4: O peso da glória e da poeira da terra

1521 Words
O loft de Sofia cheirava a gardênias e desespero silencioso. Sobre a penteadeira de carvalho escuro, o convite para o Leilão de Caridade da Fundação Metropolitan brilhava em letras douradas. Era o tipo de evento que Sofia costumava usar como anestesia: música clássica, conversas sobre investimentos e a ilusão de que ela era intocável. Mas o objeto que realmente prendia sua atenção não era o convite. Era o que restara do envelope que ela tentara queimar na semana anterior. Um pedaço de papel amarelado, com as bordas enegrecidas pelo fogo que ela mesma apagara num ímpeto de covardia disfarçada de ódio. Com os dedos trêmulos, Sofia resgatou o fragmento. A caligrafia de sua mãe era trêmula, mas ainda carregava a elegância das mulheres que passam a vida dobrando joelhos e lençois. “...não importa o quão longe o vento te leve, Sofia, o Pastor sempre conhece o caminho de volta para casa. O inverno não dura para sem—” O resto fora consumido pelas chamas. “Sempre conhece o caminho de volta.” — Ele não conhece este caminho, mãe — sussurrou Sofia para o espelho, enquanto aplicava um batom vermelho tão intenso que parecia uma ferida. — Ele não entraria em um lugar onde o champanhe custa mais que o dízimo da sua igreja inteira. O salão do leilão estava saturado de "Glória Humana". Eric estava em seu elemento, movendo-se entre CEOs e modelos com a fluidez de um predador que nunca sentiu fome. Ele vestia um smoking feito sob medida que gritava poder. — Você está deslumbrante, Sofia — Eric murmurou ao ouvido dela, sua mão possessiva em sua cintura. — Hoje à noite, vamos garantir que o museu seja o assunto de todas as colunas sociais. Daniel está vindo. Eu o convidei. Sofia quase engasgou com o gole de água mineral. — Você o quê? Eric, Daniel Verara não pertence a este lugar. Ele é... — ela hesitou — ...ele é um homem de obras. De lama e vigas. — Exatamente — Eric riu, um som seco e sem alma. — Quero que ele veja o que o "sucesso real" significa. Quero ver como o santo se comporta quando cercado por deuses de prata e ouro. Vai ser divertido ver o brilho de justiça própria dele se apagar diante de um cheque de sete dígitos. Sofia sentiu um aperto no peito. Ela não queria Daniel ali. Não porque tivesse vergonha dele, mas porque tinha medo de que ele visse a vacuidade da vida que ela tanto se esforçara para construir. Quando Daniel entrou no salão, o burburinho pareceu diminuir por um microssegundo. Ele não usava um smoking. Vestia um terno escuro, simples, de um corte que sugeria que ele se importava com a decência, mas não com a vaidade. Ele não parecia intimidado pelas colunas de mármore ou pelos candelabros de cristal. Ele caminhava como alguém que já viu catedrais mais antigas e céus mais vastos. — Verara! — Eric o chamou, com uma cordialidade exagerada que beirava o escárnio. — Que bom que o seu compromisso na "paróquia" permitiu que você se juntasse aos mortais. Daniel aproximou-se, cumprimentando Eric com um aceno e voltando seu olhar para Sofia. Ele a estudou por um momento — não o seu vestido, não suas joias, mas seus olhos. Sofia sentiu-se nua sob aquele olhar. — Srta. Castello. Você parece... — ele buscou a palavra — ...armada para uma batalha. — É apenas uma festa de caridade, Daniel — ela retrucou, a voz mais aguda do que pretendia. — Algo que pessoas produtivas fazem para devolver um pouco ao mundo. — A caridade é uma virtude nobre — Daniel disse suavemente — desde que não seja usada para comprar o silêncio de uma consciência barulhenta. Eric soltou uma gargalhada f*****a. — Sempre com uma frase de efeito, não é? Venha, Daniel, vamos beber algo que não seja vinho de comunhão. Quero te apresentar ao homem que vai financiar o museu. Ele é um ateu convicto, você vai adorar o desafio. O jantar foi uma t*****a de etiqueta e subtextos. Eric fazia questão de ostentar sua visão de mundo materialista, tratando a fé como uma "curiosidade antropológica" ou uma "muleta psicológica". Daniel permanecia em silêncio a maior parte do tempo, comendo com uma gratidão silenciosa que irritava Sofia. No meio do prato principal, Eric inclinou-se para Daniel, a voz alta o suficiente para que os vizinhos de mesa ouvissem. — Diga-me, Verara, como você concilia essa sua "humildade cristã" com o fato de estar aqui, num evento que ostenta tudo o que o seu Mestre supostamente condenou? Não é um pouco... hipócrita? Sofia sentiu o sangue fugir do rosto. Ela conhecia aquele tom de Eric. Era o tom do acusador. Daniel pousou os talheres com calma. Ele olhou para Eric, depois para Sofia, e finalmente para os convidados à mesa. — O meu Mestre não condenou a beleza ou a riqueza, Eric — Daniel começou, sua voz calma cortando a arrogância do ambiente. — Ele condenou o fato de o homem colocar o seu coração nelas. Ele jantou em casas de ricos e de pobres. A diferença é que, para Ele, este salão não é uma montanha de sucesso, mas um hospital de almas. Todos aqui estão morrendo de sede, mas tentam beber das taças vazias do status. — E você, suponho, tem a fonte de água viva? — Eric ironizou. — Eu não a tenho, Eric. Eu sou apenas o homem que sabe onde a fonte está. E ela não cobra convites de mil dólares para ser acessada. Daniel então se voltou para Sofia. — O Museu da Memória que você desenhou, Sofia... você o fez para que as pessoas não esqueçam o passado. Mas hoje, olhando para você, percebo que você está tentando usar o museu como um túmulo para enterrar o que Deus quer ressuscitar em você. — Chega! — Sofia levantou-se, a cadeira raspando o chão com um som estridente. — Eu não vim aqui para ser analisada ou pregada. Eric, eu vou para casa. — Sofia, espere, o leilão ainda nem... — Eric tentou segurá-la, mas ela se esquivou. Ela caminhou apressadamente em direção à saída, os olhos ardendo. O ar do salão parecia subitamente tóxico. Ela precisava de oxigênio. Precisava do inverno. Ao chegar à calçada, o frio de Nova Iorque a abraçou. Ela começou a caminhar sem rumo, os saltos batendo no concreto como um coração em taquicardia. — Sofia! Ela não precisava se virar para saber quem era. Daniel estava a poucos metros, o hálito formando pequenas nuvens de vapor no ar gélido. — Vá embora, Daniel! Me deixe com meus ídolos, como você diz! — ela gritou, parando sob a luz amarelada de um poste. — Eu não disse que você é uma idólatra, Sofia — ele disse, aproximando-se devagar. — Eu disse que você está exausta. Exausta de carregar o peso de ser sua própria salvadora. Esse vestido, essa festa, essa carreira... são fardos pesados demais para ombros que foram feitos para serem carregados por Outro. — Você não entende — ela chorou, a máscara de maquiagem finalmente cedendo. — Eles tiraram tudo de mim naquelas reuniões de "santidade". Eles me fizeram sentir um lixo porque eu queria ser mais do que uma esposa submissa de um diácono. Eles usaram a Bíblia para me chicotear! — Eu sei — Daniel sussurrou, agora a apenas um passo de distância. — E meu coração sangra por isso. Mas não deixe que os lobos te convençam de que o Pastor é igual a eles. Os lobos usam a pele da ovelha, mas o Pastor deu a vida por elas. Ele tirou o próprio paletó e o colocou sobre os ombros dela. O calor do tecido e o cheiro de Daniel — madeira e algo limpo — a envolveram. — Sua mãe te escreveu, não foi? — ele perguntou suavemente. Sofia paralisou. — Como... como você sabe? — Porque a Graça é persistente, Sofia. Ela usa cartas, usa engenheiros teimosos, usa até o frio de Nova Iorque. Você n******e fugir de um amor que não depende da sua v*****e para existir. Sofia olhou para Daniel, e pela primeira vez, ela não viu um oponente ou um religioso. Viu um homem que a amava com um amor que ela não conseguia processar. Um amor que refletia algo muito, muito mais antigo. — Eu não quero voltar — ela sussurrou, a voz quebrada. — Você não precisa voltar para a religião, Sofia — Daniel respondeu, segurando suavemente a mão dela, que ainda segurava a pequena âncora de prata. — Você só precisa voltar para os braços d'Ele. O resto... o resto Ele mesmo reconstrói. Longe dali, Eric observava da entrada do salão de gala, seu rosto obscurecido pelas sombras. O mundo de vidro que ele e Sofia construíram estava rachando, e ele sabia que, contra a força daquela Graça, suas moedas de prata não tinham valor algum. O Inverno da Alma estava atingindo seu ápice. E a neve começava a cair, pura e implacável, cobrindo a sujeira da cidade com a promessa de um novo começo.
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