1: O baile de máscaras
A garrafa de champanhe na mão de Sofia Castello estava geladíssima que chegava a doer, mas ela não o soltava. Era a sua âncora. Se o soltasse, temia que a força da gravidade finalmente percebesse que ela não pertencia àquele lugar e a fizesse flutuar para longe, ou pior, desmoronar ali mesmo, sobre o mármore polido do Grande Salão de Prata.
— Um brinde à arquiteta do ano! — a voz de Eric ecoou ao seu lado, tingida de um orgulho que Sofia sabia ser, em parte, auto gratificação. Ela era o seu melhor investimento.
Sofia sorriu. Foi um sorriso perfeito, ensaiado diante do espelho de seu loft durante meses. Um sorriso que não chegava aos olhos, mas que era suficiente para os fotógrafos.
— À estrutura — ela respondeu com a voz rouca, brindando com o g***o de investidores. — Porque sem uma fundação sólida, a beleza é apenas uma mentira que espera para cair.
Todos riram. Sofia sentiu um gosto de metal na boca. “Mentira”. Ela era especialista nelas. Tinha construído sua vida atual como um de seus prédios: concreto armado por fora, vidro espelhado para refletir o que os outros queriam ver, e um isolamento acústico absoluto para que ninguém ouvisse os gritos do lado de dentro.
O salão estava repleto do que o mundo chamava de glória. Perfumes caros, luzes de LED, o tilintar constante de cristais. Mas, para Sofia, o ar parecia rarefeito. Cada elogio era uma pedra colocada em sua mochila. "Você é brilhante", diziam. "Você chegou onde poucos chegam."
“Se eles soubessem”, pensou ela, sentindo uma gota de suor frio escorrer pelas costas sob o vestido de seda preta. “Se soubessem que a menina que eles premiam hoje é a mesma que foi expulsa de uma congregação no interior, sob olhares de fogo e sussurros de "anátema".
— Está tudo bem, querida? — Eric aproximou-se, a mão pousando na base das costas dela. Um gesto de posse que, naquela noite, a fez estremecer. — Você está pálida.
— É apenas o cansaço do projeto de Dubai, Eric. Preciso de um minuto de ar — mentiu ela.
Ela esquivou-se com a agilidade de quem passou anos fugindo de conversas sobre a alma. Correu para a varanda do quadragésimo andar. O vento gelado a atingiu como um bofetão, e ela o recebeu com gratidão. O inverno estava chegando. O seu clima favorito. No inverno, tudo o que é supérfluo morre, restando apenas o essencial.
Sofia olhou para as luzes da cidade. Bilhões de pontos de luz, nenhum deles capaz de iluminar o escuro que ela carregava. Ela fechou os olhos e, por um segundo terrível, o som do trânsito lá embaixo transformou-se no som de um órgão antigo da igreja. O cheiro do rio tornou-se o cheiro de bancos de madeira encerada e Bíblias velhas.
“Onde te esconderás do Meu Espírito?” — uma voz, vinda de um lugar que ela jurou ter selado com sete chaves, sussurrou em sua mente.
Sofia abriu os olhos abruptamente. O pânico subiu por sua garganta como refluxo.
— Cala a boca — ela murmurou para o vazio. — Eu não sou mais aquela menina. Eu não volto para aquela prisão.
Ela voltou para dentro, encontrou Eric e exigiu que fossem embora.
Uma hora depois, o silêncio do seu apartamento de luxo era o seu único companheiro. Eric ficara no bar do hotel; ele não suportava os seus silêncios. Sofia despiu o vestido de grife, deixando-o cair no chão como uma pele morta. Vestiu um hobby simples e caminhou até a cozinha para beber água.
Seus olhos, no entanto, traíram sua v*****e. Eles se desviaram para a estante de livros, no ponto mais alto, onde livros de arte e arquitetura escondiam um volume pequeno, de capa de couro desgastada, que ela não tinha coragem de jogar fora e nem coragem de ler.
Era a Bíblia que sua avó lhe dera antes de tudo acontecer.
Sofia subiu num banco. Seus dedos tremiam. Ela tocou a lombada do livro. A poeira sujou as pontas de seus dedos, uma lembrança física do tempo que ela tentou apagar.
“A cana trilhada não quebrará...” — o verso bíblico que ela mais odiava, porque a lembrava de que ela ainda estava quebrada, ecoou em seu peito.
Ela recuou a mão como se tivesse tocado em brasa. Perdeu o equilíbrio por um segundo, o coração martelando contra as costelas. Ela não queria voltar. Ela não podia voltar. O preço de voltar era admitir que tudo o que ela construiu era palha.
Sentada no chão da cozinha minimalista, cercada por prêmios e luxo, Sofia abraçou os joelhos e chorou. Não era o choro de uma mulher de sucesso. Era o choro de uma menina de dezessete anos que ainda estava correndo na chuva, fugindo de lobos vestidos de pastores, sem saber que o Pastor das Ovelhas nunca tinha tirado os olhos dela.
Ela olhou para o relógio. 3:00 da manhã. A hora em que os demônios e os anjos costumam conversar.
Sofia pegou o celular. Ela precisava de algo real. Precisava de uma distração. Mas, ao abrir os e-mails da empresa, viu uma mensagem enviada às pressas pelo departamento de RH.
“Nova contratação para a supervisão de obras: Daniel Verara. Início imediato na segunda-feira.”
Sofia encarou o nome. Daniel. "Deus é meu juiz".
— Mais um para me julgar — ela sussurrou, limpando as lágrimas com as costas da mão. — Pois que venha. Eu já fui julgada pelos melhores.
Ela não sabia, mas o “Inverno da Alma” estava apenas começando. E, naquele ano, o gelo seria quebrado de formas que ela jamais imaginou.