empurrando para trás, sua reação foi rir daquilo como se não fosse nada.
- Você tem razão, não interessa mais pois eu quero o divórcio. - murmurei brava sentindo cada parte do meu estremecer de raiva.
- Divórcio? - desejei tirar o seu sorriso de escárnio no tapa. - Emily você não tem para onde ir ou que fazer da vida sem mim. - engoli a seco sabendo que era verdade. - Você não é ninguém.
Eu não era ninguém?
- Você deveria estar feliz, achei uma pessoa adorável que me idolatra e mesmo assim eu ainda volto para casa para ficar com você. - o observei se sentar a mesa e continuar comendo como se nada tivesse acontecido. - Sente-se e coma, você não vai a lugar nenhum, não seja doida.
Se o Luke soubesse o egocêntrico nojento e preconceituoso que ele era eu acho que ele não se rebaixaria a isso.
Respirei fundo e pegando meu celular sobre a mesa sai de casa, caminhei um pouco tentando espairecer mas meus pensamentos estavam em completa desordem.
Eu queria chorar, queria gritar, queria matar o Kevin mas principalmente eu queria destrui-lo, mas ele tinha razão, eu não era ninguém e não tinha nada, já ele tinha um enorme ego.
Caminhei por alguns minutos por aquelas ruas desertas sentindo o frio arrepiar meu corpo até que quando ergui meus olhos percebi que havia uma mulher me encarando.
- Moça do cachorro perdido. - Luke sorriu exibindo suas covinhas. - Está meio frio para andar sem um casaco, não?
- Está sim. - murmurei baixinho me dando conta de que estava na rua da casa dele, me chutei mentalmente por ter parado justamente próximo ao covil do amante do meu e******o marido.
- Você me parece um pouco triste. - o ouvi dizer e antes que eu pudesse responder algo Luke removeu seu casaco e o colocou sobre meus ombros me fazendo sentir o quentinho dele e o seu cheiro que estava impregnado nele. - Prontinho, um ser pequeno como você precisa estar sempre quentinha.
Pequena.
Mesmo que ele estivesse falando apenas da minha estatura eu acabei me lembrando das palavras do Kevin há poucos minutos sobre como eu era pequena e insignificante enquanto ele tinha tudo.
- Você encontrou seu cachorro? - assenti com a cabeça afirmando. - Que bom, então para estar aqui deve ter o perdido de novo.
Ergui meus olhos encarando-o, era inacreditável o fato de que eu estava diante do homem que estava atormentando meus pensamentos nas últimas 24 horas.
- Na verdade, eu estava somente espairecendo a cabeça. - sorri para ele após dizer.
Não era justo que minha vida virasse de cabeça para baixo e o Kevin risse disso sentindo que pode ter tudo na vida, não era justo, e eu faria um reparo nisto.
Retiraria tudo o que ele tinha até que só restasse vagas lembranças de seu ego enorme, e eu estava diante de uma das coisas que arrancaria dele.
O Luke.
- Dia difícil? - assenti com a cabeça fitando seus olhos castanhos gentis. - Você quer ir tomar um café? - Luke apontou para uma lanchonete que havia há algumas quadras dali. - Lá tem um ótimo bolinho de chocolate.
Em que mundo tomar um café com ele seria uma boa idéia?
- Se não quiser tudo bem... - o vi coçar a nuca sem graça. - m*l nos conhecemos e isso deve ser estranho, eu só achei que talvez pudesse ajudar a espairecer visto que me aparenta estar tão triste.
- Você costuma convidar para tomar um café toda garota desconhecida que vê na rua? - perguntei baixinho vendo-obficar ainda mais sem graça. - Relaxe, eu aceito o convite. - murmurei forçando um sorriso enquanto passava a caminhar pela calçada em direção a lanchonete.
- Então, você quer me contar o que te deixou triste? - Luke questionou enquanto me empurrava suavemente com o ombro. - Ou você pode começar me dizendo seu nome, eu me apresentei mas você não.
- Ou, podemos apenas beber o café. - murmurei abrindo a porta da lanchonete para que ele adentrasse.
Luke sorriu dando de ombros enquanto passava pela porta, para ela poderia ser nada demais, mas para mim era uma precaução para não ser descoberta por ele.
- Você é uma graça, moça do cachorro, tão fofa e misteriosa. - Luke murmurou exibindo suas covinhas. - Vamos nos sentar mais no canto, vou apenas mandar uma mensagem para não preocupar o meu namorado.
- Seu namorado? - a frase saiu de modo engasgado mas duvido que ele tenha notado. - Pensei que estavam apenas se conhecendo.
- Bom... sim, só estamos ficando no momento mas tenho a sensação de que ele irá me pedir em namoro em breve. - forcei um sorriso enquanto me sentava na cadeira em frente a dele observando aqueles olhos irritantemente apaixonados. - E você tem alguém?
- Eu estou... - parei por um instante pensando no que era apropriado dizer para ele. - Estou num momento conturbado da minha vida, entende? - assentindo a cabeça em compreensão ele estendeu a mão a colocando sobre a minha.
- Espero que tudo fique bem e você encontre alguém que possa amá-la. - travei meu maxilar recuando minha mão da sua sutilmente.
- O que desejam? - a garçonete questionou puxando um bloquinho de notas para anotar os pedidos.
- Eu quero um café e dois bolinhos de chocolate, e você? - Luke perguntou gentilmente.
Eu queria bater nele até que aquele sorriso gentil desaparecesse.